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terça-feira, 30 de junho de 2015

Papo de nuvens

E assim se viram,
enquanto respiram
teus aguaceiros
que inundam de ideias
e pensamentos:
a mente ociosa,
sentada jocosa
no banco da praça,
percebeu a chuva
apagando a chama
e se viu comparsa
da vizinha de banco,
num solavanco
saltaram dos assentos
e assentaram-se ao vento,
embaixo da árvore
que tem a copa gigante,
verificou no instante
se há algo que piore
a situação,
mas acharam
as ferramentas certas
para fazerem, espertas,
nuvens de fumaça,
num canto seco da praça,
enquanto a chuva não passa.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Chagas no Chão

Quem reclama de ciclovia
talvez não tenha, um dia,
passado por risco na via.
Então, forço-lhe afasia:

Já fui derrubado,
já me tiraram fina,
já fui até jogado...
Já chega dessa sina!

Então quando for reclamar
da tinta vermelha, não se zangue,
faça um esforço em pensar
na cor de seu próprio sangue.

Ali, estirada, poderia ser sua paixão...
Não é "só uma indumentária";
a ciclovia, sim, se faz necessária
para não haver mais chagas no chão.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Questões sobre religiões

Se deus é onipresente,
onisciente e onipotente,
por que nos faz tão
dementes?

Se a falta de deus
satisfaz o ateu
por que ele se mete
no que não é seu?

Se um deus não basta
o pagão ri e atesta
que os outros erram,
mas ainda se arrasta.


Acho muito engraçado o ateu
que critica quem crê em deus
e vice-e-versa...

não sei quem é mais religioso.

Se eu acredito em algo ou não,
não é da conta de ateu, pagão ou cristão,
já não basta vivermos juntos?
Tenho que compartilhar tudo,
o amor, o pensar, tudo em conjunto?

Oras!

Se sua religião, ateu, cristão ou pagão,
não te completa o suficiente,
não é me criticando ou convertendo
que você vai resolver seu problema.

Siga o que acredita, mas desista,
eu não quero te seguir,
já basta conviver comigo todo dia,
não preciso ficar a me mentir,

sei que não ligo para religiões
e que o tempo não me espera,
todos vocês me dão sermões
mas a vida passa como uma fera:

Rápida, selvagem e impiedosa,
como o tempo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ciclo infinito da vida

Ao mergulhar minha cabeça
na nascente do rio da vida,
sinto a água, um tanto fria,
fazer com que ideias esqueça.

Tudo parece um tanto animal
quando sorvo desse líquido
misturado à terra, mas límpido,
então sinto o instinto irracional

ao qual todo humano retorna:
este seu estado mais natural
em meio à tanta beleza.

Este é o ciclo da vida eterna:
é nascer e morrer; é trivial.
Assim funciona a natureza.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Aquaplanagem (la petit mort)

A sensação de adrenalina
vira uma qualquer-ína
em alta velocidade
por trás do volante
na chuva, de repente
o freio na tempestade
o espaço e o tempo
param a respiração
por um momento
a aderência some
os sulcos escorregam
o grito, tudo não resume
a pequena morte.

Harmonia

Por que será que negamos
à vida a sua razão de ser
sem sequer se arrepender
da crueldade que fazemos?

É mais fácil deixar se cegar
e viver o mundo de sonhos
que fazer o que proponho:
abrir os olhos para acordar

e ver que o mundo é um só
dele você também faz parte
ainda não dá para ir à Marte

então não deixe tudo virar pó
da natureza não mais se afaste
viver em harmonia que é a arte.



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Balançar nas ondas

Ondas, e a balança
uma hora cansa
de balançar
nessa dança
de equilibrar...

...e tudo 'desamansa'
ou se lança
em louca esperança
de tudo se acalmar.

Depois do céu chorar
a bonança
vem e faz a balança
se equilibrar.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Problema familiar...

Nasceu, ao pai Ódio
e à mãe Intolerância,
a filha Ignorância.

E essa vida de ócio
na área intelectual
tem opinião irracional

e sabe de seu mal,
mas está confortável
ao ser, assim, "amável"

com todo ser animal
que cruze seu caminho,
exceto com o feinho

pois este é execrado,
uma anomalia, um pária,
perdido na sua área.

E o julgamento revive,
"uns são mais que outros
os de menos são monstros"

de repente, em breve
alguém repetirá tal frase.
Terá como resposta: "Que fase..."

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Juras...

Juramento de Hipócrates
feito em juízo por hipócritas;

Juramento do Engenheiro
feito em função de dinheiro;

Juramento do Advogado
feito pensando no povo como gado;

Juramento do Economista
virou juras de "segregalista";

Juramento da bandeira
é, do militar, mais uma asneira;

Juras de amor
ainda causam muita dor.

Jurar é fácil,
tornando o fazer,
e ser bom,
difícil.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Metazoa medíocre

Entre istas e ismos,
o mundo sofre sismos
e não sabe onde parar;
gira e faz onda no mar
sem sequer entender
que vive junto com você
que não acredita em E.T.,
mas no entanto é raro
e também comum.

Ao faro do universo, é só mais um.
Complexo?

--
Terra Rara e Comum num universo de complexidades e simplicidades.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Hoje em dia...

Vemos o dinheiro ter mais valor que a vida,
a palavra ser mais forte que a pura natureza,
mas no mundo real em que deixam feridas
são a parte artificial que gera falsa beleza.

Pois o mundo, por si próprio, já se sabe belo,
o resto foi inventado para alimentar nosso ego.

--

Enfim, o culto midiático à violência chega ao ápice contra-evolutivo, quando numa briga de times rivais (no caso, políticos), uma incitação nos jogue novamente 2000 atrás, para a barbárie da Antiguidade. É muito interessante ver como uma pessoa com um discurso inflamado pode mover uma nação para ações irracionais.
Em pleno ano de 2014, no nosso calendário vigente (nomeie como quiser, o chamo assim mesmo: "vigente"), pessoas ainda acreditam nas mesmas mentiras: dinheiro, cidade, consumo, política, violência... Tudo que deturpa a evolução do raciocínio humano é levado à idolatria. Aí lhe pergunto, cidadão de bem ou mal, será que você precisa disso tudo ou de comida, paz e um teto para morar?
Resumo alguns termos clássicos que não são explicados amplamente:
-política = interesse (seriamos interesseiros e aproveitadores?);
-dinheiro = manipulação (quando você produziu sua própria comida ao invés de comprar?);
-consumo = exagero (afinal você é humano ou consumidor?);
-cidade = FEUDO (e seus moradores continuam alegres em serem escravos e plebeus?);
-violência = inveja (quando deixaste de realizar sua vida para cobiçar destruir a de outro?).

Não são definições absolutas, mas sim mutáveis, e em pleno ano de 2014, parece que voltamos ao comportamento pré-medieval, quando jornalistas atuam como fomentadores de inquisição e apedrejamento popular.

Mas o mundo natural pratica sua própria justiça, pessoas que não domam suas palavras, serão vítimas de si mesmas de seus pensamentos e pesadelos; e antes que seus egos se tornem grandes o suficiente para ofuscar o Sol e iluminar todo um planeta, morrerão como qualquer ser humano, e terão que se contentar que a humildade é a única característica que lhe sobra na morte, pois essa batalha nenhum ego poderá vencer.

Que o mundo aprenda com mais uma lição dada da mais triste maneira, porque do jeito que a carruagem anda, está cada vez mais difícil aprender com felicidade...


Obs.: Se seu ego é tão grande ao ponto de desejar ser lembrado, pense bem em que tipo de lembrança quer deixar. ;)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Para a desenhista

Só digo parabéns, porque não sei desenhar,
mas, tão bem sei que vou te poetizar,
nem sinto a necessidade de num papel pintar,
deixo isso para quem sabe me encantar.

Parabéns, menina de traço e cor,
que rouba todo dia para si o meu amor.

Para a desenhista

Só digo parabéns, porque não sei desenhar,
mas, tão bem sei que vou te poetizar,
nem sinto a necessidade de num papel pintar,
deixo isso para quem sabe me encantar.

Parabéns, menina de traço e cor,
que rouba todo dia para si o meu amor.

terça-feira, 15 de abril de 2014

A lua que não vi

Como é engraçado ver o paulista reclamar
adoidado que perdeu uma vista a admirar,
que não pôde enxergar nada anunciado
por ver o céu acima muito poluído.

Vi nuvens vermelhas, mas nada de lua,
apenas massas de poluição iluminando a rua
e pensei:

“Amanhã o mundo se acabará em hipocrisia,
pois o ser suja, não cuida, e daí fala heresias,
mas em momento algum mudou sua atitude,
nem em pensamento surge algo que a mude...

Então não reclame sobre a culpa dos outros,
nem se inflame, pois os defeitos estão expostos
para todos verem, ao contrário dessa lua
rubra que, talvez, poucos verão linda e nua,
pois hoje o ser humano mal cuida de si,
quiçá do planeta, que também sofre.

O tempo passa, tudo morre
e ninguém ri.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Crosby, Stills, Nash & Young - Déja Vù

Peço atenção E DESCULPAS, pois o texto de hoje é longo, mas é super-válido. ;)

A querida companheira estava dirigindo hoje cedo a caminho do trabalho e eu, no banco do passageiro, sintonizei a Rádio Eldorado (tinha propaganda nas outras emissoras e fiquei caçando algo para ouvir...) e, de repente, ouço “Woodstock” de Crosby, Stills, Nash & Young e sinto uma nostalgia, vai lá saber se isso é porque a década de 60 é a época que mais gosto da música popular mundial – vide a música brasileira dessa época, cada composição linda – ou uma questão sentimental por conta de alguns discos que ouvi sentado ao lado de meu pai, um apreciador de música, mas a questão é que este disco, especificamente, este pequeno e curto álbum chamado “Déja Vù” desse quarteto, acompanhado de Dallas Taylor (bateria) e Greg Reeves (baixo), devidamente creditados e fotografados NA CAPA, tem sido parte da trilha sonora de minha vida, mesmo não tendo vivido naquela época. Não sei dizer o que raio de sentimento aflora quando ouço esse disco, só sei que é um daqueles poucos que posso dizer algo do tipo “me sinto em casa”. Meu pai não tinha esse disco, mas falava dele como se fosse algo fenomenal, de outro mundo, mas nunca achou para comprar fácil e num preço bom – a classe média na década de 80 e 90 não era abastada, com tanta inflação, comprava-se o pão da semana, pois no dia seguinte a subida de preço era vertiginosa. Recentemente o ouvi conversando com um amigo, lembrando como era difícil para eles até fazer compras, pois tinham que sair correndo antes que o etiquetador de preços do supermercado aumentasse o valor de cada produto, eram os bons tempos de ditadura, economia fantástica, importação PROIBÍDA, tecnologia defasada e mal se podia ouvir Chico Buarque, Geraldo Vandré, Titãs, etc, sem a avaliação da censura sobre o que deve ou não ser absorvido culturalmente: TUDO MIL MARAVILHAS. Vou parar JÁ com o discurso político (foi só para estabelecer um cenário real) e vou retomar a história. Enfim, meu pai não tinha esse disco e eu, já com 12 anos e viciado em música (doses cavalares diárias) em 1996, comecei a fuçar nas locadoras de CDs por discos novos, bandas novas; o MP3 apareceu na minha frente só no ano seguinte, e demorava no mínimo uma hora para baixar um arquivo de música com péssima qualidade de áudio. Conheci muita coisa, pegava CDs emprestado, copiava em fitas, emprestava CDs, trocava fitas com amigos (tínhamos o costume de pegar um CD novinho e ouvi-lo seguidas vezes, copiando uma fita por vez para cada um), mas alguns discos ficavam na minha mente como pulga atrás da orelha... Na verdade, muitos discos ficaram como pulga, coçando minha curiosidade, eu via as capas (a internet tinha acabado de chegar à casa dos meus tios) quando buscava por nomes no “Yahoo!” ou no “Cadê?”, e ficava besta tentando adivinhar como seria cada disco, de acordo com as referências que tinha até então. Só quando fiz 15 anos fui ouvir tal disco, já ouvia heavy metal e tentava, como qualquer “aborrescente”, renegar qualquer autoridade familiar e suas culturas, mas não conseguia NÃO GOSTAR das músicas que meus pais ouviam, nunca consegui DESGOSTAR (diferente de “enjoar”) do que gostei até então, então o Sr. Headbanger Babaca que vos fala ouvia Marisa Monte, Toquinho e Vinicius, Pink Floyd, Genesis, Yes, Fleetwood Mac, Elton John, Tim Maia, Alcione, Jethro Tull, UB40, Simone, Cidade Negra, Fagner, Chico Buarque, Djavan e outras coisas, tudo misturado com o metal e a música atual da época, Planet Hemp, Nação Zumbi (com o Chico), Raimundos, Skank, a cena Grunge, mas tudo escondido no mundinho do meu quarto. Falar para os amigos que eu gostava de Commodores? Não... Que eu cantava com os discos do Zé Ramalho??? Nem pensar!!! Que besta eu era... Achava que isso importava muito. Fiz amizades na escola, algumas dessas duram até hoje, e o pai de um deles tinha (e ainda tem) uma coleção, invejável, a maior que tinha visto naquela época. E PASMÉM, ele tinha o disco que meu pai me falou e despertou minha curiosidade por tantos anos. Eu não tinha ideia do que ouviria, já conhecia Neil Young e gostava muito, conhecia o David Crosby, mas ainda como guitarrista do Byrds, também já ouvira Hollies do Graham Nash e o Buffalo Springfield do Stephen Stills (e Neil Young), mas nunca tinha ouvido na vida esse timaço junto. Quando apertei play, dei de cara com um folk rock psicodélico diferente, quatro vozes fazendo um coro que ressoa até hoje na memória, músicas passando por diversos climas, do blues ao jazz ao experimental, mas sempre com uma linguagem popular e de fácil assimilação, mas não pense que é um disco bunda, é diferente de tudo. Quando meu pai chegou do trabalho e viu o CD que peguei emprestado, ficou feliz, lembro disso até hoje, deu um jeito de ouvir bastante antes de eu devolver (ele não tinha mais toca-fitas no carro, mas também não tinha como copiar o CD). Para você entender a alegria do meu velho, a minha alegria e a alegria do festival de Woodstock, você tem que saber que esse supergrupo foi o único na história que conseguiu rivalizar em popularidade com os Beatles no hemisfério norte, em sua curta duração. Esse disco é tão influente que ouço nuances dele em vários artistas folk, mas a obra inteira é uma viagem completa. Difícil você não se sentir numa fazenda enquanto ouve “Our House”, muito mais difícil você não sentir nostalgia de um lugar onde você nunca botou os pés ao ouvir “Helpless”. Difícil não sentir a angústia de “Almost Cut My Hair”, difícil não se deixar levar com “Carry On” (trocadalho do carilho?)...

Difícil ouvir apenas uma vez.

Depois que ouvi, larguei a mão, mostrei para todo mundo, a maioria torceu o nariz por não ter um solo na velocidade da luz, por não ter guitarras com distorções no talo, um baixo reto e pulsante ou uma bateria que mais parece metralhadora, mas eu não consegui desgostar desse disco, nunca consegui, é um dos poucos discos que é um porto seguro, sempre volto para ele, e nem é o meu favorito, nem de meu pai, mas tem um lugar guardado no meu coração. Foi por causa desse disco, especificamente, que admiti que gosto de música, acima de qualquer definição de estilo ou gênero. Dali para frente, não sentia que precisava esconder que gosto de samba, bossa nova, funk, reggae, ska, soul, r&b, rock, heavy metal, brega, música erudita, jazz, etc...

Não sei se você vai gostar desse álbum, mas fica aqui o link para vossa apreciação, talvez você tenha um choque, mas não se preocupe, apenas feche os olhos e dê toda atenção que puder apenas à música. Esse pequeno grande álbum não pode ser esquecido, nunca!

Se puder, quiser e não for atrapalhar, comente falando o que achou do disco. J

www.youtube.com/watch?v=RnOXkedBmRs
--

Texto: Ernesto Gennari Neto.