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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Todo racismo é ignorante

Há muito que não escrevo prosa por aqui, mas não tem como ser passivo com uma das maiores mazelas do mundo: O racismo, a falha teoria de raça pura e raça amaldiçoada, de que cor é parâmetro para avaliação de caráter e honestidade.

Em pleno ano de 2014, ser racista é simplesmente assinar um atestado de ignorância.
Se um racista estudou matemática, geografia e história, ele deve ser uma pessoa muita burra.

Estas são matérias básicas em qualquer sistema de ensino no mundo, ou seja, um erro crasso cometido em qualquer uma delas comprova que a pessoa necessita estudar novamente no ensino básico (“primário” na época em que cursei).
Pense comigo, não importando a instituição e/ou sistema de ensino, a probabilidade matemática nos mostra que não há, REPITO, NÃO HÁ POSSIBILIDADE de você ser “puro”, filho de apenas uma raça, e que esta não se misturou em muito mais de 2000 anos de história humana. Se você pensa que sua família, por ser branca, é pura, você é um burro em matéria de matemática.

Geograficamente falando (e abrangendo para um estudo quase biológico), comete-se um erro crasso ao ver que no crescimento demográfico do mundo as pessoas não se misturam, as culturas se misturam, a expansão territorial promove misturas, tem que ser excepcionalmente ignorante para reconhecer um fato tão antigo.

Historicamente falando, como poderia uma raça não se misturar em tanto tempo de história humana? Ainda mais com invasões territoriais, bastardos de guerras, filhos de condenáveis estupros. Ou você pensa mesmo que seu sobrenome (necessidade patriarcal estúpida para garantir sua linhagem, coisa estatisticamente impossível de acontecer) é o sinal mais claro de raça pura?
Sério, nessas alturas do campeonato, até a biologia mostra que a mistura é saudável. A espécie humana para evoluir necessita de integração. Se você é contra a sua própria evolução, PARE JÁ de admirar o sexo que lhe é atraente segregando por cor.

Sinceramente, estamos absurdamente atrasados, ainda mais se pensarmos que estamos em 2014. Só falta chegarmos ao ano 3000 e essa babaquice propagada pela estupidez humana ainda estiver incrustada na sociedade mundial.
 
Pense bem, e se lembre: nem VOCÊ, nem seus ancestrais, nem seus filhos são puros. Nunca serão. Nunca foram.

A natureza (força indeterminada que movimenta existência universal) não permite isto.

Duvida de mim? Então, que tal estudar um pouco?

terça-feira, 6 de maio de 2014

Hoje em dia...

Vemos o dinheiro ter mais valor que a vida,
a palavra ser mais forte que a pura natureza,
mas no mundo real em que deixam feridas
são a parte artificial que gera falsa beleza.

Pois o mundo, por si próprio, já se sabe belo,
o resto foi inventado para alimentar nosso ego.

--

Enfim, o culto midiático à violência chega ao ápice contra-evolutivo, quando numa briga de times rivais (no caso, políticos), uma incitação nos jogue novamente 2000 atrás, para a barbárie da Antiguidade. É muito interessante ver como uma pessoa com um discurso inflamado pode mover uma nação para ações irracionais.
Em pleno ano de 2014, no nosso calendário vigente (nomeie como quiser, o chamo assim mesmo: "vigente"), pessoas ainda acreditam nas mesmas mentiras: dinheiro, cidade, consumo, política, violência... Tudo que deturpa a evolução do raciocínio humano é levado à idolatria. Aí lhe pergunto, cidadão de bem ou mal, será que você precisa disso tudo ou de comida, paz e um teto para morar?
Resumo alguns termos clássicos que não são explicados amplamente:
-política = interesse (seriamos interesseiros e aproveitadores?);
-dinheiro = manipulação (quando você produziu sua própria comida ao invés de comprar?);
-consumo = exagero (afinal você é humano ou consumidor?);
-cidade = FEUDO (e seus moradores continuam alegres em serem escravos e plebeus?);
-violência = inveja (quando deixaste de realizar sua vida para cobiçar destruir a de outro?).

Não são definições absolutas, mas sim mutáveis, e em pleno ano de 2014, parece que voltamos ao comportamento pré-medieval, quando jornalistas atuam como fomentadores de inquisição e apedrejamento popular.

Mas o mundo natural pratica sua própria justiça, pessoas que não domam suas palavras, serão vítimas de si mesmas de seus pensamentos e pesadelos; e antes que seus egos se tornem grandes o suficiente para ofuscar o Sol e iluminar todo um planeta, morrerão como qualquer ser humano, e terão que se contentar que a humildade é a única característica que lhe sobra na morte, pois essa batalha nenhum ego poderá vencer.

Que o mundo aprenda com mais uma lição dada da mais triste maneira, porque do jeito que a carruagem anda, está cada vez mais difícil aprender com felicidade...


Obs.: Se seu ego é tão grande ao ponto de desejar ser lembrado, pense bem em que tipo de lembrança quer deixar. ;)

sexta-feira, 28 de março de 2014

Crosby, Stills, Nash & Young - Déja Vù

Peço atenção E DESCULPAS, pois o texto de hoje é longo, mas é super-válido. ;)

A querida companheira estava dirigindo hoje cedo a caminho do trabalho e eu, no banco do passageiro, sintonizei a Rádio Eldorado (tinha propaganda nas outras emissoras e fiquei caçando algo para ouvir...) e, de repente, ouço “Woodstock” de Crosby, Stills, Nash & Young e sinto uma nostalgia, vai lá saber se isso é porque a década de 60 é a época que mais gosto da música popular mundial – vide a música brasileira dessa época, cada composição linda – ou uma questão sentimental por conta de alguns discos que ouvi sentado ao lado de meu pai, um apreciador de música, mas a questão é que este disco, especificamente, este pequeno e curto álbum chamado “Déja Vù” desse quarteto, acompanhado de Dallas Taylor (bateria) e Greg Reeves (baixo), devidamente creditados e fotografados NA CAPA, tem sido parte da trilha sonora de minha vida, mesmo não tendo vivido naquela época. Não sei dizer o que raio de sentimento aflora quando ouço esse disco, só sei que é um daqueles poucos que posso dizer algo do tipo “me sinto em casa”. Meu pai não tinha esse disco, mas falava dele como se fosse algo fenomenal, de outro mundo, mas nunca achou para comprar fácil e num preço bom – a classe média na década de 80 e 90 não era abastada, com tanta inflação, comprava-se o pão da semana, pois no dia seguinte a subida de preço era vertiginosa. Recentemente o ouvi conversando com um amigo, lembrando como era difícil para eles até fazer compras, pois tinham que sair correndo antes que o etiquetador de preços do supermercado aumentasse o valor de cada produto, eram os bons tempos de ditadura, economia fantástica, importação PROIBÍDA, tecnologia defasada e mal se podia ouvir Chico Buarque, Geraldo Vandré, Titãs, etc, sem a avaliação da censura sobre o que deve ou não ser absorvido culturalmente: TUDO MIL MARAVILHAS. Vou parar JÁ com o discurso político (foi só para estabelecer um cenário real) e vou retomar a história. Enfim, meu pai não tinha esse disco e eu, já com 12 anos e viciado em música (doses cavalares diárias) em 1996, comecei a fuçar nas locadoras de CDs por discos novos, bandas novas; o MP3 apareceu na minha frente só no ano seguinte, e demorava no mínimo uma hora para baixar um arquivo de música com péssima qualidade de áudio. Conheci muita coisa, pegava CDs emprestado, copiava em fitas, emprestava CDs, trocava fitas com amigos (tínhamos o costume de pegar um CD novinho e ouvi-lo seguidas vezes, copiando uma fita por vez para cada um), mas alguns discos ficavam na minha mente como pulga atrás da orelha... Na verdade, muitos discos ficaram como pulga, coçando minha curiosidade, eu via as capas (a internet tinha acabado de chegar à casa dos meus tios) quando buscava por nomes no “Yahoo!” ou no “Cadê?”, e ficava besta tentando adivinhar como seria cada disco, de acordo com as referências que tinha até então. Só quando fiz 15 anos fui ouvir tal disco, já ouvia heavy metal e tentava, como qualquer “aborrescente”, renegar qualquer autoridade familiar e suas culturas, mas não conseguia NÃO GOSTAR das músicas que meus pais ouviam, nunca consegui DESGOSTAR (diferente de “enjoar”) do que gostei até então, então o Sr. Headbanger Babaca que vos fala ouvia Marisa Monte, Toquinho e Vinicius, Pink Floyd, Genesis, Yes, Fleetwood Mac, Elton John, Tim Maia, Alcione, Jethro Tull, UB40, Simone, Cidade Negra, Fagner, Chico Buarque, Djavan e outras coisas, tudo misturado com o metal e a música atual da época, Planet Hemp, Nação Zumbi (com o Chico), Raimundos, Skank, a cena Grunge, mas tudo escondido no mundinho do meu quarto. Falar para os amigos que eu gostava de Commodores? Não... Que eu cantava com os discos do Zé Ramalho??? Nem pensar!!! Que besta eu era... Achava que isso importava muito. Fiz amizades na escola, algumas dessas duram até hoje, e o pai de um deles tinha (e ainda tem) uma coleção, invejável, a maior que tinha visto naquela época. E PASMÉM, ele tinha o disco que meu pai me falou e despertou minha curiosidade por tantos anos. Eu não tinha ideia do que ouviria, já conhecia Neil Young e gostava muito, conhecia o David Crosby, mas ainda como guitarrista do Byrds, também já ouvira Hollies do Graham Nash e o Buffalo Springfield do Stephen Stills (e Neil Young), mas nunca tinha ouvido na vida esse timaço junto. Quando apertei play, dei de cara com um folk rock psicodélico diferente, quatro vozes fazendo um coro que ressoa até hoje na memória, músicas passando por diversos climas, do blues ao jazz ao experimental, mas sempre com uma linguagem popular e de fácil assimilação, mas não pense que é um disco bunda, é diferente de tudo. Quando meu pai chegou do trabalho e viu o CD que peguei emprestado, ficou feliz, lembro disso até hoje, deu um jeito de ouvir bastante antes de eu devolver (ele não tinha mais toca-fitas no carro, mas também não tinha como copiar o CD). Para você entender a alegria do meu velho, a minha alegria e a alegria do festival de Woodstock, você tem que saber que esse supergrupo foi o único na história que conseguiu rivalizar em popularidade com os Beatles no hemisfério norte, em sua curta duração. Esse disco é tão influente que ouço nuances dele em vários artistas folk, mas a obra inteira é uma viagem completa. Difícil você não se sentir numa fazenda enquanto ouve “Our House”, muito mais difícil você não sentir nostalgia de um lugar onde você nunca botou os pés ao ouvir “Helpless”. Difícil não sentir a angústia de “Almost Cut My Hair”, difícil não se deixar levar com “Carry On” (trocadalho do carilho?)...

Difícil ouvir apenas uma vez.

Depois que ouvi, larguei a mão, mostrei para todo mundo, a maioria torceu o nariz por não ter um solo na velocidade da luz, por não ter guitarras com distorções no talo, um baixo reto e pulsante ou uma bateria que mais parece metralhadora, mas eu não consegui desgostar desse disco, nunca consegui, é um dos poucos discos que é um porto seguro, sempre volto para ele, e nem é o meu favorito, nem de meu pai, mas tem um lugar guardado no meu coração. Foi por causa desse disco, especificamente, que admiti que gosto de música, acima de qualquer definição de estilo ou gênero. Dali para frente, não sentia que precisava esconder que gosto de samba, bossa nova, funk, reggae, ska, soul, r&b, rock, heavy metal, brega, música erudita, jazz, etc...

Não sei se você vai gostar desse álbum, mas fica aqui o link para vossa apreciação, talvez você tenha um choque, mas não se preocupe, apenas feche os olhos e dê toda atenção que puder apenas à música. Esse pequeno grande álbum não pode ser esquecido, nunca!

Se puder, quiser e não for atrapalhar, comente falando o que achou do disco. J

www.youtube.com/watch?v=RnOXkedBmRs
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Texto: Ernesto Gennari Neto.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O amor e sua vida própria - Análise simples da história de Jesse e Celine (CONTÉM SPOILERS)



AVISO: CONTÉM SPOILERS

Esqueçam os contos de fadas e histórias de amor como você cansou de ver por aí. O melhor casal da história da 7ª arte, na minha humilde opinião, voltou e, como nos dois filmes anteriores, cheios de vida, questões, certezas, filosofias e, em meio a tudo isso, amor. Aquele amor que, como diria o Cazuza, "a gente inventa pra se distrair". Mas o que fazer quando esse amor é algo bem maior que o por ora inventado por puro desejo e paixão? Como saber quando uma pessoa se apaixona perdidamente por outra? Como saber se o amor é recíproco? No caso desses personagens criados pelo trio Richard Linklater (diretor - que teve a ideia a partir de uma experiência pessoal), Ethan Hawke e Julie Delpy (protagonistas), o amor sincero e irrestrito ainda é o elemento que se prova acima de qualquer banalidade. E a atuação com longos diálogos e poucos cortes de câmeras mostram como um texto e uma atuação bem feitas não precisam de muita edição, apenas simplicidade. Tenho que citar que a trilha sonora, usada esparsamente (em toda trilogia), apenas contribui, seja na poesia, seja nos sentimentos, transbordando mensagens sutis, sem cair para o exagero emocional, a pieguice do cinema americano tradicional. O amor se mostra com uma certa dose de devoção, adoração, mas não inconsequente e banal como um conto de fadas, mas sim palpável e inclusive minável, onde se mostra frágil e passível também de uma queda fatal. O roteiro pensado a três cérebros e escrito a seis mãos mostra um casal palpável, sem as reviravoltas fantásticas e imaginativas que a indústria do cinema adora nos enfiar goela abaixo. Não será o primeiro casal nesse estilo, mas ainda é um estilo raro de filme. Mas o que os torna mais um entre poucos, também os torna único entre todos: sua história. Uma trilogia com diálogos e personagens tão ricos que podemos passar horas conjecturando sobre não só seus filmes, mas seus diálogos, frases específicas e por aí vai. E ontem, finalmente, assisti o terceiro filme da história de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy): Before Midnight (Antes da Meia-noite - ambientado em 2012) que se passa 9 anos após o segundo filme, Before Sunset (Antes do Pôr-do-Sol - 2003), que também se passa 9 anos após o primeiro filme, Before Sunrise (Antes do Amanhecer - 1994). Se pensarmos que essa ordem constitui um dia com manhã, tarde e noite. Mas no ponto de vista deste que vos escreve, essa trilogia constitui muito mais que isso e pretendo dissecar toda minha interpretação, de forma breve, assim espero. Lembrando que o sentido que dou a essa história é algo pessoal, que criei após interpretar de acordo com meu ponto de vista, somente e nada mais, se discordar, ótimo, se concordar, ótimo também. Ok?
Já comecei dissecando sobre os títulos dos filmes, certo? Considero importante o aspecto de espaço e tempo nesta trilogia, pois se pensarmos a história do casal já atingiu a maioridade (18 anos) e agora está adulta, no terceiro filme. Encaremos o primeiro filme como o nascimento de um amor, uma criança (como de certa forma, "inventamos" nossos próprios filhos, é só decidir quando, ou correr o risco inconsequentemente - não muito diferente do amor, que também é inconsequente).
Então falemos rapidamente do primeiro filme, onde começa nossa história, Jesse (23, estadunidense, texano) e Celine (também com 23 anos, francesa, parisiense), se encontrando pela primeira vez em 94 num trem em Viena e experimentando uma paixão arrebatadora. Como histórias de amor mil nascem a torto e à direita em Hollywood, essa poderia ser só mais uma, mas considero o renascimento de um gênero tão explorado. A história se passa no período de menos de 24 horas, até o amanhecer seguinte, quando de certa forma o envolvimento dos personagens é visivelmente grande e, presumo, uma forma de amor nasce em meio a uma despedida que os separa por 9 anos. Nascer do sol, nascimento do amor, num verão na capital de um país que nasceu até que recentemente (1955 - Tratado do Estado Austríaco) em comparação com outros países. O nascer é o verbo recorrente. Os diálogos são fenomenais e detalham muito, em tão pouco tempo, as vidas individuais de Jesse e Celine, o que mostra a riqueza dos personagens. E nesse filme já é dado um enfoque real, adotado aos outros, pois o filme é praticamente os dois juntos, conversando e passando tempo juntos, um casal, nada muito diferente da vida real dos casais. Os assuntos (nos três filmes) são os mais variados, mas mostram como a personalidade de cada um é diferente em muitos aspectos e similares em outros e mesmo assim há aquele sentimento de unidade passado ao vê-los conversando e brincando um com o outro, seja sobre amor, vida, profissão, filosofia, sexo, morte, astros, etc. Temas abordados com a naturalidade de qualquer casal que tenha o costume de dialogar entre si. De repente passa-se o tempo como um furacão, amanhece em Viena e os dois acabam com uma despedida e uma promessa de voltarem a se encontrar no fim do ano. E nunca mais se mencionou algo por nove anos seguidos, não foi cogitada uma continuação, o filme ficou assim, no ar, com um gancho e nada mais.
Nove anos depois, numa livraria em Paris, Jesse está fazendo a última parada da divulgação de seu primeiro livro na Europa. Um livro sobre justamente aquele dia fatídico de 9 anos atrás. Só que o inesperado (deus ex machina) é o mote do segundo filme que, sozinho, já é um deus ex machina ambulante, afinal ninguém esperava uma continuação após nove anos. Celine aparece na sessão de autógrafos e Jesse fica surpreso, então começa outro longo passeio, só que dessa vez por Paris, uma cidade mais conhecida por luzes e consagração do amor, uma cidade adolescente, com um casal transbordando suas crises de certa forma juvenis enquanto tem 31 anos, já cheios de crises em suas vidas, e com visões mais pessimistas e aborrecentes [sic] em comparação com o primeiro filme, mais idealista, imaginativo, como uma criança. Comunicam-se com o público da mesma forma, dialogando sobre suas vidas que se passaram separadas por nove anos por dramas pessoais e reviravoltas que no fim são só citadas para criar o pano de fundo e enriquecer mais ainda a história dos dois. Tudo isso no mesmo formato, diálogos longos com pouquíssima edição. E agora com o tempo limite sendo o pôr-do-Sol (mais precisamente, o horário do vôo de volta aos Estados Unidos), mais contemplativo que o amanhecer que traz toda a energia que precisamos para aguentar um dia, aquele descanso pós trabalho, onde realmente refletimos sobre nossas vidas e tomamos as principais decisões, o fim de tarde onde Jesse resolveu que ficar com a mulher do livro de sua vida, decisão reforçado ao ouvi-la cantar uma valsa sobre o homem que lhe inspirou tal música, ele. Amor adolescente se confirma (e já se sustenta) por si próprio, por devoção singela ao criarem, ambos, algo um para o outro. No final, um gancho. Um gancho simples que torna qualquer excesso simplesmente banal, tão simples que prova que em meio a tanta complexidade no mundo, inclusive na vida dos dois, nem a vida, muito menos o amor precisam de ser complexos. O sol se pôs e o avião partiu, sem ele.
Mais nove anos se passaram e o amor atingiu a maioridade, e agora se vê na vida adulta, sem manual de instruções. O amor tem que sobreviver por suas próprias pernas. Jesse e Celine agora com 41 e com duas gêmeas de 7 anos estão na Grécia, mais precisamente no Peloponeso. A Grécia é o país mais antigo dos três filmes, e assim como meia-noite é o fim de um dia, ambos, espaço e tempo estão condizendo com a vida adulta do amor, que é a fase onde o amor passa por mais batalhas e tragédias do que nunca para se manter vivo e forte, como o próprio Peloponeso foi palco de diversas batalhas na antiguidade. O filme retrata Jesse e Celine já adultos tentando manter o relacionamento vivo em meio a crises palpáveis, como Jesse querendo estar mais presente na vida de seu filho e Celine querendo ser muito mais que a esposa de um escritor e desenvolver sua vida profissional de acordo com o que ela deseja, mas ambos não podem decidir nada sem pensar nas gêmeas. Em meio a diálogos longos, novamente com poucos takes, percebe-se que a vida adulta do amor é complicada e, mesmo na maioridade, o amor sofre crises de desvalorização, supervalorização, responsabilidade (afinal, é um impacto grande na vida adulta de qualquer um), etc. Nessas crises o próprio amor entre essas duas pessoas, consideradas e apresentadas como ideal até agora, é colocado em xeque. Será o amor capaz de acabar, assim como um dia qualquer acaba à meia-noite? Será que a velhice mata o amor? O deus ex machina aqui é Jesse, em face da possibilidade de perder Celine, dar o troco na discussão toda, dizendo que o conto de fadas não existe, e tudo que ele tem para oferecer é seu amor sincero e mais nada, não há fator externo, apenas ainda uma devoção a pessoa que ele ama, ao invés da pessoa que ele amou ou amará. Ele se faz presente, e ela também se faz, afinal, não é questão de guerra dos sexos, mas sim a questão de estar com quem você ama de verdade (seja uma, duas ou trinta pessoas), ser sincero consigo mesmo e com o seu par. A parte engraçada é saber que não é a primeira discussão séria dos dois ao ouvi-la dizer que toda vez que ele se despede do filho acaba por ter o humor alterado. Ou seja, tanto aconteceu na vida dos dois em três filmes e você, espectador, não precisou acompanhar uma novela de um trilhão de capítulos para absorver tanta informação. A riqueza dos diálogos desse filme é ímpar, justamente por dar tantos detalhes e ainda por cima quebrar a imagem de casal perfeito, pois até eles em suas imperfeições mostram que a vida não é perfeita, muito menos um relacionamento, nem mesmo o amor. Mas a perfeição é mostrar que, como Esparta fez, vale a pena lutar pelo que se ama. A parte mais interessante é ver como o que foi passado como certeza ao público, o casal do "feliz para sempre" do segundo filme, mostra que ainda tem muita lenha para queimar e muita história para contar, de maneira palpável, afinal poderia acontecer coisas similares na vida de qualquer um. Assim chega meia-noite, que mesmo sendo o fim de um dia, de acordo com o nosso sistema de contagem temporal, não é o fim de nada, Peloponeso e Grécia ainda existem mesmo após inúmeras guerras, conflitos, crises e tragédias clássicas da mitologia local, Jesse e Celine ainda se amam e a "vida do amor" continua até, quem sabe, sua velhice e morte. Vamos esperar mais nove anos e ver que acontece.
;)

O meu filme preferido? Os três, cada um a sua maneira. E arrisco a dizer que são, juntos, uma obra só que ainda não teve o seu final filmado. Talvez nem precise, talvez seja melhor encerrar assim. Afinal, quem sabe?

Talvez o amor tenha vida própria.

--

Obs.: Não escrevi nem 1/10 do que passou pela minha cabeça, senão esse texto viraria um ensaio completo e teria muito mais spoilers (sério, o que coloquei aqui não é nada demais, só assistindo para entender).
Obs. 2: A minha amada Clara ficou conversando horas comigo sobre esses filmes, que têm um lugar especial no meu coração, desde que assisti o primeiro na adolescência, e ela mesmo teve sua interpretação, um tanto diferente da minha, o que torna toda a experiência muito mais rica. :)
Obs. 3: Tem gente que diz não gostar de deus ex machina, para essas pessoas eu digo: não vivam. A vida inteira é cheia de deuses surgidos de máquinas, e a arte imita a vida que, por fim, volta a imitar a arte. É um ciclo inevitável.
Obs. 4: Assista aos três filmes!!! Reveja todos e comece a relacionar os diálogos, você vai se impressionar.
Obs. 5: Assista "Waking Life" como bonus!!!
Obs. 6: Assista "Cópia Fiel". Parei aqui. :)



sexta-feira, 1 de março de 2013

A humanidade de um pequeno cão

Nem parece que passou duas semanas desde que meus pais resolveram que sou um filho problema, pelo contrário, ainda quando chego em casa, me sinto um extraterrestre invadindo um espaço que não é meu, o que é verdade, afinal, é a casa de meus pais.
Duas semanas atrás tive uma discussão onde fui estigmatizado e classificado como se fosse mais um delinquente de um jornal qualquer. Pura incompreensão. E o que um filho incompreendido faz? Discute, grita, fica nervoso diante de tanta injustiça. É muito fácil classificar um filho de acordo com as palavras que os psicólogos e médicos televisivos adoram usar para categorizar o que é diferente e não aceito por qualquer ser conservador e resistente à mudanças. Como sei disso? Eu sou resistente às mudanças da vida, embora saiba que elas são inevitáveis e ainda tento mudar esse comportamento em mim (confesso, sem falsa modéstia, que mudei muito nos últimos anos e cada vez mais entendo que, fora da política, Trotsky estava correto, a revolução é permanente; digo mais, a revolução acontece de dentro para fora). Meus pais não entendem tanto as mudanças, muito menos gostam de baques quebrando a imagem de que seu filho é perfeito, trabalha, estuda e não faz besteiras. Mas a individualidade de cada um sobrepõe qualquer imagem e foi isso que aconteceu, individualmente sou muito diferente de meu pai e de minha mãe, tenho gostos muito diferentes deles, muito diferentes de meu irmão também e por isso, nessa crise, a primeira reação que tiveram foi me expulsar de casa. Fiquei chateado, pois sei que ia sentir muitas saudades deles se por ventura não voltasse, mas um ser ficou impassível diante de toda essa situação: meu cão. O Polo foi o único que, ao longo dos anos, após diversas brigas, vinha me consolar ao contrário de me julgar; mostrava compaixão ao invés de perder a razão e não via maldade em nada. Alguns diriam que ele é só um animal, mas meu cão sempre se mostrou mais humano e solidário do que todos os seres humanos que conheci ao longo da vida, inclusive mais humano e solidário que meus pais que, num surto animalesco selvagem em meio a gritaria (não estou salvo, fui animal também), resolveram que tudo que eu havia feito na vida não prestava, que jogaram todas minhas qualidades pela janela perante um pequeno detalhe tão demonizado pela hipocrisia mundial. Que meus pais me desculpem, mas o único ser que foi humano de verdade naquela noite quando eu precisava conversar honestamente, o único ser que teve compaixão e me aceitou exatamente como sou sem querer que eu fosse diferente do que sou foi o Polo. Não estou falando isso para magoar ninguém pois amo meus pais, mas aprendi mais sobre humanidade e solidariedade com um simples e alegre cãozinho do que com minha família. Se me falarem que não sei cuidar de criança, que não sei limpar sujeira, que não sei alimentar um bebê, que não sei dar carinho e amor, sóbrio ou ébrio, direi-lhes que estão errados, faço isso com o Polo e tudo que ele me dá em troca é uma companhia sincera. Ele não fica ao lado de ninguém forçado, ele fica porque quer. Não há livro libertário, humanista ou anarquista, que diga isso. Não há música, pintura ou filme que passe essa experiência concreta. Não há escola, religião ou doutrina que ensine essa pequena lição. Não existem valores ou virtudes maiores que o amor. Valores mudam de geração para geração, virtudes viram vícios e vice-e-versa, enquanto o amor é uma coisa sua, sui generis, claro. Meu pequeno cachorro me ensinou muito sobre amor. Em grande parte das mudanças da minha vida ele estava me esperando chegar em casa.
Não escrevo isso para magoar meus pais, eles não sabiam o que fazer comigo, não posso culpá-los, não existe um manual de instruções para cada filho que nasce no mundo. Mas o cão dá o exemplo. Amo muito meu cão, pois ele sabe que sou em essência, mesmo com tantas mudanças, ainda o mesmo de sempre.
Sei que ele nunca poderá ler isto, mas enquanto ele viver vou retribuir cada momento que tive unicamente junto com esse cão que, mesmo fazendo sujeira fora do jornal, roendo coisas, sumindo com algum pé de meia, comendo o manjericão direto do pé, desobedecendo ordens expressas ensinadas pelo meu irmão, mostrou mais compaixão e amor que qualquer ser que conheci no mundo.
Me dói o coração só de pensar que não há quem vá me compreender como essa bola de pelo que quando chego em casa não exita em lamber meu rosto e fica pedindo para eu coçar-lhe as costas e depois jogar algo para ele pegar diversas vezes até se cansar e dormir enquanto eu fico fazendo música no violão (não toco flauta e gaita perto dele por causa de seus ouvidos sensíveis). Ontem ele ficou comigo sentado no quintal enquanto eu via estrelas no céu, coisa meio difícil de acontecer na metrópole com o céu poluído. Só ele veio; minha mãe, que amo tanto, nem se deu ao trabalho de dar uma olhada no céu quando a chamei.
Eu voltei para casa e ainda me sinto um extraterrestre por ser do jeito que sou e não ser aceito tão bem pelos meus pais e pelo meu irmão, mas o Polo, sempre está lá sacudindo o rabo de um lado para o outro.
Para falar a verdade, não sei o que será da minha vida quando ele se for, não sei se vou conseguir tão cedo arrumar uma companhia como ele, nem sei se vou querer substituí-lo, não quero nem imaginar, mas sei que isso acontecerá um dia.

O meu cão é o ser mais humano que conheci nesse mundo cheio de animais selvagens que se dizem humanos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Caos é ordem - A anarquia em processo

Ontem de noite eu discutia com três amigos como poderíamos modelar novamente a sociedade desse molde capitalista em que vivemos. Um se pôs a ouvir nossas opiniões. Outro deles defendia a eliminação do dinheiro, para voltarmos aos antigos valores e associá-los aos novos e criarmos uma sociedade colaborativa, pois o caos é desordem e devemos evitá-lo. Outro defendia a reeducação e uma revolução caótica para limparmos a corja, separarmos o joio do trigo, pois do caos vem a ordem. Eu defendo o processo lento, o processo de que caos É ordem, a sua maneira natural. Eu defendo uma ideia de sair e juntar o povo nas ruas e exigir o que é nosso. Eu acredito apenas na democracia direta, sem representantes, sem estado, sem governo, apenas ética, justiça e igualdade humana, eu acredito no processo mais lento e natural. E a anarquia em todas suas formas resolveu atacar num misto desses três. Dados dos políticos foram expostos e você vai ficar parado? Não vai fazer nem um telefonema para conferir? Que tal vários telefonemas? Que tal mandar alguns emails... Que tal o pais inteiro resolver telefonar, mandar email, solte um tweet, colocar posts no facebook, no google+, em seus seus blogs. Em todos os lugares da rede. Você está cansado de votar e nada acontecer ano após ano? Mande um email! Você está cansado de votar em alguém para mandar em você? Faça um tweet! Você quer decidir sobre sua vida, sem ter um representante decidindo por você? Lance um post no facebook, no google+ ou na sua rede social favorita! Você é livre, você não tem mestres, você não tem donos, você não tem líder, você é livre, nasceu livre e vai morrer livre, então por que fica se aprisionando por livre e espontânea vontade? Está com medo de quê? Escreva no seu blog tudo que puder! Agradeça que alguém é mais esperto do que quatro pessoas teorizando a esquerda anarquista e tentando bolar um plano para melhorar o mundo. Não precisa mais de plano, alguém fez antes de nós e tem o mesmo objetivo, um mundo melhor. Só você pode saber o que é melhor para você. Unidos e livres podemos ter um mundo melhor, mais justo, mais respeitoso, mais educado e mais feliz.

Uma vez que você entende a anarquia, você entende a anomia, e entende que são coisas bem diferentes. É cíclico!

Como Raul já dizia: "Só há amor quando não existe nenhuma autoridade."
Como John já dizia: "One thing I can tell you is you got to be free"

COMUNIQUE PASSE PARA FRENTE!!!

Os links do caos estão aí, faça-os correr o mundo!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Meia dúzia

Se eu me perguntasse, meia dúzia de anos atrás, onde estava entrando, a resposta seria algo como "Não faço a mínima ideia". Realmente, eu não fazia ideia, não tinha noção, sequer vislumbrava como seria esse trabalho que, exatamente seis anos atrás, eu começaria no mundo corporativo.

Não vou ficar malhando mais do que já malhei, nem ficar destacando pontos negativos do ambiente e outras coisas que não merecem mérito. Embora tenha muitos aspectos positivos, também tem aspectos negativos, só que em proporções maiores, que em seis anos se tornam cada vez mais intoleráveis dentro de mim.

De onde veio o "meia dúzia"? Está gravado na minha cabeça. É fácil: passo por uma feira, na esquina, cinco casas abaixo da minha, toda quinta-feira. É uma coisa que não escapa de mim, me lembra momentos muito mais felizes que eu teria se tivesse carregando uma caixa de frutas ao invés de estar sentado na frente de um computador durante seis anos fazendo cálculos para alguém ganhar muito dinheiro enquanto ano após ano a empresa enxuga tudo que conquistamos por direito, a inflação enxuga toda nossa estabilidade e o governo se diverte conosco como se as pessoas fossem marionetes.

E em todo esse tempo a vida tem me parecido muito falsa. Sem sentido. Dinheiro tem me parecido sem sentido. Governantes, chefes, líderes e ganância se tornaram elementos repulsivos a mim. Acho interessante como muitos outros tomaram uma grande dimensão na minha vida. Não adotei bandeiras de ninguém, pelo contrário, questionei, ouvi argumentos novos e aprendi muito nestes anos que passaram. Mas não aprendi a amar o que paga meu salário, embora tenha ouvido conselhos para tal; meu coração não consegue, a revolta me cresce todo dia, o sentimento de que ninguém pode mandar em mim cresce, e a decepção com o mundo corporativo é frequente. A hierarquia me enoja, a burocracia me atormenta, a vida aqui de repente perdeu o pouco sentido que tinha: dinheiro na conta. Seis anos sem satisfação verdadeira, sem ajudar o mundo, sem fazer algo significativo de verdade, sem criar algo que realmente vá de encontro com minhas convicções.

Meia-dúzia que eu não quero que vire uma dúzia inteira, estou trilhando e me desenvolvendo para nunca mais depender de você, essa vidinha medíocre de ar-condicionado, posses materiais supérfluas e ostentação sem qualquer profundidade e significado realmente útil. Ornamentos do que é fútil.

Sabe qual é o problema, é que muitos gostariam de estar aqui, muitos mesmo, mas garanto que depois de meia-dúzia de meses estariam como eu, meia-dúzia de anos depois, frustrados, cansados, sem motivação, sem vontade, cada vez mais desiludidos.

Se você deseja ficar meia-dúzia, uma dúzia inteira ou mais trabalhando, meu conselho, que o trabalho seja o que você goste, não ouça pai, não ouça mãe, nem tio, nem tia, nem ninguém, VIVA a SUA vida, pois ninguém poderá vivê-la por você.

Se está infeliz, arrume um meio para atingir a felicidade plena e real, pois falsas felicidades são vendidas como qualquer outra coisa, enquanto a verdadeira é conquistada.

Livre-se do miasma, faça sua própria catarse. Use o cérebro antes que atrofie.
Cuide da saúde e do corpo. Mens sana in corpore sano.

Isso não é manual de auto-ajuda, eu não acredito em "manuais de auto-ajuda", acredito em conhecimento e evolução, que todo mundo consegue se trabalhar um pouco mais o cerebelo e enxergar tudo de maneira mais ampla e diversificada. Tenho lido muito, estudado muito. Acho que nunca estudei tanto na minha vida como agora, é o que tenho pensado muito ultimamente.

Portanto pense e faça algo em 2013 (nada mudou, não se esqueça que ano, mês e dia constituem a contagem lógica para que possamos identificar e indexar períodos de nossa história e possamos usar como ferramentas para outras ferramentas que gerarão outras ferramentas), pois eu pretendo mudar algumas coisas, chacoalhar a minha vida um pouco e mudar, fazer algo diferente.

Ótimo 2013, feliz pseudo-ano-novo!
E que suas dúzias sejam ótimas, sempre! Sejam frutas, anos ou qualquer outra coisa!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Valentina's Day

Hoje é dia dos namorados (Valentine's day) lá na gringa.

E por que não no mundo?

Em teoria, um cupido sai atirando flechas por aí, mas sempre acerta alguém.

No meu caso sou vítima da admiração pela Valentina, e entendo o que Guido estava dizendo ao mostrá-la, entendo o que poucos levam a importância, a metalinguagem de sua criação, onde até o criador foi dominado por sua Srta. Rosselli. Ah, pobre Crepax. Dominado, ele fez escola; tanto ele como Serpieri se tornam instrumentos de divulgação de suas crias e elas não os deixam nunca mais, se tornando maiores que seus deuses. São retratos de mulheres e suas conquistas da idade contemporânea e suas revoluções. E quem não gosta de uma mulher inteligente, dona de si, que sabe o que quer? Não estou falando de mulheres cujo comportamento são como de um homem, e faz de tudo para ser a parte masculina da relação, enquanto o homem se submete a esse perfil patético de inversão de papéis, ninguém é dono de ninguém, simples assim. Qual é o lance de Crepax e Serpieri, e não esquecendo, Manara? Eles abusam até da perversão, mas é aí que a coisa toda se encaixa, para mostrar a liberdade, usa-se o choque. Chocar o leitor era a maneira destes destacarem a admiração que eles tem por mulheres, no caso de Crepax, no fetiche sado-masoquista, no caso de Serpieri, com criaturas de outro planeta, robôs, etc. Manara, simplesmente abusa da história e até de costumes tão infestados de pudor pela sociedade, e em todas as figuras se mostra uma coisa, a mulher e seu prazer em participar de tudo isto. Nesse ponto uns podem pensar que é doentio, mas não entendem o choque cultural, eles representam que as mulheres tem sua própria sexualidade, as vezes em excesso, ou mesmo que pouca, e não tão pornográficas, hetero ou homossexuais, não importa, a mulher retratada por eles é alguém livre de amarras e com vontade própria, seja do lado mais casto ao mais vulgar. São as mulheres de fumetti, são as bem decididas, que simplesmente apertam a tecla "FODA-SE" para as pessoas que tentam lhe dizer o que devem fazer ou não, o que é melhor ou não, que simplesmente mandam à merda situações com um cara de quem não estão afim, mandam à merda os amigos que querem desencalhar uns perdidos com elas, pagam a conta quando querem, e te fazem pagar quando bem entenderem (mas sempre tenha o primeiro movimento, senão a fila anda...) e procuram se desenvolver, viver a vida da maneira que bem entenderem, se relacionar com quem gostam, são inteligentes e ótima companhia. Mexem com o imaginário masculino.

Quem disse que história em quadrinhos é coisa de criança?


Portanto nesse Valentine's Day, eu fico pensando na Valentina, não a de Crepax, mas na minha, melhor dizendo, na que me acompanha, pois não sou dono dela, nem ela dona de mim, mas por todos os outros sentidos, parafraseando um ditado "é minha dama de dia, e minha louca de noite". Minha amada Valentina.

domingo, 2 de janeiro de 2011

2011

Atrasado, eu sei, mas não venho para fazer retrospectiva, isso a rede Globo já faz, eficientemente. Não venho falar nada do que aconteceu comigo, esse blog não tem função de ser um diário, é no máximo um veículo para minhas loucuras e causos que gosto de escrever de vez em nunca.

Venho apenas desejar um ano cheio de felicidade, saúde, amor, sucesso e paz para todos.
E para a mulher que me acompanha (que acompanho também, oras!) para lá e para cá, todo o meu amor, como te dou desde o primeiro dia juntos. ;*

Obrigado e tenham um ótimo 2011!
Tudo de bom! :D

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Penso em você quando chove

São 14:30... faltam duas horas. 14:30 e o céu está escuro, nessa cidade com incidência de raios ímpar, uma das maiores no estado, Sanca City, Sanca, São Caetano, São Caetano do Sul. Já estou vendo todo o filme, ele repassa na minha mente como já passou tantas outras vezes na vida real. O brilho fora da janela, e alguns minutos depois, o bairro inteiro sem luz, e o trabalho acaba por ser interrompido. Esqueci em casa o livro que estou lendo, e quando a luz acabar, tudo cessará. E quando as luzes acabarem, o que será de mim? O que será de você? O que será de nós? Eu sei as respostas. Sei porque é você quem apaga as luzes quando está à minha direita, sou eu quem apaga quando trocamos de lado. E sei o que será, pois onde você estiver, onde eu sentir sua pele, sentir seu toque, quando eu ouvir sua voz, ou apenas sentir a sua presença, será meu lugar nesse mundo, meu canto, onde ninguém além de você pode invadir. Os raios vão apagar a cidade, a chuva inundará onde for possível e vai lavar a alma, mas nunca vai levar sua presença na correnteza dos rios que deixam essa pequena São Caetano do Sul ilhada do resto do mundo. Essa minha ilha, ilha da minha vida só é meu lar porque moro aqui, mas junto de você qualquer lugar é uma ilha, nossa ilha, numa gostosa chuva de verão.
Já vi que os raios estão ficando mais fortes, e logo mais estarei na escuridão de Sanca City, e enquanto chover, ficarei aqui, pensando em você.

;)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Conversa de bar sobre desenho

A: (empolgado)
Vi aquele traço rodar na folha
gerando uma forma aqui e ali
numa linha fina de nanquim,
formando um quadril, depois um umbigo
apenas um mero detalhe de um furo.
Meu amigo, se eu puder te explicar
o que vi ali; aquele traço se tornando
palpável as minhas mãos
e tendo reações ao toque de meus dedos
aquele abdome feminino se projetando
na realidade de minha visão.
Antes de você tomar esse gole,
tá, eu sei que a cerveja vai esquentar,
mas cara, a figura ficava assim
oscilando entre o papel e o corpo
real, daquelas mulheres que caímos
de joelho, de cara no chão, é mole?
Não me diz que foi alucinógeno,
não tomei nada além de água mineral,
não comi nada demais além de arroz e feijão.


B: (um tanto descrente com o começo do papo)
Irmãozinho, deixa eu te interromper,
eu trabalho com desenho, design a anos,
e você não, é um cara de matemática e letras,
no máximo, o que te deu de resolver brincar
com tinta, lápis, papel e canetas?
Ninguém te avisou que pode ser
fatal e te levar por baixo dos panos
a outro mundo ou uma loucura?
Eu te avisei que um dia você ia pirar...


A: (indagava se B estava duvidando)
Eu me lembro, como poderia esquecer?


B: (dando de ombros)
É por isso que eu nem tento escrever.


A: (sentindo-se desdenhado)
Mas devia, é um complemento que pode ajudar.


B: (acalmando os ânimos de A)
Está bem, um dia vou tentar,
mas continue.


A:
Então, quando vi no meu traço feio,
sair aquela coxa gostosa saliente
no papel, pude perceber que algo
poderia estar errado na minha mente,
mas não consegui parar o rascunho


B: (gargalhando)
Peraê, você tá me falando de rascunho!?
Ah "bro", vá se foder!
Dá logo aqui essa bagaça que eu quero ver.


A: (irritado)
Toma a folha aê, zé-ruela!


B: (rindo)
Putz meu, como você desenha mal!
Mas eu vi potencial, me empresta?


A: (um tanto contrariado)
Me diz algo que eu não sei!
Sim, pode levar, mas é o que me resta.
Então devolva!


B: (perplexo com o drama alheio)
Como assim é o que te resta?


A: (tentando valorizar a "obra")
Você não deixou eu terminar, ouça:
Vieram as coxas, depois fiz todos os membros
e me veio esses seios na cabeça...
a hora que eles surgiram...
fiquei ouriçado, excitado,
quando me vi já desenha os lábios
os olhos, o rosto... só pintei a boca.
aí parti para o centro e desenhei a buceta.


B: (lhe invade, uma vontade de tornar próximo o que A lhe explica)
Posso arte-finalizar isso?
Faria umas correções...


A: (ficando empolgado com o interesse de B)
Deixa eu terminar, depois você
faz as suas observações.
Surgiu essa mulher em cima da mesa,
nua em pelo, perfeita.
Falando coisas no meu ouvido
e perfumada com cheiro de flor.
Era menina-mulher feita
de pele, carne e osso, de amor.
Em suma, transava como louca
e ainda mordia minha boca.


B: (rindo e pensando que A seria um bom escritor de filme pornô, e só...)
Esse teu sonho tava bom demais, hein?


A: (mostrava orgulhoso as marcas da noite)
Se fosse sonho... estou com marcas
nas costas e o melhor de tudo,
uma mordida no cotovelo.
Se não acredita, tente morder o seu!
E se ela aparecer no meio da arte,
não se esqueça que esse desenho é meu!


B: (se ria, mas olhava aquelas marcas de dentes no cotovelo de A com certa inveja)
Como você é egoísta, e ciumento!
Mas tudo bem, respeito o seu desenho.
Agora toma essa cerveja!
Eu faço a arte e você escreve.


A: (agora ria e concordava, iria escrever mais sobre isso)
Tá bom, fica assim.
Acho que serve.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

R$2,50

O anos passam, né?
Até passam rápido se deixarmos, ou passam bem devagar, naquele passo de tartaruga, lento, que dá para para planejar muitas coisas em apenas um minuto. Eu já passei anos, rápidos, vagarosos, mistos, cinzas, coloridos, pretos e brancos. E nunca deixei de acreditar na loteria. Também nunca ganhei nada, até hoje. Não, infelizmente não sou um felizardo da megasena, se fosse, provavelmente o mundo não me veria por aí, eu sumiria por uns anos, lentos, sim, por que qual é o motivo de viver correndo? Apressar a morte? Faça-me o favor... Enfim, fui premiado! ESTÚPIDOS R$2,50!!! Já dá para tomar uma Bohemia no "Sem Pescoço", fantástico, não? Eu não vou investir esses RICOS E VALIOSOS R$2,50 em mais um jogo de loteria. Vou investir em diversão. Porque eu acredito realmente em diversão, mesmo que ainda acredite em loteria; a vida é uma loteria, pô! Tem apostas que ganhamos, tem apostas que perdemos. Se eu não apostasse, provavelmente não teria aproveitado nada, teria ficado numa vida pacata, sem experiência, sem amores, sem tesão, sem emoção. Porra, não sou viciado em jogo, não considero a vida um jogo, muito menos amor, não jogo. Apenas não me seguro em certas coisas, apenas aposto, e deixo acontecer o que tiver que acontecer. A única coisa que me permito jogar é a loteria federal, onde eu aposto dinheiro, religiosamente, semanalmente, e ganhei, repito, GANHEI! R$2,50!!! MEU, É UMA CERVEJA!!! Quando você pode se dar ao luxo de falar assim "ganhei uma cerveja"? Eu não fazia idéia que R$0,50 poderiam se pagar!
Parece besta isso né? Eu sei que isso não cobre nem passagem de ônibus, muito menos de metrô, mas dá para comprar sonhos na padaria... sou idiota por sonhos. Sonho com sonhos, sonho com ela; ela é um sonho real. Quem sabe ela toma uma cerveja comigo hoje, ou come sonho da padaria...
Fico imaginando, pois se eu continuasse hesitando, não apostasse no meu instinto, talvez não estivesse com ela. Os anos, dois, passaram... perdi muitos jogos da loteria federal nesse tempo, mas estes R$2,50, significam muito para mim. No momento significam o mundo, significam que eu posso continuar jogando e talvez, TALVEZ, acertar uma quina num jogo de sena (hei, é uma graninha!!!), mas significa mais ainda, significa que eu posso continuar me arriscando em meus palpites, e acreditar em sorte. Sim, eu me apego a certos detalhes e crio simbolismos válidos apenas para mim. Acertar 11 números num jogo de Lotofácil, de repente, vira uma revolução na minha cabeça. Podem me chamar de maluco, não será a primeira vez. O legal é que eu consigo traçar paralelos entre tudo isso. A parte realmente legal é usar tudo isso como desculpa esfarrapada para tentar explicar que eu, mesmo sendo premiado apenas com R$2,50, me sinto o homem mais sortudo do mundo, e não é por causa da Lotofácil(nem para ser o prêmio cheio...), por causa de outras coisas, como achar aquele disco raro por uma bagatela de 10 reais, conseguir escapar de alguma coisa ruim, ganhar qualquer coisa boa por aí.
Eu me sinto sortudo, o homem mais sortudo do mundo, por poder ser dela e lhe dar meu amor, assim, livre. Não há megasena, loteria, aposta de casino, qualquer outra coisa que seja melhor do que estar junto dela.
E tem uma grande diferença: com ela nada é jogo, é real, é emocionante e é melhor.

--

Momento piegas: se a vida é uma loteria, tirei o prêmio máximo!
Pronto, atirem os tomates, NÃO LIGO! :P

sexta-feira, 2 de julho de 2010

2010...

É... repetéco de 2006...
Agora só me resta torcer para o Timão no brasileirão.

Essa vida de sofredor tá foda.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ele sobreviveu

Gregório está na cama do hospital, nem parece que já se passaram três dias, ou seriam quatro? Ele já não tem certeza, nem de quanto tempo passou, nem de quanto tempo ficará ainda, mas o pior já passou. Na fila do transplante por mais de três anos, de repente esses três, ou quatro dias, deixam de parecer uma eternidade, comparados aos anos de espera, mas mesmo com livros, televisão, comida, pessoas cuidando de sua saúde, esses poucos dias ainda incomodam, parecem um longo tempo. Talvez o tempo não seja comparável, não seja realmente contabilizado da maneira correta, tão estranho, ele pensa. Sessenta e dois anos... meia-dúzia e depois o dois, que diabos! Passou tão rápido, era tão fácil quarenta anos atrás...
Na verdade ele sente melancolia, pois lembra do irmão. Sente saudades dos tempos áureos, como diria o Ricardo, “tempos malucos, Gório, maluquices sem fim...”
Nunca mais viu Ricardo, ele virou a cara para todos nós, pensou. Passou a mão pela cabeça, ainda sentia aquela tontura, talvez o sangue não estivesse irrigando a cabeça direito, talvez seja efeito dessa alimentação controlada, essas horas uma cervejinha iria bem, só para dar uma inebriada no sentimento, na verdade queria mesmo era uma garrafa de whiskey, serve até cachaça! NÃO! Está sóbrio já faz dez anos, e se não fosse por isso, estaria enterrado ao lado de Daniel. Quando tudo isso começou? Mal se lembra, realmente foram tempos muito loucos, ainda mais quando conheceu Geraldo, Felipe e o resto dos Mortos, nós da Ampulheta ainda éramos novos no meio e nem tínhamos idéia do que existia de doideira nesse mundo. Foi um pouco antes disso, foi quando Daniel me presenteou com aquele órgão... Hammond-B3... paixão de infância, eu ficava tentando tocar num desses que tinha no bar perto de casa. Uma lembrança muito engraçada surge desse dia, ele chegando na casa que Daniel dividia com Ricardo e o resto da trupe, Cláudio, Jaime e Bruno. Violão nas costas e uma pequena mala na mão.
“Gório! Você veio mesmo! Pessoal era justamente dele que eu estava falando ontem. Meu irmão, Gregório. Ele vai canta.” Daniel realmente botava fé, acreditava em mim, Jaime e Bruno olharam com aquela cara de que tudo estava bem, e lógico estavam sedentos para fazer um som. Apenas Cláudio e Ricardo questionaram “Ele sabe cantar mesmo?”, Daniel já foi mandando, “Gório, canta aquele blues do Son House aê, Grinnin’ In Your Face! Mostra pra eles o fazíamos lá na nossa cidade!”
Eu soltei a garganta, era o que eu sabia fazer de verdade, o violão só me ajudava a compor e fazer um andamento, quem tinha a prática era o Daniel, ele era o apaixonado pelas cordas, e eu pelas teclas. Abriu um sorriso para esta lembrança. Sentia-se feliz, e afortunado por ter participado de algo tão grande. Lembra daquele dia, com gosto, ainda mais pelo presente, Daniel o chamou para a sala de ensaio e falou “Para você entrar na banda, só tem uma condição a cumprir agora, aprende a tocar aquela porra ali!”, Daniel ria, quase ao ponto de se mijar, teve que ir ao banheiro, Gregório lembra da risada do irmão, em tom de desafio, mas ele estava rindo demais por ver o irmão mais novo chorando de alegria, parecia criança quando ganhava uma bicicleta, levando em conta que na década de 60, uma bicicleta era para poucos, assim como um Hammond-B3 de madeira, aliás, é para poucos até hoje. Daniel voltava do banheiro, Jaime e Bruno entraram na sala riram junto, e o último estendeu a mão “Júnior, levanta aê! O lance é o seguinte, pega esse livro aqui, e destrincha, você tem dois dias para aprender alguma coisa, esse fim de semana não terá ensaio, precisamos trabalhar, ok?”, Jaime batia nas costas do novo membro, gargalhando, e dizia que “Tudo vai ficar bem, você vai dar conta. Daniel disse que você tem umas composições, por que não passa para a tecladeira?”, “Vou tentar, dois dias né?”. Ricardo entra na sala, “Dois dias, e dois baseados, presentinho para você, seja bem vindo de volta ao sul! Mas estude antes hein!”, todos riam, até o Cláudio encostado na porta.
“Foi assim que começamos, foi assim que comecei.”
A doença veio a ele devido aos anos desregrados, mas ele não se arrepende disso, pode se arrepender de outras coisas, mas não dos momentos divertidos, do começo de tudo.
“Gório! Como está meu querido? Esse repouso está um saco né?”
A voz de Felipe, Deus, quanto tempo não o via, já fazia mais de um ano! Felipe é companheiro de longa data, daqueles tempos loucos de verdade. Oito anos mais velho, e passou pela mesma operação doze anos atrás, transplante de fígado, Hepatite C. Hoje ele faz campanha sobre doação de órgãos, doze anos após o transplante, está inteiro. “E aí, está pronto para tomar umas geladas? Trouxe umas latas aqui para você e...”, Gório arregalou os olhos “...calma é brincadeira!”, levanta uma garrafa térmica. “O médico disse que chá era permitido, garanto que este aqui vai te fazer viajar longe! BRINCADEIRINHA!!!”, sempre o piadista, as drogas ficaram para trás já há muito tempo, ambos são sobreviventes da época do Amor Livre, Natureza, Paz, Música e Revolução. “É erva mate, meu amigo.”
Coçando a barba, balbucia umas palavras “Pô Felipe...”
“O que foi meu?”, olha para Gório, enquanto serve chá na caneca.
“Você é foda hein! Cada brincadeira! Não posso ficar dando muita risada, porque eu sinto puxar esses pontos de merda!”, Gório ri leve, para descarregar a tensão, “Dê-me esse chá, por favor.”
“Ahhhh... o sulista aprendeu a ser educado com o tempo hein! Está até falando “por favor”! Tudo bem, entendo a situação.”, Felipe lembra de todos ao seu lado, tanto no transplante, quanto no câncer de próstata, oito anos depois, azar, MUITO AZAR, pensa, mas a sorte bateu de novo na porta e lhe concedeu mais um tempo, e ele está aproveitando bem, não aparenta setenta anos. “Lembro de vocês todos me visitando, até os moleques, como estão?”
“Estão bem, vieram me visitar já. Aparecem todos os dias.”, pensa como é bom conversar com um amigo vivo daquela época. “E a família como vai? E a OUTRA família?”
“Estamos todos bens, ainda bem, mandaram desejos de melhores e virão te visitar depois. A OUTRA família está bem, o Roberto e o William me disseram que já passaram aqui, e o Michel vai dar um pulo aqui amanhã. Vamos nos juntar para uma temporada, sabe como é, né?”, Felipe faz uma cara feliz, mas triste ao mesmo tempo.
“O Geraldo faz falta na banda né? É como o Daniel, os dois eram meio que guias espirituais... o que será que acontece com esses guitarristas?”, ri leve, pois lembra das duas bandas tocando juntas perdidas em qualquer canto do país.
“Ele faz falta sim, o Ronaldo também, cara acho que todos que já se foram fazem falta... o Bruno era um que vocês adoravam e se foi um ano depois do Daniel, e quase no mesmo lugar... eles eram família.”
“Pois é... mas o Geraldo e o Daniel realmente sabiam como mover, nos levar para a frente. Se não fosse pelo Ricardo, eu teria parado lá mesmo, teria feito o mesmo que vocês, terminado a banda e faria algo sozinho...”, mas foi melhor assim, pensou.
Felipe ria, “Desculpe-me, mas você lembra daquela noite que o Geraldo ficou alucinado e não parou de solar e de repente o Daniel se juntou e os dois ficaram numa conversa muito doida? Aquilo foi mágico, e era engraçado pois eles pareciam crianças...”
Realmente tinha sido uma noite mágica, praticamente três bandas no mesmo palco dando o melhor de si num bis de quase uma hora. “Rapaz, éramos para esquecer aquela noite, depois de tanta porcaria no camarim! Mas não dá, foi mágico! A banda do Pedro subia junto, quando vimos tinha cerca de dezesseis ou dezessete pessoas mandando um improviso!”, nunca mais se repetiu... “Nunca mais aconteceu... o Pedro enlouqueceu logo depois disso né... mas que momento! Guardemos as coisas boas, de ruim que fique só as saudades!”, Gregório não escondia o sorriso, contente por ter participado daquela noite, contente por tudo que teve.
Felipe concordou e acrescentou “Vamos, beba esse chá, branquelo! Daqui a pouco chegam as suas bolachas de papagaio.”
O tempo passou, e memórias encheram aquele quarto de hospital, coloridas, alucinógenas, piadas, coisas boas da vida, ambos sabem o quanto foram bem afortunados, o quanto se passou até estarem onde estão. Ainda não é hora de acabar.
“Está no fim do horário de visita, tenho que ir”, fechava a garrafa, “mas volto amanhã, trago algum livro para você?”
Gório pensou, não sabia o que ler, ficou na indecisão, e por fim decidiu “Me traga uma escaleta, um caderno e uma caneta, ainda posso assoprar. E me faz mais um favor, me traga a nova edição do Batman, quero ler qualquer coisa, com figuras, livros eu posso ler em casa, lá as paredes não são brancas.”, Felipe riu junto.
“Tudo bem, amanhã eu trago! Durma bem. E para você tem uma surpresa aí na gaveta do criado mudo. Tchau!” saiu rápido como se tivesse algum compromisso.
“Surpresa!?” Abriu a gaveta e viu, não poderia ser, maconha? Ele bolou um baseado? O filho da mãe trouxe maconha para o hospital? Só pode estar de brincadeira! Cheirou o cigarro, mas não tinha cheiro de maconha, pelo contrário, ele sempre falou que a comida de hospital era ruim e sem graça, ainda mais bolachas água-e-sal... é um cigarro de chocolate. Gregório ri, sente dor, mas ri mesmo assim... “sempre o brincalhão... esse não tem jeito...”. Mastiga o chocolate, e se acalma do riso. Amanhã é outro dia, mais um dia, ainda bem.

--

Gregg Allman, um dos músicos que mais admiro, passou por um transplante de fígado recentemente. Decidi fazer esse pequeno conto/crônica, sobre ele como paciente em recuperação, conversando com Phil Lesh(outro ótimo músico, que passou também por transplante de fígado) sobre os bons tempos, onde a Allman Brothers Band se juntava com o Grateful Dead e até o Fleetwood Mac no mesmo palco, mandando jams em shows de mais de três horas de duração. E lógico, uma pequena piada com os famosos "cigarros de chocolate", que eu comprava quando criança.
Aqui está o link com a notícia: http://kissfm.com.br/noticias/gregg-allman-passa-por-transplante-de-figado/

Que músicos como ele e seus amigos vivam por muito mais tempo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Faltam-me dedos!

Ser bom só me trouxe problemas; resolvi, depois de alguns anos sendo o filho da puta, insensível e cafajeste da turma(palavras de meus amigos, não minhas, pois eu me considerava uma pessoa livre, apenas), me tornar uma pessoa decente, parar com as loucuras e exageros, ficar mais em casa com a família, ser mais responsável, trabalhar melhor, etc... mas a vida ficou um saco. E decepções atrás de decepções só pude concluir que o bonzinho é quem sempre se fode, acaba ficando para trás e, no fim, assim como eu, acaba amargo, possesso, e puto com tudo nessa vida.
Não me leve a mal, mas ser o cara bom só me trouxe decepções, e por mais que não queira, ainda sou bonzinho as vezes, e continuo me arrependendo disso, e o pior é que comecei a contar com os dedos das mãos, dos pés... faltam-me dedos! Bom, quase, ainda me sobra o dedo-médio, aquele que vou levantar com o punho em riste, voltado à face de quem merece, para dizer com todas as letras, sílabas e fonemas: "VÁ TOMAR NO MEIO DO SEU CU!"
Aí posso ficar sossegado, porque todo mundo tem que ser sincero, e estarei sendo, com qualquer um.
Depois de duas semanas completamente cheias de coisas que não gostaria que tivessem acontecido, resolvi parar de discutir, de ajudar, de me importar. Lembrei o que é viver para mim.
E te digo, meu caro, é muito bom estar de volta!

Solidão finita

Demorou, cerca de dois, ou três anos para dar chance ao coração, não sabia como, nem por onde começar, não sabia. Uma coisa sabia, sem falta, sem erro, sem desculpas, deveria haver sinceridade de sua parte, como sempre houve, nos casos e descasos que houveram, "não quero compromisso", deixava explícito logo no começo, evitava se apegar a motivos distantes, ainda mais quando distância era um motivo grande e longo (era por este e outros, que o último relacionamento acabara) e maldito. Antes havia decidido se deixar levar, não se prender, e de súbito em um mês, após tanto tempo de loucura, bebedeira, amizades, sexo por sexo, amor sem amor, embriaguez mental e emocional, a realidade lhe bateu na face, como um tapa, daqueles que deixam as marcas dos dedos nas bochechas, e era dolorosa, uma verdade doída lhe atingia colérica em seu peito: estava só.
Para desvencilhar deste sentimento, resolveu sair, passear ao pouco de luz do Sol que lhe é permitido num dia de inverno. Frio inverno. Talvez seja pior que o inferno, mais danoso e mais sofrível que qualquer um dos nove círculos que Dante percorreu, muito dantes de hoje percorrer pelas ruas qualquer reles mortal colocando em prática cada pecado. E assim é este inverno infernal por onde tenta passear e pensar algo fora da esfera da solidão. Mas há o bombardeio, figuras e imagens de casais felizes, chocolates, roupas, jóias e diversos presentes para namorado e namorada, casados inclusos, pois nunca deixaram de namorar, apenas os infelizes e os conformados. E isso lhe atormenta, traz lembrança de quem amou, de quem se foi, e a data de Doze de Junho está próxima, para lhe atormentar mais significativamente. O amor virou consumismo, virou babaquice e banalidade, aquela idiotice que todos pensam que vai salvar a vida do universo, evitar desastres e guerras, e trará paz, no entanto traz ciúme, traz saudade e traz até solidão. O amor é uma faca de dois gumes, pronta para cortar qualquer sentimento bom e qualquer sentimento ruim. Será que vale a pena todo esse sofrer?
Decide voltar para casa, e voltar para o que não pode trair, e assim volta. De mente refeita de que essa solidão vai passar, com companhia ou não, passará.

domingo, 9 de maio de 2010

Um caso anual

Já é Segunda-feira, Domingo explodiu em milhares de pedaços e foi devorado pela areia temporal que insiste em cair afunilada. Sim, alguém virou aquele artefato rústico, antigo e que teve muita utilidade nos tempos antigos, antes de vovô e vovó nascerem, bem antes. Aquela ampulheta perdida em algum canto foi tocada, manipulada e há cinco minutos recomeçou a sua contagem, ao deslizar de grãos pelo seu interior, passando pela sua cintura fina e chegando ao seu fundo, se amontoando. Se possui sentimentos, imagino que seja de náusea, pois os grãos formam uma montanha que deve irritar qualquer estômago, mas como é um objeto, não deve ser lá muito emotiva.
Mas é culpa dela?
Será que conspirou contra o Domingo?
Assassinou mais um dia?
Não! Assim como uma arma, esta ampulheta é apenas uma ferramenta. Ela tem que ser manipulada por alguém. Alguém consciente do que faz. Alguém com um crime premeditado. Este alguém é frio e calculista, mas não se revela, nunca. Apenas temos dúvidas e nada de respostas sobre sua identidade... e talvez estejamos errados, pois podem ser mais de um elemento.
Mas o que teria Domingo feito para merecer tal castigo? A vítima era responsável por alguma atrocidade? Convenhamos, dia nove de Maio de dois mil e dez, dia das mães. Um paradoxo se segue e todo ano acontece este assassinato. Seja por uma criança atrevida que não respeita aquela que a gerou, seja por um adolescente revoltado e querendo chamar atenção, seja por um adulto que larga a mãe sem cuidados, mesmo quando viúva.
Domingo, seria sua culpa ser o "dia das mães"? Seus colegas no calendário não tomam partido algum em homenagearem estas que trazem vida ao mundo, e não tem culpa pelo término de sua existência. Portanto tu és o único com coragem de se entregar de peito aberto.
O teu assassino deve ser o mesmo que nos tira a vida, e se for, um dia terá que se explicar com todos. Cada um de nós tem uma ampulheta, e a minha talvez esteja longe de ser virada, mas quando virarem, estarei questionando, mesmo conformado com a única certeza, nada será em vão, nem a sua morte.
Obrigado por ser o mártir deste ano, tens o meu respeito.

Minha mãe sempre terá meu amor.
:)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Futebol, música, livro, filme e ciclos...

Esse dia fatídico, 5 de Maio de 2010, dia em que eu acordei para terminar algumas atividades. Dia em que o Timão acordou do sonho de, no seu centenário, ganhar a taça Libertadores.

Eu não costumo ser supersticioso, mas fico pensando no que me ocorreu durante o dia, e tudo de alguma forma tem algo relacionado com fim de uma fase, e começo de outra, transições... Acordei em jejum, pois tinha que fazer uma coleta de sangue, coisa trivial, mas é a ÚLTIMA de uma série de coletas de sangue. Após isto, ACABEI com o meu jejum, ou melhor dizendo comecei um desjejum, foi uma transição. E mais tarde fui no ortopedista, para começar uma série de consultas. Contando tudo isso, parece até que sou uma pessoa muito doente e hipocondríaca, mas longe disso, são só exames de praxe, e quanto a consulta ortopédica, bem, é fruto de uma partida de futebol com os amigos no último sábado. O meu único mal, realmente, neste momento, é ser o que escolhi desde pequeno, ser Corinthiano, ser sofredor, ser "LÔCO", e nunca abandonar, nunca deixar de torcer.
Sei que muitos nem ligam tanto para futebol assim, muito menos para superstições, mas será que fiz certo em finalizar algumas coisas logo hoje? Por exemplo, terminei de ler "Laranja Mecânica", livro do Anthony Burgess, mas será que deveria ter esperar até amanhã para terminar a leitura? O fim do livro, é uma transição(olha ela aí de novo) da 'jizna' 'nadsat' de Alex, cheia de 'ultraviolência', 'veshkas voni graznis', 'molokos' entupidos de drogas, Nonas de Ludwig van, 'druguis' traiçoeiros e diversões, para a vida adulta, responsável e familiar. Este último capítulo foi excluído das cópias americanas, de onde foi tirado o roteiro do filme de Stanley Kubrick, então é algo novo, e vou parar por aqui, pois não quero estragar a leitura de ninguém. Posso relacionar ao ciclo que o Timão encerrou(Copa Libertadores 2010), como Alex, e irá iniciar, no Campeonato Brasileiro deste ano, e amanhã eu começo um novo livro, "Clarissa", de Erico Veríssimo, pois preciso ler algo mais humano e menos caótico.
Está acompanhando a superstição toda?
Então tem mais uma, cheguei em casa e assisti "The Last Waltz"(juro, não sei como essa mídia ainda não derreteu de tanto que já assisti o dvd!), o último concerto da The Band em sua formação completa e original, e para mim, o melhor show de rock já gravado em vídeo com diversos convidados de alto calibre(Bob Dylan, Neil Young, Van Morrison, Eric Clapton, Muddy Waters, Ron Wood, Ringo Starr, Joni Mitchell, Emmylou Harris, e mais alguns...), a direção impecável de Martin Scorsese uma celebração completa, e mesmo que bonita, triste em sua essência. Robbie Robertson(guitarra e vocais) não agüentava mais sair em turnês(hoje em dia ele compõe e produz trilhas sonoras para filmes, sendo requisitado pelo já mencionado Scorsese) e queria sossegar em casa; Richard Manuel(piano e vocais) não agüentou muito, foi o primeiro a sucumbir e se despedir do mundo, vítima de uma vida desregrada de bebedeira, resolveu se suicidar, se entupindo de cocaína, tomando uma garrafa de Grand Marnier, e se enforcando logo após; outros já estavam começando a vislumbrar carreiras solo, Rick Danko(baixo e vocais) foi o primeiro a seguir em frente, lançou um disco solo e nunca mais parou, continuou fazendo turnês até falecer em 1999, devido a problemas no coração; Garth Hudson(teclados e metais), o mais introspectivo, também seguiu solo, mas de um jeito mais intimista, e se tornou um músico de estúdio bem requisitado, até hoje é o mesmo barbudão, mago nos teclados; e para finalizar, Levon Helm(bateria e vocais), assim como Danko, nunca parou, e ainda não dá sinais de desgaste, e hoje em dia já conta com um estúdio onde bandas disputam a agenda para fazerem shows especiais(tem espaço para audiências de até 200 pessoas) e gravarem discos, e já até atuou em filmes e não para de lançar discos e fazer turnês. Enfim, a The Band começou como banda de apoio de Ronnie Hawkins e foi ao sucesso quando virou banda de apoio de Bob Dylan, que estava procurando uma banda para sua primeira turnê "elétrica"(olha só a transição de novo!) , e seguiu lançando com eles o famoso disco "The Basement Tapes"(OUÇA! É OBRIGATÓRIO!), e a banda acabou por ficar grande por si própria e seguiu separada de Dylan, até o seu término na sua última valsa. E assim finaliza mais um ciclo.
E aí, temos os cem anos do Coringão. Um ciclo se encerra, um século se conclui, e uma transição se passa neste momento, não tão alegre como eu desejava, mas faz parte. Essas coisas que só acontecem no futebol, afinal tudo é resolvido em detalhes entre quatro linhas. Nem adianta ficar discutindo o que deu errado, já passou. Mas gostei do jogo que vi, da força de vontade, da garra e da entrega, para jogar no Corinthians, ao meu ver, o jogador tem que mostrar 'raça', força de vontade, e paixão pela camisa(o que é raro hoje em dia), e eu vi tudo isso(pela TV, infelizmente) e mais, vi uma torcida, mesmo chateada com a desclassificação, cantar e exaltar o desempenho do time em campo, e fico feliz, pois em meio a tanta violência(o Alex 'nadsat' iria adorar morar num Brasil cheio de 'ultraviolência' entre torcidas, trocando 'toltchoks' e vendo 'krovi' escorrer...) que temos hoje no futebol, é raro ver uma torcida comportada e mesmo na derrota, ter orgulho da camisa que veste.
Será que a minha superstição tem fundamento? Talvez não, não saberia explicar, nem um milhão de anos como eu posso relacionar tudo isso com a desclassificação do Timão na Libertadores, apenas foi um pensamento que passou pela minha cabeça, aquele velho e bom "e se..." que sempre volta a atormentar.
Não adianta, a única explicação decente é a velha máxima: Futebol é uma caixinha de surpresas.

Hoje começa um novo ciclo, e lá vou eu seguir em frente com algo novo, mas para sempre corinthiano, torcedor, sofredor, "LÔCO" e que nunca vai abandonar a camisa.

VAI CORINTHIANS!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

DIRPF

Penúltimo dia para fazer a declaração do imposto de renda. Eu aqui matutando, me esgueirando entre notas, recibos jogados no chão, aquela loucura toda de quem adiou, e adiou, e adiou mais um pouco, e só para não falar que deixou para a última hora, resolve fazer o inevitável(ninguém quer cair na malha fina) um dia antes do prazo limite, para satisfazer esse orgulho babaca, poder bater no peito e falar "Eu fiz e deu tudo certo! Não tive problemas nem para enviar! Sabem como é, por mais que seja confiável, desconfiamos dessa coisa de transmitir dados monetários via internet...", uma antítese simples, embora verdadeira, não conheço quem fique tranqüilo em 'mexer com dinheiro' na internet, sempre fica aquela pulga atrás da orelha dizendo sobre os milhares de malefícios, vírus, hackers, e por mais que tenha um computador seguro, temos que contar ainda com o bom senso de acessar sites seguros, é tanta segurança que não dá para ficar tranqüilo. Mas eu no meio dessa papelada espalhada pela sala me pego pensando a quantos anos eu liguei o 'FODA-SE', menos para o imposto de renda, já ouvi histórias, não quero ser alvo da lei, muito menos transgressor.
De um lado a pilha do convênio médico, próximo, os montes de recibos de dentista, de psicólogo(ei, no meio dessa loucura que vivemos, alguém pode ajudar a organizar a cabeça), de previdência privada, de consórcio, contas em geral e afins... tive que colocar uma grade na porta da cozinha para o cachorro fazer companhia para minha esposa enquanto ela faz o jantar(adivinhe só, ela já fez a declaração do imposto de renda dela... NO MÊS PASSADO!!!)
, aquele cheiro... só pode ser macarrão... FOCO! Voltando a declaração! Enquanto rola um álbum do Wilco(A Ghost Is Born, mais precisamente, minha esposa diz que é um porre... eu gosto) no som, tento me organizar e calcular tudo, e toma anotação daqui e anotação de lá, como dinheiro tomou conta das nossas vidas? É só trabalho e dinheiro, trabalho e dinheiro... olho a conta do psicólogo(de novo ele!), R$200,00 ao mês, para me ajudar numa loucura que me aflige, num medo maluco de fazer as coisas, e eu nem sei o que é isso, mas estou melhorando. Dentista, R$75,00 ao mês... Água, luz, telefone, TV por assinatura e internet... a conta mensal da casa já passou dos R$1500,00, contando com combustível do carro, previdência privada, cursos disso, passeios daquilo, e eu nem contabilizei ainda o gasto com o cartão de crédito, compras de supermercado, empregada(ambos trabalhamos, não posso deixar na mão dela, esposa, a faxina toda), penso que essa declaração vem uma vez ao ano para, além de tirar mais dinheiro do contribuinte, lembrar o quanto a nossa vida chega a ser miserável, corrida, e o prazer de viver fica em segundo plano. Quando foi a última vez que viajamos? Quando foram as últimas férias que tiramos juntos? Não. Não posso me permitir levantar questionamentos agora, ainda dá para terminar essa declaração antes do jantar.

Ouço ela falar da cozinha:
- Amor! Você quer molho bolonhesa?
- Hã!?
- Você quer molho bolonhesa?
- Ah... sim, claro!
- Vai demorar muito para acabar a declaração?
- Só mais alguns minutos...
- Devia ter feito como eu, no mês passado, com calma...
- EU SEI! Não precisa ficar esfregando na minha cara!
- Nossa, mas você não precisa ser grosso assim.
- Me desculpe, estou calculando e me afogando no meio deste monte de papel, e está uma loucura, mas acabei de pensar em algo, - sucumbi à
distração, não havia como não - podíamos marcar de tirar férias juntos daqui uns três meses, que tal? Apesar que você vive ocupada no escritório, você acha que consegue reservar umas duas semanas?
- Querido, posso ver na agenda, e você consegue duas semanas? E pelo amor de Deus, dá para trocar esse disco?
- Respondendo as duas perguntas: Sim... e NÃO! É o único momento no dia que posso ouvir alguma coisa sossegado e você vem pegar no meu pé!? Faça-me o favor!
- Olha aqui, eu não pegaria no seu pé se fosse algo legal, mas é um saco ouvir isso.

E o diálogo segue nessa linha, estranha, rude e ao mesmo tempo amável, uma discussão estranha no meio de uma conversa sobre planos. Acho que casamentos tendem a chegar nessa estranha situação como o meu chegou, onde
cinqüenta por cento do que é falado é implicância e discussão, e os outros cinqüenta por cento é amor. Mas quando chega o silêncio, simplesmente não há necessidade de palavras, só a necessidade do próprio silêncio, do olhar, do toque, da paixão... Cansei, os valores estão anotados, não demoro muito para colocar no sistema, farei isso quando ela estiver dormindo. Atropelo a papelada, já desorganizada, abro o portãozinho e coloco o cachorro para fora da cozinha, fecho a porta, e a vejo colocando o macarrão para esquentar, a abraço por trás e beijo seu pescoço.

- Agora não... isso faz cócegas! - ela ri como uma adolescente e pergunta - E a declaração?
- Resolvi dar umas férias para ela. A única declaração que tenho que fazer agora é: eu te amo.

Como pode imaginar, o jantar atrasou um pouco,
bagunçamos um pouco a cozinha... ela vestiu a minha camisa e se levantou, se alongou, bocejou e sorriu como se tudo estivesse melhor naquele dia. Teve que refazer o molho, mas nem se importou, até que tentei ajudar, mas não tenho talento para a cozinha, se fosse para lavar o carro... enfim troquei o disco, coloquei o do Chico Buarque que ela tanto gosta, e pude ouvi-la cantar enquanto arrumava a mesa. Jantamos e conversamos sobre os planos de nossas férias. O cachorro já está dormindo na casinha.

Agora termino essa declaração de imposto de renda, sem problema algum, enquanto ela cantarola "A Noiva da Cidade" e lava a louça.

- Amor, vamos para a cama? - me pergunta se recostando no batente da porta, com o sono estampado na cara.

Clico no botão 'Transmitir', e deixo o computador ligado.

- Vamos linda.


--


Eu estava fazendo a
DIRPF de 2010, o famoso Leão, e me veio essa cena na cabeça. E talvez eu continue a escrever sobre este casal.

Lembrando algo que um amigo meu dizia: "DINHEIRO É PAPEL!"

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Vire o disco!

Por que ser diferente e peculiar?
"Você usa ainda o mesmo telefone,
já fazem seis anos esse celular!"
Não tenho motivo algum para mudar,
ainda funciona para conversar,
seja com você ou outra pessoa
então você está reclamando à toa.
"Mas você é sempre avesso a mudanças!"
Não é verdade, é simplesmente questão
de prioridade, nada comigo é em vão.
Você não está feliz com suas compras?
Estou contente com minhas experiências.
Deixa eu colocar uma bolacha no som,
você pode apreciar melhor as cadências,
progressões, força nas notas das trompas.
"Volume alto assim sem distorção?
Como é possível? Eu sempre preferi
coisas modernas e práticas, na mão."
De que adianta? Celular é para telefonar,
não para ouvir música. Hora de virar
o disco.

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Sábado(17 de Abril) foi o dia das lojas de discos e amanhã(20 de Abril - aniversário da morte de Ataulfo Alves, sambista, compositor, que para suas músicas, teve interpretes do calibre de Clara Nunes, MPB-4 e Quarteto Em Cy) é o dia do disco, eu como sou apaixonado pelo som das bolachas, resolvi escrever algo para estes dois dias, comparando o sonzinho de música armazenada em celular, na maioria das vezes em MP3, de baixa qualidade, sendo reproduzidas em fones de ouvido com o volume nas alturas. Acho que cada um curte música da maneira que quiser, mas prefiro qualidade. A praticidade fica de lado nesse caso, não suporto o som que rola no meu celular, mesmo com os fones de ouvido, acho uma porcaria, e já ouvi de modelos mais avançados e não adianta, acho que isso não é para mim.
Mas voltando as comemorações, bem comemore do seu jeito, com seus amigos, sem eles, eu vou sentar e colocar um disco para rodar no prato e contaminar a agulha com aquele ruído único que me hipnotiza desde criança, e vou aproveitar que dia 21 de Abril é feriado(aniversário da morte do Mártir da Inconfidência Mineira, Sr. Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido por Tiradentes) e comemorar com amigos amantes desta arte, que torna a vida algo correto. Até mesmo o niilista supremo, Nietzsche, disse uma frase que no fundo tem algo de feliz: "Sem música, a vida seria um erro."

É, talvez ele estivesse certo.

Então, aproveite amanhã, você tem uma desculpa para incomodar o seu vizinho! :)