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quinta-feira, 25 de junho de 2020

Limpeza

"...É limpeza."
É o que se dizia meses atrás
sobre pessoas que não encanam,
e de pessoas que passam o pano.

Mas que destreza
temos para fazer uma gíria,
muda-se significado de palavra
e um novo sentido ali se crava -

desconsiderando o original -
e nesse tempo de crise sanitária
já não se sabe mais qual é qual,

tudo depende do contexto.
Talvez, melhor nos serviria
a norma se nos desse refresco.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Processo Repetitivo

Esse inverno da alma
veio esfriando ossos,
rachando toda a pele
já envelhecida do ano.

Tornou velho o pano,
enfraqueceu o caule,
apodreceu os frutos
que caíram da palma.

Vemos tudo mudar.
Todo ano se repete
em quatro estações.

Não ficam questões
do que nos acomete:
é a velhice a chegar.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Soneto da Palhaçada

A risadaria da criançada
não faz graça em velório
tal desgoverno irrisório
à alheia desgraça, nada.

Se resumiu à uma piada
dum completo mal gosto
onde nem sequer o morto
sorri nos dentes a risada.

Uma completa palhaçada
sem qualquer fundamento,
só propaga total descaso

numa situação desgraçada
soltando seu ar flatulento,
o dito pum do palhaço.

domingo, 26 de abril de 2020

Num Sonho Sensual...

...Entrelaçado,
entre meios
e os meados
desses veios,

fui tragado
pelos seios
já ensejados,
sem arreios

que segurem
essa fome
que vem de ti,

num abdômen
que me come.
É... assim me vi...

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Soneto do Risco

Sair pela porta vale o risco
de vir a trazer uma doença?
Seria, tal passeio, uma sentença:
não é só a mim a quem arrisco.

Exercitemos a consciência,
vejamos nossa humanidade,
valeria mesmo tanta insistência
em voltar a velha realidade?

Tudo mudou de uma hora à outra,
nada volta a ser tal antes era.
É tolice crer nessa fantasia.

É melhor aguardar. Vai que encontra,
na sua saída, algo à sua espera...
...pode ser algo que lhe contagia.

sábado, 28 de março de 2020

Percepções de Tempos

Chegou o fim de semana,
eleito como quem emana
um alívio, veio em acordão
ao suplício de todo coração.

Mas não sei mais que dia é,
todos são iguais, não tem ré
que volte o mundo como fora,
um astro rotundo, espaço afora.

Para a humanidade tudo mudou,
o mundo de outrora, tão querido,
não é nesta hora o mais possível.

Se há humanidade, se não acabou,
a solidariedade é um bem recebido
para tornar o mau mais impossível.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mar Errante

Como um marinheiro
atravessei tempestade
e no fim dessa viagem,
cheguei, aportei inteiro

e sei que um pescador
faria o mesmo da vida
nessa calma tempestiva
onde se sente um calor

de dança, batida
do coração, pulsante
sensação do sangue

nas veias e feridas
de uma canção triste
das ondas neste instante.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Soneto de expurgo

Envelhecendo contigo
percebo quanto mal
fazemos, como casal,
quando no telefone ligo

para te dizer palavras
que lhe perdem sentido
e me falham ao ouvido
pois agora soam vazias

No silêncio do seu olhar
percebo que, ao te amar,
mato um pouco de mim,

pois numa vida ao redor
de alguém que me dá dor,
sei que chegou meu fim.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ciclo infinito da vida

Ao mergulhar minha cabeça
na nascente do rio da vida,
sinto a água, um tanto fria,
fazer com que ideias esqueça.

Tudo parece um tanto animal
quando sorvo desse líquido
misturado à terra, mas límpido,
então sinto o instinto irracional

ao qual todo humano retorna:
este seu estado mais natural
em meio à tanta beleza.

Este é o ciclo da vida eterna:
é nascer e morrer; é trivial.
Assim funciona a natureza.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

À la Ivan Ilitch

No mundo moderno
todo ser é feio
e se sente meio
morto, meio eterno,

mas o choque real
de que é um animal
em auto detenção,
sem tomar uma ação

para deixar o vazio
de um viver tão frio
e banal, é uma doença

fatal que o atinge,
e não mais se finge,
apenas se reforça.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Soneto de condenação

Se tem inferno abaixo
é para lá que todos irão
porque se a humanidade
tentar salvar sua dignidade

cometerá um ato baixo,
pois sua compensação
de equilíbrio é uma farsa,
e no egoísmo se dispersa.

E assim assistiremos
um espetáculo tão vil
quanto a agressão fabril

enquanto esquecemos
que tal horrível ardil,
cego, nada de alma viu.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Harmonia

Por que será que negamos
à vida a sua razão de ser
sem sequer se arrepender
da crueldade que fazemos?

É mais fácil deixar se cegar
e viver o mundo de sonhos
que fazer o que proponho:
abrir os olhos para acordar

e ver que o mundo é um só
dele você também faz parte
ainda não dá para ir à Marte

então não deixe tudo virar pó
da natureza não mais se afaste
viver em harmonia que é a arte.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Para pensar

Pássaro é seu pensamento
que voa livre sem te deixar,
na cabeça tem seu leito,
mas vida de pássaro é voar.

Não importa como ele voou,
voou para longe da gaiola...
O pássaro te abandonou,
cansou de contar as horas:

Quando você abriu o portão,
ele bateu asas
e lhe deixou penas.

É letra de canção
à pena e nanquim,
bate asas um poema.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Sofrer + prazer = viver

Tem horas que é o desespero
que sinto nesse louco mundo
de seguir nas ideias a fundo
e nas vontades que eu quero;

tem hora que é só uma sede
de poder viver e não morrer
e o fim disso tudo não ver
e assim a tal vida se mede;

sei que o desejo não tem fim
e também não atinge só a mim
mas também a todos vocês,

sei que a dor sempre virá
e só quem viver aqui verá
a dicotomia que nos fez.

terça-feira, 11 de março de 2014

Daqui de cima, todos são formigas

Todos os dias, vejo
pessoas formigas
em seus ensejos
por algo que liga

do ponto B ao A
ao invés de brigar,
o que a levará
a nenhum lugar.

Prédios formigueiros,
onde as servis
trabalham dias inteiros

obedecendo a rainha
e líderes vis
que as mantém na linha.

terça-feira, 4 de março de 2014

Desculpa de Carnaval

Numa terça-feira de carnaval,
pensei, toquei e cantei rimas,
eu ainda não via nada mal
nem na quarta-feira de cinzas.

Mas o fim do feriado chega
como quem diz "sai de cima",
acorda cedo na quinta-feira,
mas não se esquece da rima.

"Porque viver para trabalhar
não é trabalhar para viver.
O mundo girou quando parei

e isso prova que descansar
não é ruim como dizem ser.
Por que trabalhar? Não sei..."

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Soneto do tempo incontrolável

Escorrega entre meus dedos,
entre tantos outros medos,
aquele de te perder,
mas não consigo te segurar.

Quando penso nisso, percebo
que já passou, e agora bebo
tentando entender
o que não posso remediar.

Cada segundo me dói,
cada minuto me corrói
e não tem como voltar,

porque é algo inventado
e nada será poupado
quando você se acabar.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Pessoas (simulacros) em coma profundo

I

Como se esquecem, essas pessoas,
da dor alheia e o gemido que soa
como o grito da turba que povoa
a praça pública em manifestação?

Perdidos nas suas simples vidas
que passam tão desapercebidas
e são totalmente desperdiçadas
sem sequer formular uma questão,

essas "pessoas na sala de jantar"
não querem saber o que melhorar
e como podemos mudar o mundo...

E enquanto você finge que não vê,
existe alguém que morre por você
e seu direito ao coma profundo.

--

II

Pessoas não são mais,
apenas simulacros;
humanos fracos.

Nem parecem reais
de tão loucos.
Humanos são poucos.

Seres e mentes artificiais
que se alienam
e disso gostam.

Seus destinos fatais
são os mesmos;
e andam a esmo.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Soneto de abolição e libertação

Meu sobrenome não traduz o que sou.
Sua longa história não me diz onde vou.
Meu nome não mostra o que viverei,
não simboliza nem diz por onde passei.

Minha história é minha, eu que criei.
Cada mágoa e cada sina que vivi
e cada alegria viva que experimentei
não são da família em que nasci.

Então vou abolir essa escravidão
e me libertar desse amargo grilhão
que insiste em me prender.

Ninguém, senão eu, me conhece.
Nada dessa servidão me apetece.
Eu não nasci para obedecer.

Crianças

Como crianças são sublimes
e ao mesmo tempo assustam
o adulto, sempre certo e firme.
E com sua astúcia, nos mudam.

E crianças que somos, enfim,
rimos da risada desses bebês
que são o começo, meio e fim
de algo novo que não se prevê.

Minhas crianças nascerão nuas
e viverão livres como vierem
ao mundo, soltas como a lua,

e se tentarem um dia, molda-las,
tenham cuidado, se preparem,
pois estarei lá para defende-las.

--

Minhas crianças serão educadas com responsabilidade e liberdade, que são lados de uma mesma moeda. Vou fazer diferente do que fizeram comigo.