terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A idade sapiente

Estou prestes a sair
da fatídica idade
em que morre o cristo...

...e de tudo que fiz, digo,
não foi nem um quinto
do ele fez de alarde
antes de virar mártir.

Não sou religioso;
não nego o simbolismo,
tento tomar exemplo.

Talvez exista paraíso
e talvez seja honroso
adentrar em seus meios...

...mas não devo,
nem quero me preocupar
com o que haverá
depois da derradeira hora,

quero sim, e devo
me ocupar
com o que ocorre agora.

Vou passar a derradeira idade
desse cristo...

...assim como passei
a da morte dos ídolos
do clube dos 27,
quase 7 anos atrás.

Que isso me sirva
de algo para pensar
sobre a morte,
sobre ídolos,
sobre tempos
idos e vindos
e sobre a (falta de) sorte.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Apegar a si

Sim, lidar com o passado
é um trabalho inconcluso,
árduo, quase um abuso
pois implica ser desapegado.

Mas tenho apego por memórias
- penso que nossos únicos bens
são corpos, mentes e histórias,
o resto é, do necessário, além.

Se devo à memória o desapego,
prefiro a dívida do que o saldo,
pois não quero deixar de lembrar
o que fui e o que sou.

Só o passado se foi,
meu desapego comigo não,
esse meu eu não me passará.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Daqueles conselhos úteis...

...o que já foi jovem, adulto e velho,
me sentenciou em simplicidade:

"Tome cuidado, garoto,
com esse ego contido
pense em ajustá-lo
ao invés de contê-lo.

Cuidado também, garoto,
com o tal ego inflado
pense em educá-lo
ao invés de enchê-lo."

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Céu, Sol e Lua

Outra noite eu me fiz de céu
e vi me brilharem muitas estrelas,
mas dentre todas elas
só a lua me iluminava,
passando,
fugindo do sol.

Outro dia eu me fiz de sol
e ouvi cantarem cedo os galos
e alimentei plantas com meus raios;
as sementes que seu solo
fecundava
e cresciam à mim.

Por fim, me fiz de lua,
ouvindo os seres noturnos,
inspirando obscuros cantos
de sentidos ocultos
mas visíveis,
como faço com meu halo.

Fui universal
como o céu,
solitário
como o sol
e inspirado
como a lua.

domingo, 26 de novembro de 2017

Momento misantrópico

Desejo, no auge dessa misantropia,
que aflige tal dilúvio sem maresia,
me atirar num período sabático
dessa humanidade e todos seus cercos,
morais,
dogmáticos,
políticos,
distópicos
e ideais...

...mas se nasci com habilidade para expressar,
não exercê-la se prova desperdício desse ser
que sou, nesse louco mundo, de gente sem expressão.

Mal Caseiro

Minha função é cuidar
desta velha e grande morada,
deste velho coração
do meu corpo-patrão.

Não dei o meu melhor
e deixei ir embora namorada
e amor, de supetão,
machucando o coração.

O dono ficou a chorar
pela falta não remediada:
do órgão perdeu um pedação
e agora demora a cicatrização.

Eu, que não tinha um lar,
não cuidei da morada
provisória-fixa em antemão
e agora faço uma arrumação

para tentar secar esse mar
de uma visão alagada
por correntezas do ribeirão
da (falta) de emoção

que atinge todo esse lugar.
A única coisa incumbida
a mim era a preservação
desse lar-corpo-patrão.

Mal caseiro que sou,
mal cumpri minha função.

Gin Tônica

Cá estou
a tentar aproveitar a noite ,
aceitando o convite
que um amigo propõe,
para uma festa - me vou
e não existe nada que me lembre,
mesmo que se pense,
ou me fogem razões
para te acessar na memória...

...Até que me oferecem gin tônica
e todas as memórias vêm à tona.

Fico a um passo
de escorregar na beira do abismo,
e quando me vejo sozinho,
me entrego e deságuo
mais que a chuva da noite
mais que o afluente do rio,
longe de tudo e de todos,
num canto qualquer
em lacrimal desvario.

Não consigo mais beber
o seu drink favorito.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Notei-me...

...de repente, nu.

Como se não houvesse
roupa que me cobrisse
nesse frio.

Um cu de situação.

Um grande v(ácuo)(azio).

"Pseudo"

...De repente, um pseudônimo
me definiu um pseudo-poeta,
assim, sem dó, sem indireta,
mas o pseudônimo é, no mínimo,
o que "pseudo" é de verdade:

é e apenas diz pura falsidade.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

(falta de) Esperança

Eu, apegado à palavras,
recebo a falta.
Não é justo pedir
por suas palavras
e, enfim,
me minto:
espero um dia
me acostumar
com o fato de você
não mais se declarar
a mim.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Máscara

Quem vê o sorriso
não entende a desgraça.
Quem ouve a risada
não enxerga o vício
em melancolia
que assola a vida
de um ser que finge
ter alegria.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Vozes

Ouço vozes em cada poesia.
Elas cantam, me levando
do deleite à penúria,
do enfeite à amargura;
me ordenam palavras
rimadas ou não,
sentidas ou não,
como se eu fosse um instrumento
por onde as emoções
de um mundo passam
e se concretizam em papel;
ouço estas vozes que falam
dos mistérios do céu
inalcançável em sua vastidão,
tal cantam de emoção.
um pequeno pedaço
de sentimento.

SOCORRO!

Alguém me salve!!!

Me salve de minha própria poesia,
desse estado em que paro minha vida
para escrever sobre sentimentos
meus e seus, sobre tantos momentos
que muita gente um dia viveu.

Me salve dessa sina, antítese de mim,
ou me ajude a não enlouquecer por letras,
versos, estrofes e poiesis.

Me salve de mim, enfim,
pois se a poesia me sai pelos poros,
entendo que estou a flor da pele
e o perfume que estou exalando
não é dos melhores, mas sim barato,
humano, fraco, podre e fedido.

SOCORRO!!!

--

Mudei de ideia, não me salve!
Escreverei até não sobrar nada...

...e então, no nada,
criarei algo e será tudo.

Não me salve, mais.

Serviçal

Escravo sou
de minhas próprias vicissitudes,
de mudanças de atitude.

Por onde vou
não há o que pare este alude
de emoções, vícios sem virtudes.

Lavragem

Sobre minhas palavras,
realmente me falta poder,
elas me levam longe
dentro da alma
e dum sentimento
que queima tal chama
no pedaço de momento
que somos dentro
da existência.

Sobre minha lavra,
é essa sorte feita para ler
e entrar direto onde
o peito perde a calma
e se agita pelo vento
- este que infla(ma)
os (coraç)pulmões, lento -
que enfrento
até minha decadência.

Noturno Depressivo

Há anos apago
meus sonhos e pesadelos
na brasa de um baseado
sem afagos,
apenas torpor
e sono tranquilo...

...exceto nesta última noite,
em que dormi sem fumar:

De repente fiquei entorpecido,
atordoado por estar sonhando,
ou tendo pesadelo... é o que lido
nas minhas noites.

Enfim você apareceu.
E o trato social meu e seu
é sempre o mesmo,
a vontade, o amor
o tesão e a dor.

Te cumprimentar em sonho
é um delírio.
Te amar em vida
é um auspício.

Te ver resolvida
com outra pessoa
é meu suplício.

Lidei com o que não restou de nós,
ao vê-la com outro.
E, mesmo assim, o que não restou
deixou em mim um pedaço de ti.

Acordo apanhado em lágrimas
e choro pelo resto de meus dias,
enquanto eles durarem.

Fumo para não sonhar,
nem ter pesadelos
não por medo,
mas para viver,
tentar viver sem você...

...e está cada dia mais difícil.

Estou perdendo minhas forças.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Resistência Trabalhista

Entre burocratas
e projetistas,
me encontro, ácrata,
em rebeldia
e não mais iludido,
não só mais um fodido.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Incoerência dessa Proclamação

Não entendo o motivo
de comemorar
por uma res
que não é pública,
ainda mais sendo
esse Atlas vivo,
esse povo Sísifo
que nunca tem vez,
somente súplicas
em sua voz.

Maturação

Quando se trata de álcool-sentimentalismo...

...sou daqueles
que vão sozinhos beber
só para lembrar;
porque quem sai
com amigos,
quase sempre,
bebe para esquecer.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Observando a água da chuva

Aguardava a chuva
cair e, depois, cessar
numa calçada-mar
do bueiro na curva
da avenida paulista
com a campineira
alameda duma vista
bela que se reitera
ao cair das lágrimas
de um céu triste
nas alegres páginas
do verão que se assiste
de uma curva
empoçada.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Poesia Crônica

Este crônico cansaço
já se tornou cronista
de si mesmo;
me lista
motivos do que faço
para o fim da saúde
mental e física de mim,
a esmo.

Dois pesos, duas medidas

A soberana e imbatível hipocrisia
da sociedade brasileira,
a impassividade da mesma
classe que denominamos burguesia
permite aberrações
ao bom senso do humanismo.

Vejam que engraçado:
Eduardo foi detido pela polícia...
Não o Cunha, mas sim, Suplicy.

Pois é, disparate igual, nunca vi...
Na verdade vi piores.
O Cunha tá de tornozeleira. Chique.
Parece que lesar a população
é algo que merece uma jóia em comemoração.

Um jovem detido por portar Pinho Sol,
gente detida por defender seus direitos,
pessoas detidas por apenas manifestar.

Viver nesses dois Brasis
em que um só fode e o outro é sempre fodido,
é ver uma das realidades mais vis
que nos atinge cada qual como indivíduo.
Não me espanto se houver uma escalada
ao monte Everest da anomia,
porque estão nos vedando a anarquia,
e agora estão nos amordaçando
a chance da arte, logo mais a da fala.

E quando acabar a poesia,
junto com a economia,
só restará o sangrar...

...a quem?

Não arrisco responder tal questão.

Se não ficou claro ao cidadão
de que lado estes senhores estão,
pelo menos continua claro que há dois pesos,
duas medidas.
Uma dualidade daquelas
em que a sociedade se mostra partida.

Em menos de um minuto...

Tenho menos de dez minutos
para escrever um poema
e imaginar uma pequena cena
que acontece em segundos
mas pode durar uma eternidade
dum tempo sem quantidade.