quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Chegadas e partidas

Tenho meditado
sobre como chegou,
se fez presente
na minha vida
e, neste período,
sobre como se deu
cada uma de suas partidas.

Descobri
um tanto sobre a vida
e as relações humanas -
sobre ser o espelho
de outrem, mesmo não o sendo - 
e percebi,
enfim, que a cada despedida
me preparei
para uma nova chegada...

...mas não pensei
que desta vez seria
a chegada
da cicatrização de uma chaga,
que surgiu quando
me separei de mim mesmo.

Nunca imaginaria que
esta seria a chegada
de eu para mim.

Renovação

Fiz em Janeiro trinta e quatro, e não escrevi...
...está no fim do mês de meu aniversário,
faltam menos de dez minutos e nem vi
como o tempo pode me passar -
como se eu fosse um nada,
um momento qualquer no ar,
como um sopro de vento
corriqueiro ou uma ocasional chuvarada...

...faltam quatro minutos...
...inalo...
...respiro...

Esse Janeiro que passou depressa,
como minha vida tem passado,
tem de acabar...

...dois minutos...

Já está difícil formular algo por conta da pressão...

...um minuto...

Há de se renovar a ação
no fim desse Janeiro,
uma renovação em...

...Fevereiro.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Em meio a tormenta

Revejo as fotografias,
as poucas que consegui salvar...

...revisito as memórias -
guardo todas -
para não serem levadas
pelas ondas do mar
de meus olhos marejados...

...E, sendo um barco,
enfrento as tormentas
das ondas de minhas emoções...
...e como as maresias passam,
passam as diversas sensações
de portos estrangeiros,
só não passa esse amor...

...quando revejo as fotografias
da terra natal,
do porto de corpo teu,
sua terra, mar que nunca foi meu...

...só torço para não naufragar
nos soluços das ondas
que se confundem com os meus...

...um dia, quero à ti,
terra querida, voltar,
mas só vou conseguir
se essa tormenta me deixar...

domingo, 14 de janeiro de 2018

Ébria

Queria saber essa voz,
conhecer a mensagem;
poder ler essa imagem
que à mente vem veloz;
queria ouvir as figuras,
tal desenhar melodias
de tintos secos ao dia,
sentidos em misturas...

...eu não sei qual é a altura
que me faz pensar assim.

Dissentimento

Queridos poetas,
mesmo depois
de tanto lê-los,
tanto absorvê-los,
algo ainda me aperta:
um sentimento
sem nome
que não li poeta
algum que cita
junto sentir fome
e estar satisfeito.

Sentir ódio e amor,
saborear o dessabor
impessoal onde for,
e sem referências
de poemas.
Cabe-me descrever
essa plenitude vazia
de música em afasia
que tem sido me viver
nos últimos tempos;

escrever sobre o misto
suor, sangue, saliva e sal;
falar sobre vida sob o cal,
onde falta tudo e tem nada.
Nesse dualismo singular
constatei que num par
não acharei coisas afins,
sobrou-me escrever,
enfim,
como um tal poeta de mim...

...ainda sem nome para
este dissentimento(?).

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Cuidadoso

Odiaria
fazer "sofrer"
rimar com "você"
então, como vê,
para esquecer
a agonia,

deixo de associar à dor
e guardo tudo desse amor
com meu maior carinho
no coração e tomo meu caminho...

...quem sabe cruzo com o teu?

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Sintaxe atual

O problema de ter um coração
como o que tenho no peito
é ter certeza, de antemão,
que serei apenas um sujeito
oculto em qualquer oração
que faça parte o predicado
que tu és para a minha vida
desde que me me deixaste
sozinho com a alma sofrida.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Há limite?

Um céu nublado no verão
denota muitos sentidos,
é antítese, tal depressão
num dia feliz e ensolarado.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Cadeia alimentar

Quando me vejo sem você,
estou sozinho no Serengeti
e parece que me falta uma parte -
como se uma leoa
tivesse arrancado um naco
da minha carne,
um membro do corpo
um osso, quem sabe...
...a levar na mandíbula
o músculo que me bombeia
o sangue.

Onírico-realista

Há um pouco de ironia
na velhatual situação,
senão um quê de sarcasmo -
triste e risível, tragicômico,
pois diferente não seria -
quando estou ébrio
não devaneio,
não sonho;
quando sóbrio,
tenho pesadelos,
mais de um por noite,
e divago acordado.
Há muito tempo
que não sei mais
se estou desperto
ou dormindo,
se meu pesadelo é a vida
ou se a vida é um devaneio.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

(I)Medidas

Não quero ser de alguém,
apenas quero ser só meu;
tudo o que me aconteceu
me fez dono de ninguém.

Não quero ter um alguém,
apenas quero ter meu eu
e entender que o que me deu
não se pode cobrar além.

Pois na medida das coisas
das coisas imedidas,
não se dá além do que se é capaz,
não se recebe além do que é oferecido.

Porque atingir o equilíbrio
é aceitar que a equidade,
está em dar o que se é capaz de doar
sem esperar se será ou não - bem ou mal -
retribuído.


Sustentação

Eu era uma base
erguida por dois pilares
de sustentação
sobre uma fundação...

...devido às fases
da vida, cedeu um dos dois pilares;
fiquei bamba
e desabei em lágrimas...
Me quebrei quando cai no chão.

Tento me reerguer,
mas temo não ter poder
para me suportar;
temo sobrecarregar
o que me sobrou de pilar.

Era uma base bípede
e agora sou escombros,
pois não consigo
viver sem ajuda
para me levantar.

Sem o outro pilar,
perigo, novamente, desabar
diariamente,
me equilibrando
somente no último pilar
que me resta.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A idade sapiente

Estou prestes a sair
da fatídica idade
em que morre o cristo...

...e de tudo que fiz, digo,
não foi nem um quinto
do ele fez de alarde
antes de virar mártir.

Não sou religioso;
não nego o simbolismo,
tento tomar exemplo.

Talvez exista paraíso
e talvez seja honroso
adentrar em seus meios...

...mas não devo,
nem quero me preocupar
com o que haverá
depois da derradeira hora,

quero sim, e devo
me ocupar
com o que ocorre agora.

Vou passar a derradeira idade
desse cristo...

...assim como passei
a da morte dos ídolos
do clube dos 27,
quase 7 anos atrás.

Que isso me sirva
de algo para pensar
sobre a morte,
sobre ídolos,
sobre tempos
idos e vindos
e sobre a (falta de) sorte.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Apegar a si

Sim, lidar com o passado
é um trabalho inconcluso,
árduo, quase um abuso
pois implica ser desapegado.

Mas tenho apego por memórias
- penso que nossos únicos bens
são corpos, mentes e histórias,
o resto é, do necessário, além.

Se devo à memória o desapego,
prefiro a dívida do que o saldo,
pois não quero deixar de lembrar
o que fui e o que sou.

Só o passado se foi,
meu desapego comigo não,
esse meu eu não me passará.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Daqueles conselhos úteis...

...o que já foi jovem, adulto e velho,
me sentenciou em simplicidade:

"Tome cuidado, garoto,
com esse ego contido
pense em ajustá-lo
ao invés de contê-lo.

Cuidado também, garoto,
com o tal ego inflado
pense em educá-lo
ao invés de enchê-lo."

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Céu, Sol e Lua

Outra noite eu me fiz de céu
e vi me brilharem muitas estrelas,
mas dentre todas elas
só a lua me iluminava,
passando,
fugindo do sol.

Outro dia eu me fiz de sol
e ouvi cantarem cedo os galos
e alimentei plantas com meus raios;
as sementes que seu solo
fecundava
e cresciam à mim.

Por fim, me fiz de lua,
ouvindo os seres noturnos,
inspirando obscuros cantos
de sentidos ocultos
mas visíveis,
como faço com meu halo.

Fui universal
como o céu,
solitário
como o sol
e inspirado
como a lua.

domingo, 26 de novembro de 2017

Momento misantrópico

Desejo, no auge dessa misantropia,
que aflige tal dilúvio sem maresia,
me atirar num período sabático
dessa humanidade e todos seus cercos,
morais,
dogmáticos,
políticos,
distópicos
e ideais...

...mas se nasci com habilidade para expressar,
não exercê-la se prova desperdício desse ser
que sou, nesse louco mundo, de gente sem expressão.

Mal Caseiro

Minha função é cuidar
desta velha e grande morada,
deste velho coração
do meu corpo-patrão.

Não dei o meu melhor
e deixei ir embora namorada
e amor, de supetão,
machucando o coração.

O dono ficou a chorar
pela falta não remediada:
do órgão perdeu um pedação
e agora demora a cicatrização.

Eu, que não tinha um lar,
não cuidei da morada
provisória-fixa em antemão
e agora faço uma arrumação

para tentar secar esse mar
de uma visão alagada
por correntezas do ribeirão
da (falta) de emoção

que atinge todo esse lugar.
A única coisa incumbida
a mim era a preservação
desse lar-corpo-patrão.

Mal caseiro que sou,
mal cumpri minha função.

Gin Tônica

Cá estou
a tentar aproveitar a noite ,
aceitando o convite
que um amigo propõe,
para uma festa - me vou
e não existe nada que me lembre,
mesmo que se pense,
ou me fogem razões
para te acessar na memória...

...Até que me oferecem gin tônica
e todas as memórias vêm à tona.

Fico a um passo
de escorregar na beira do abismo,
e quando me vejo sozinho,
me entrego e deságuo
mais que a chuva da noite
mais que o afluente do rio,
longe de tudo e de todos,
num canto qualquer
em lacrimal desvario.

Não consigo mais beber
o seu drink favorito.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Notei-me...

...de repente, nu.

Como se não houvesse
roupa que me cobrisse
nesse frio.

Um cu de situação.

Um grande v(ácuo)(azio).

"Pseudo"

...De repente, um pseudônimo
me definiu um pseudo-poeta,
assim, sem dó, sem indireta,
mas o pseudônimo é, no mínimo,
o que "pseudo" é de verdade:

é e apenas diz pura falsidade.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

(falta de) Esperança

Eu, apegado à palavras,
recebo a falta.
Não é justo pedir
por suas palavras
e, enfim,
me minto:
espero um dia
me acostumar
com o fato de você
não mais se declarar
a mim.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Máscara

Quem vê o sorriso
não entende a desgraça.
Quem ouve a risada
não enxerga o vício
em melancolia
que assola a vida
de um ser que finge
ter alegria.