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segunda-feira, 4 de maio de 2020

Adeus, Aldir Blanc

Morre um poeta.
Morre um asceta
da música brasileira,
e não de outra maneira

mas vítima da pandemia,
aqui tanto propagada
pela visível ignorância
dessa doida manada.

Certeza que, vivo,
diria ao ouvir o silvo
de um companheiro
compositor maneiro

algo de pura sagacidade,
com metáforas lindas,
à seja lá quem for
(não importa a flor da idade)
que teria suas letras lidas.

Adeus poeta das visões
desse país maluco.

Adeus homem das anistias
em meio ao sufoco.

Que à Deus você chegue,
digo, mesmo não sendo crente
que hoje tenha algo acima
de um poema seu.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Qualquer dia nos serve

Já nos disseram
que não somos românticos...
Mas, após tantos anos,
sabemos que amor não é físico,
aos outros isso parece racional,
mas é puramente sentimental.
Então não precisamos de arroubos
em uma data comercial
que se mostra sempre banal
e é apenas, no romance, um roubo
que estimula o corpo a fazer sexo
como se isso tivesse algum nexo
com o ato de amar.

O amor que sinto por ti
está além de tudo que vi
nessa vida.
Não o vejo, apenas sinto
e, chorando ou rindo,
sei que o amor mais lindo
não é físico,
mas sim algo que salva
a vida da banalidade,
algo que traz realidade,
algo muito além da matéria.

Não importa o dia,
o amor é nossa alma.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Lied do Compositor

O canto triste da ave
faz vibrarem luzes,
ar, tímpanos e peles.
Os cílios, num enxágue,
respingam emoção
e fecham as bocas dos olhos,
calando sua visão
e deixando à audição
o vislumbre dos textos
molhados de poesia
e vestidos de canção
entoada pelos ventos
que empurram a embarcação.
Não há sequer maresia
que afete o canto alado;
quem compôs é santo
em música
e, no amor, amaldiçoado.

Como na tristeza
pode haver beleza
e tanta calmaria?
Talvez só o compositor
lhe responderia...

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Herói?

Um amigo relatou
que já desejou
ser Jesus,
e me perguntou
se tive heróis...
Alguns, supus,
mas, logo depois,
pensei alto
e ele escutou:

"Eu só queria
fazer barulho
todo dia.
Herói? O caralho!
Quero alegria,
para o mundo
do topo ao fundo,
do baralho;
e o fim da amusia."

terça-feira, 24 de março de 2015

Harmonia Funcional

De um maestro aprendi
que "a desigualdade nos une
ao mesmo passo
que a igualdade nos separa",
e daí, então, entendi
que a maldade é um perfume
no mesmo laço
que a bondade nos enforca.

Um não vive sem o outro,
pois a maldade de viver
nos é um fato tão neutro
quanto a bondade de morrer.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Aprendizado

Nunca o silêncio
foi, em essência,
o que me agradou,

mas quando penso
nas experiências
do que me passou

me sobra o bom senso
que me repensa
o que me silenciou,

pois este silêncio
vem da vivência
do que me ensinou:

"a quem mais ouve,
menos dor houve"
então me calou.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Flauta Faceira (haiku trio)

Rouca madeira
mostra-se tanto destra,
louca e faceira

na quente feira
antiga; entre suas amigas,
faz brincadeira:

Frullato, sopra
fundo e vibra profundo
quem ouve a obra.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A Malandragem

Samba em bando
dentro da caçamba?
Caramba!

Continua sendo
um samba
sem banda.

Aqui ou em Ruanda,
só malandro
o samba
é bamba.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Um canto

Ouço um canto
ali, que me espanta.

Enquanto
me encanta
cobre minha mente
como um manto
e não deixa
o frio entrar.

Meu coração
quente, sente
o que só a canção
consegue falar.

Portanto,
não entendo
como tanta gente
daquele canto
não se deixa
emocionar
quando o canto
começa a soar.

terça-feira, 1 de abril de 2014

sexta-feira, 28 de março de 2014

Crosby, Stills, Nash & Young - Déja Vù

Peço atenção E DESCULPAS, pois o texto de hoje é longo, mas é super-válido. ;)

A querida companheira estava dirigindo hoje cedo a caminho do trabalho e eu, no banco do passageiro, sintonizei a Rádio Eldorado (tinha propaganda nas outras emissoras e fiquei caçando algo para ouvir...) e, de repente, ouço “Woodstock” de Crosby, Stills, Nash & Young e sinto uma nostalgia, vai lá saber se isso é porque a década de 60 é a época que mais gosto da música popular mundial – vide a música brasileira dessa época, cada composição linda – ou uma questão sentimental por conta de alguns discos que ouvi sentado ao lado de meu pai, um apreciador de música, mas a questão é que este disco, especificamente, este pequeno e curto álbum chamado “Déja Vù” desse quarteto, acompanhado de Dallas Taylor (bateria) e Greg Reeves (baixo), devidamente creditados e fotografados NA CAPA, tem sido parte da trilha sonora de minha vida, mesmo não tendo vivido naquela época. Não sei dizer o que raio de sentimento aflora quando ouço esse disco, só sei que é um daqueles poucos que posso dizer algo do tipo “me sinto em casa”. Meu pai não tinha esse disco, mas falava dele como se fosse algo fenomenal, de outro mundo, mas nunca achou para comprar fácil e num preço bom – a classe média na década de 80 e 90 não era abastada, com tanta inflação, comprava-se o pão da semana, pois no dia seguinte a subida de preço era vertiginosa. Recentemente o ouvi conversando com um amigo, lembrando como era difícil para eles até fazer compras, pois tinham que sair correndo antes que o etiquetador de preços do supermercado aumentasse o valor de cada produto, eram os bons tempos de ditadura, economia fantástica, importação PROIBÍDA, tecnologia defasada e mal se podia ouvir Chico Buarque, Geraldo Vandré, Titãs, etc, sem a avaliação da censura sobre o que deve ou não ser absorvido culturalmente: TUDO MIL MARAVILHAS. Vou parar JÁ com o discurso político (foi só para estabelecer um cenário real) e vou retomar a história. Enfim, meu pai não tinha esse disco e eu, já com 12 anos e viciado em música (doses cavalares diárias) em 1996, comecei a fuçar nas locadoras de CDs por discos novos, bandas novas; o MP3 apareceu na minha frente só no ano seguinte, e demorava no mínimo uma hora para baixar um arquivo de música com péssima qualidade de áudio. Conheci muita coisa, pegava CDs emprestado, copiava em fitas, emprestava CDs, trocava fitas com amigos (tínhamos o costume de pegar um CD novinho e ouvi-lo seguidas vezes, copiando uma fita por vez para cada um), mas alguns discos ficavam na minha mente como pulga atrás da orelha... Na verdade, muitos discos ficaram como pulga, coçando minha curiosidade, eu via as capas (a internet tinha acabado de chegar à casa dos meus tios) quando buscava por nomes no “Yahoo!” ou no “Cadê?”, e ficava besta tentando adivinhar como seria cada disco, de acordo com as referências que tinha até então. Só quando fiz 15 anos fui ouvir tal disco, já ouvia heavy metal e tentava, como qualquer “aborrescente”, renegar qualquer autoridade familiar e suas culturas, mas não conseguia NÃO GOSTAR das músicas que meus pais ouviam, nunca consegui DESGOSTAR (diferente de “enjoar”) do que gostei até então, então o Sr. Headbanger Babaca que vos fala ouvia Marisa Monte, Toquinho e Vinicius, Pink Floyd, Genesis, Yes, Fleetwood Mac, Elton John, Tim Maia, Alcione, Jethro Tull, UB40, Simone, Cidade Negra, Fagner, Chico Buarque, Djavan e outras coisas, tudo misturado com o metal e a música atual da época, Planet Hemp, Nação Zumbi (com o Chico), Raimundos, Skank, a cena Grunge, mas tudo escondido no mundinho do meu quarto. Falar para os amigos que eu gostava de Commodores? Não... Que eu cantava com os discos do Zé Ramalho??? Nem pensar!!! Que besta eu era... Achava que isso importava muito. Fiz amizades na escola, algumas dessas duram até hoje, e o pai de um deles tinha (e ainda tem) uma coleção, invejável, a maior que tinha visto naquela época. E PASMÉM, ele tinha o disco que meu pai me falou e despertou minha curiosidade por tantos anos. Eu não tinha ideia do que ouviria, já conhecia Neil Young e gostava muito, conhecia o David Crosby, mas ainda como guitarrista do Byrds, também já ouvira Hollies do Graham Nash e o Buffalo Springfield do Stephen Stills (e Neil Young), mas nunca tinha ouvido na vida esse timaço junto. Quando apertei play, dei de cara com um folk rock psicodélico diferente, quatro vozes fazendo um coro que ressoa até hoje na memória, músicas passando por diversos climas, do blues ao jazz ao experimental, mas sempre com uma linguagem popular e de fácil assimilação, mas não pense que é um disco bunda, é diferente de tudo. Quando meu pai chegou do trabalho e viu o CD que peguei emprestado, ficou feliz, lembro disso até hoje, deu um jeito de ouvir bastante antes de eu devolver (ele não tinha mais toca-fitas no carro, mas também não tinha como copiar o CD). Para você entender a alegria do meu velho, a minha alegria e a alegria do festival de Woodstock, você tem que saber que esse supergrupo foi o único na história que conseguiu rivalizar em popularidade com os Beatles no hemisfério norte, em sua curta duração. Esse disco é tão influente que ouço nuances dele em vários artistas folk, mas a obra inteira é uma viagem completa. Difícil você não se sentir numa fazenda enquanto ouve “Our House”, muito mais difícil você não sentir nostalgia de um lugar onde você nunca botou os pés ao ouvir “Helpless”. Difícil não sentir a angústia de “Almost Cut My Hair”, difícil não se deixar levar com “Carry On” (trocadalho do carilho?)...

Difícil ouvir apenas uma vez.

Depois que ouvi, larguei a mão, mostrei para todo mundo, a maioria torceu o nariz por não ter um solo na velocidade da luz, por não ter guitarras com distorções no talo, um baixo reto e pulsante ou uma bateria que mais parece metralhadora, mas eu não consegui desgostar desse disco, nunca consegui, é um dos poucos discos que é um porto seguro, sempre volto para ele, e nem é o meu favorito, nem de meu pai, mas tem um lugar guardado no meu coração. Foi por causa desse disco, especificamente, que admiti que gosto de música, acima de qualquer definição de estilo ou gênero. Dali para frente, não sentia que precisava esconder que gosto de samba, bossa nova, funk, reggae, ska, soul, r&b, rock, heavy metal, brega, música erudita, jazz, etc...

Não sei se você vai gostar desse álbum, mas fica aqui o link para vossa apreciação, talvez você tenha um choque, mas não se preocupe, apenas feche os olhos e dê toda atenção que puder apenas à música. Esse pequeno grande álbum não pode ser esquecido, nunca!

Se puder, quiser e não for atrapalhar, comente falando o que achou do disco. J

www.youtube.com/watch?v=RnOXkedBmRs
--

Texto: Ernesto Gennari Neto.

terça-feira, 4 de março de 2014

Desculpa de Carnaval

Numa terça-feira de carnaval,
pensei, toquei e cantei rimas,
eu ainda não via nada mal
nem na quarta-feira de cinzas.

Mas o fim do feriado chega
como quem diz "sai de cima",
acorda cedo na quinta-feira,
mas não se esquece da rima.

"Porque viver para trabalhar
não é trabalhar para viver.
O mundo girou quando parei

e isso prova que descansar
não é ruim como dizem ser.
Por que trabalhar? Não sei..."

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Vida absurda

Seria tudo um absurdo?
A vida, a morte,
o azar e a sorte
frutos de mero acaso?

Me perdoe se perturbo
sua mente, sua paz,
mas a vida se desfaz,
por aí, em cada passo.

Talvez já se perguntou
da vida qual é o sentido,
mas será que sentiu
que há algo a ser vivido?

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Prantear

Não sinto
o recinto
tão lotado,
mas fatigado
e fustigado,
um tanto
mal tratado,
e sem espanto
não vejo santo
nem ser desalmado,
e mesmo quando
eu canto
no meu canto,
enquanto
me encanto
com um conto
já pronto,
me encontro,
no entanto,
rolando pranto.
Dá um desconto.

--

Estou feliz com esse poema, muito bom. Acho que o meu bloqueio se mostrou necessário, no fim das contas.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Levante

A história do conhecimento humano
foi passada via telefone sem fio,
navegando como um grande navio
no tortuoso rio da nossa existência.

Vimos passar do desumano ao vi,
do que é burro ao babaca e imbecil,
mas também gente honesta e gentil
com todo e qualquer tipo de crença.

E não entendemos nossa presença,

nesse mundo de terceiras intenções;
nesse universo de grandes dimensões;
nessa vida sem grandes emoções;
nesses nossos trabalhos-prisões.

Quem nunca quis fazer um levante?
Por favor, não se acanhe e cante
sobre o que lhe é mais importante.

Você, enquanto vivo, tem que fazer
o seu momento de vida aqui valer
e mais que sobreviver, você deve viver.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Trauermarsch (5ª de Mahler)

Som fúnebre desse movimento,
rodando solto, neste momento,
pelos meus tímpanos abençoados

que identificam o sentimento
de estar ao gélido relento
num funeral com quem foi deixado

para uma vida cheia de nostalgia.
Deveria ser forte a cacofonia,
mas esta música me emociona

de forma cortante e dramática
que deixa minha alma estática.
Nada mais no corpo me funciona,

exceto o castigado coração
que a cada detalhe dessa audição
funesta e linda que me faz sofrer.

Me sinto incapaz até de segurar
esse choro e quero só me soltar
em lágrimas ao invés de me conter.

Um grito que entala na garganta
me machuca e, também, espanta
pela força com que faz apertar

dum pobre ser, tomado pela dor
de Mahler, que sangrou para compor,
o coração com sangue a jorrar.

--

Poema com métrica em 10 pés na tentativa de passar a sensação de ouvir o 1º movimento (Trauermarsch) da 5ª sinfonia de Gustav Mahler repetidas vezes.
Me sinto emocionalmente destruído por ouvir uma música tão linda e angustiante. Aliás, a sinfonia inteira é de uma beleza ímpar.