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sexta-feira, 17 de julho de 2020

Túmulo Diário

Tem dia que a cama
me parece túmulo.
O corpo inerte
só existe,
não vive.
A alma se cala
em afasia
e a vida não resiste
esse acúmulo
de melancolia.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Verbo Acabar

Se há retorno
então o fim não chegou,
foi apenas um intervalo
de um ciclo
ainda não circunscrito,
onde as pontas
não se encontraram
para completar o círculo.

O que deve acabar
não deve ter retorno,
pois o verbo é claro
em seu significado:
algo que acabou
tem seu ciclo completo.
Bom ou não, se completou.

sábado, 27 de junho de 2020

Contagem

A contagem do tempo,
num breve momento,
se tornou fútil.

Parece inútil
numerar todos os dias
que completam o mês...

...senão pela sutil
arte de criar memória,
algo tão humano
quanto os nossos hábitos
de contar nossas histórias.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Metamorfose Humana

Ao passar dos dias
notei as mudanças
que achava ocultas,

dos fios do cabelo
à textura da pele,

de corpo inteiro
ao que se espere

do envelhecimento,
rumo aos quarenta.

E até me espanto
que estou gostando.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Instinto

Ataco a página em branco!
Com fortes solavancos
e perpetuo meu pensamento,
como tinta de tatuagem
marcando a pele
onde a agulha desfere,
à lá canetas e texto
em papel; pele; miragem;
pois o pensamento pinta
imagens onde me sinta
em mundo de devaneios,
sonhos, delírios, imaginação,
assim como os poemas
que nunca obedecerão sistemas,
pois emoções e anseios
atacam a folha sem perdão.
É apenas o instinto
imprevisível, mas sinto.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

sexta-feira, 29 de maio de 2015

(Quase 60 anos de) Amor selado numa agulha

A carta me rasgou,
irrompeu cada pingo
de lágrima que chorei,
pensei que parou
meu coração: é lindo
e triste o ato que admirei.

O amor de vocês, eterno,
me matou um pouco mais
vocês passaram pelo inferno
sem se abalarem, jamais.
E com a morte, essa injeção
letal de realidade dura,
puderam deixar juntos e sãos
essa vida de loucuras.

Se há vida após a morte,
não importa pois, com sorte,
ainda vivem na história,
não serão apagados da memória.
Se suicídio é condenável,
não serei eu o acusador,
pois este ato mútuo, (diriam) "execrável",
a mim é obra de mais puro amor.

--
Homenagem a Gerhart Hirsche e Doreen Keir, conhecidos mundialmente como André e Dorine Gorz.
"Carta a D." é um dos livros mais lindos que li sobre amor.

Mal de Nin(fa)

Ao contrário de muitos males e doenças,
Parkinson, Lou Gehrig, Alzheimer,
o mal de Nin vem de nascença
nos acompanhando durante todo o viver.

Anaïs dizia que era uma febre,
mas a ninfa esquece que é tesão
sua verdadeira doença, seu vício,
e atinge todas as camadas sociais
do rico ao assalariado, até a plebe;
sabe que é tal estímulo, tensão,
que nos leva ao fundo do precipício
do que seguimos como regras morais.

Essa doença é a mais normal,
nem sei se podemos chamá-la de "mal"
ao mesmo passo que nos faz felizes
enquanto a moral fica com cicatrizes
de algo que nos foi ensinado;
posse não é natural, é só medo.

Se sentir atração, se envolver,
se deixar levar é considerado ruim
então nossos animais estão doentes
e nem por isso fazemos sacrifícios,
nem por isso estamos aos suplícios,
rogando por perdão, evitando o fim
da prisão que não deixa contente
nem deixa triste a maioria a correr
de um lado para o outro sem pensar
se vivemos mesmo.
Pessoas devem se perguntar
se não é apenas tesão, a esmo.

Então batizo o tesão como "Mal de Nin"
e tenho plena convicção que, enfim,
o tesão existe e persiste sem amor
e, se não houver cuidado, pode causar dor,
pois já passamos séculos, milênios a fio,
e ainda estamos a aprender segurar o cio.

E é difícil, pois é um mal que nos faz tão bem...
...é o mal que um dia nos fez "alguém".

segunda-feira, 11 de maio de 2015

P(r)o(bl)ema

Escrever poesia é um problema
um tanto matemático
onde é citado um dilema
em pés de um verso métrico

pensado para conduzir
a leitura com rítmica;
é como se estivesse a ouvir
a letra de uma música

que nesse caso é um soneto
com oito pés, cheio de espetos
que vou aparando com meta:

chegar na tal chave-de-ouro
que do poema é o tal tesouro
buscado por qualquer poeta.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

POI3SIS V1TA

Sei que seria, sim, poesia:
(I) ato de sexo que nos cria
(II) fama da heroica fantasia
(III) gerar virtuosa sabedoria

É o desejo de ser imortal
que fazemos de razão poética,
e a poiesis da vida trivial
é o que temos como métrica.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Jornais banais

O que seria dos jornais
se não tivessem animais
que compram verdades
ditas com tanto alarde?

As verdadeiras opiniões
polarizam nossas ações
e esquecemos dos fatos
por um punhado de fotos

que manipulam o pensar
pela imagem, ao retratar
e deixar fora de contexto
até discurso de protesto.

Resta-me saber se ética
agora depende da ótica
e se o molde nos serve
enquanto o mundo ferve.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Poetizar...

Para poetizar
não é necessário
rimar,
nem o contrário,
mas é na rima
que, azul, céu
vira mar acima
e, num tropel,
inunda a mente
de quem sente
a alegria
de escrever
e se entreter
na poesia.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Uma incerteza

São tantas profecias

que nos contam
que fica a impressão
da vida ser fantasia,
já não se sabe
se será realidade
ou pura imaginação
velhos momentos

e os ventos
que virão.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

terça-feira, 17 de junho de 2014

Sobre escrever poesia

Sei que ainda devo escrever poesia...
na escola o "dever" não me aprazia,
até o dia em que percebi: ainda escrevo
por querer, não o fiz porque devia.

--

Porque fazer as coisas forçado é o fim da picada. ;)