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quinta-feira, 16 de julho de 2020

Cuidados

Cuidar de si é uma arte.

É não surtar diante
da melancolia
latente
que cada vez
numa tocaia
diferente
quer o seu revés.

É não esquecer
de exercitar
sua morada
permanente
para não padecer
sem o lar
digno que é
seu corpo presente.

É ser responsável
com si e com todos,
sendo amável,
pois só o amor

cuida.


O amor se dá pelo zelo
e pelo respeito.

E o cuidado se dá pelo amor
de sê-lo.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Verbo Acabar

Se há retorno
então o fim não chegou,
foi apenas um intervalo
de um ciclo
ainda não circunscrito,
onde as pontas
não se encontraram
para completar o círculo.

O que deve acabar
não deve ter retorno,
pois o verbo é claro
em seu significado:
algo que acabou
tem seu ciclo completo.
Bom ou não, se completou.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Cristas e Vales

Duas coisas andam
uma na contramão
da outra:

O desespero
e o amor próprio.
Parece óbvio...

...,MAS NÃO É!

Esquecemos
quem somos
e perdemos a fé
que um dia tivemos.

Então quero te lembrar
que desesperos são gotas
perto do amor-próprio,
que é, de si mesmo, mar,

com todas as ondas
compostas de cristas
e também vales.

Altos e baixos
existem,
assim como as águas
puxam e empurram.

Não seja uma gota,
seja você seu próprio mar.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Espero o degelo

O sol ilumina lá fora,
e eu, aqui dentro,
a sombra enfrento -
meus demônios, o frio,
a ausência do calor
que me aquecia outrora.

E por que não saio?

Porque lá fora caio
de joelhos esperando
a sua temperatura -
mais quente que o sol -
que sempre degela
o meu frio coração.

domingo, 14 de junho de 2020

Pele-Perfume

Você viaja e sinto falta
do perfume da tua pele
me invadindo o olfato
como algo que impele
êxtase, dando o barato
em uma mente incauta.

Meu amor, meu vício
minha droga, suplício,
mal espero a sua volta.
A nossa vida conjunta
é dessas sem artifícios,
apenas reais resquícios

que ficam
quando nos afastamos
e não nos deixam
quando nos encontramos.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Perdido no tempo

Já não recordo
o início dessa loucura.
Perdi as contas
dos sentimentos
entre amor e fúria -
essas duas pontas
de um fino barbante
trançado 
que seguram tormentas
dentro de cada um de nós -
passando dentro de mim
num círculo vicioso,
um movimento sem fim.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Rever a Mãe

Eu vi minha mãe
depois de mais de dois meses...
Ela passou para me visitar.

Ela não pôde parar;
tem pessoas que, às vezes,
ficam sem opções.

Ela sem opção de parar,
e eu sem poder abraçar

a minha mãe...


Única, insubstituível,
palavra sem rima.

Pedi que se cuide
na medida do possível,

e eu tento, como quem se afirma,
forte, tenaz,
na medida do impossível,
não me preocupar.

Lá foi minha mãe
trabalhar...

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Se despedir e prosseguir

Eu odeio despedidas!
Eu não quero sentir
uma saudade despida
que um dia há de vir,

e virá, nua, me seduzir
à agridoce melancolia,
que é saber do partir
de um amor, um dia.

Pois a falta é a sobra
do apego a me assolar,
que sempre vem e cobra,
não para de atormentar,

enquanto respiro o ar
que, rarefeito, acalma
todo esse grande pesar
que me afunda a alma.

Essa saudade é egoísta
pois só quem fica, sente,
no rol não mais se alista
quando é o fim da gente.

Não estou lhe vetando
tal triste sentimento,
só que, vez em quando,
penso, enquanto sinto:

"tudo tem seu momento,
e até o pesar
tem que passar..."

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Samba de aniversário

Eu lhe canto um samba
como quem tira a tampa
duma caixinha de música
para lhe contar a física
dos astros na roda anual
que completa alto astral.

Lhe canto um rebolado
sobre me ter a ti e falo,
e como falo, meto aqui
e não me calo, canto a ti:

Que samba é sacana
até em festa de aniversário,
quem não canta é otário
porque samba é pura chama
que aquece quem ama.

Assim dançamos bamba,
juntos um só que encampa
na pista grande do salão,
onde cada passo é arrastão,
da sua linda meia-calça
aos corpos nus nessa pauta.

Lhe danço um sapateado
de mestre-sala bailado,
movendo contigo quadris...
mexe, remexe, pelves viris.

Porque samba é sacana
até fora de horário,
quem dança no assoalho
sabe que sambar chama
para balançar quem se ama.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Tempo Chuvoso

Depois de toda a tempestade,
vem uma estranha calmaria
que parece vida após a morte
onde um respira sem alarde
e o outro ainda se extasia,
passada uma tormenta forte.

Gostamos de morrer, meio que assim,
ofegantes num temporal sem fim,
que rega tudo que há de nascer
numa doce e perfumada primavera,
após a chuva de nosso suor ceder
ao esforço da vida uma nova aurora.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Paz e amor

Me traga paz
e também amor;
ódio ou dor
não quero mais.

Paz e amor são
sempre um só,
se desatar o nó,
ambos sumirão.

Ambos precisam
um do outro;
sem confronto
eles se realizam.

Se um estiver
no outro ausente,
o que se sente
paz e amor não é.

Paz é amor
e amor é paz.

Qualquer dia nos serve

Já nos disseram
que não somos românticos...
Mas, após tantos anos,
sabemos que amor não é físico,
aos outros isso parece racional,
mas é puramente sentimental.
Então não precisamos de arroubos
em uma data comercial
que se mostra sempre banal
e é apenas, no romance, um roubo
que estimula o corpo a fazer sexo
como se isso tivesse algum nexo
com o ato de amar.

O amor que sinto por ti
está além de tudo que vi
nessa vida.
Não o vejo, apenas sinto
e, chorando ou rindo,
sei que o amor mais lindo
não é físico,
mas sim algo que salva
a vida da banalidade,
algo que traz realidade,
algo muito além da matéria.

Não importa o dia,
o amor é nossa alma.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sexoesia

Me encanta o corpo feminino
e me encanta o corpo masculino.

Quando ambos se encaixam,
se movem como um mecanismo
que gera calor e nos deixam
um tanto cheios de um cinismo...

...Que na verdade é inveja.
E você sabe que é, pois veja:

Você está lendo esse poema,
mas pensa que queria, mesmo,
é estar num grande problema
mecânico, assim, até o orgasmo.

...E funciona para pares iguais:
afinal todos querem felizes finais.

Instinto livre

Meus seios arfam
quando o ouço
recitar palavras...
como elas tomam
a água do poço
e das lavras
de meu corpo.

Ouvir, umedece
meus lábios,
treme os dedos
e algo acontece,
nem os sábios
sabem dos medos
do meu corpo.

Então a vejo ali,
também arfando,
ouvindo, salivando;
enquanto ouço aqui,
fico pensando:
me ter com ambos
seria demais?

Ele e ela e eu.
Seria algo ruim
fazer uso da vida
que alguém me deu,
para qualquer fim?
Essa vida vívida...
Não, jamais!

E se mais um vier?
Oras, livre é o amor
que é feito com ardor.

Que eu, ali, os tenha
e que a vida prenha
faça de si o que quiser.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Água Salgada

Essa coisa de pele dos amantes
é quente e molha, a todo instante,

de suor a roupa, como a chuva
que encharca do sapato às luvas,

da touca às meias, é um dilúvio
que causa um estranho repúdio

à outrem. Acho que é só inveja,
pois todos querem sentir a peleja,

o choque das ondas, água salgada
no mergulho d'um corpo que nada.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Frágeis Para Sempre

Me reconhecer fraco
é ver-me, num abraço,
ocupar um espaço
e saber que, de fato,
é ali que pertenço.

Poderão me criticar,
mas quando soltas,
tais palavras no ar
ficam sem escoltas
do vento a soprar.

É assim que somos frágeis,
como frases numa ventania
se desmontando à revelia
da força que nos faz amáveis.

Frágeis seremos ao que é real,
pois nada aqui se conserva,
tudo muda e, se não observa,
sentirá dor até no que é natural.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Luz no inverno

Um lugar ao sol, no frio,
é ainda um lugar ao sol;
onde cada raio é um fio
que ilumina o dia em prol
de encher, à luz, um vazio.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ciclo infinito da vida

Ao mergulhar minha cabeça
na nascente do rio da vida,
sinto a água, um tanto fria,
fazer com que ideias esqueça.

Tudo parece um tanto animal
quando sorvo desse líquido
misturado à terra, mas límpido,
então sinto o instinto irracional

ao qual todo humano retorna:
este seu estado mais natural
em meio à tanta beleza.

Este é o ciclo da vida eterna:
é nascer e morrer; é trivial.
Assim funciona a natureza.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Aquaplanagem (la petit mort)

A sensação de adrenalina
vira uma qualquer-ína
em alta velocidade
por trás do volante
na chuva, de repente
o freio na tempestade
o espaço e o tempo
param a respiração
por um momento
a aderência some
os sulcos escorregam
o grito, tudo não resume
a pequena morte.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Uma incerteza

São tantas profecias

que nos contam
que fica a impressão
da vida ser fantasia,
já não se sabe
se será realidade
ou pura imaginação
velhos momentos

e os ventos
que virão.