Por si só,
a vida se prova
um acidente.
É numa colisão
que se cria
o que ainda
não havia,
um embrião
de gente.
Você será
o que pode ser
e, na sova
que a vida dá,
só resta viver
até o dia
de morrer.
No fim,
quem escolhe
o que fazer
é você.
A reforma pessoal
é um processo incômodo
pelo qual a maioria de nós
não quer passar.
Faz parte da inércia humana
estacionar no lamaçal,
se jogar no que é cômodo
e até recolher a sua voz
para se preservar
na condição mundana.
Há muito estava engasgado,
caroço de sentimento,
berro de rebento,
espinho atravessado
no fundo da garganta.
A água escorreu na cabeça;
outra, ao mesmo tempo,
marejou de sal a vista
e encheu de fel a boca.
O choro veio lento.
A voz que não queria sair
foi expulsa do corpo
porque certas coisas
não são ditas,
mas as coisas certas -
realmente necessárias -
são sempre expressadas.
Não era nossa vontade.
Não...não mesmo.
Pela maioria,
tudo ficaria
da maneira que estava,
em que a maioria achava
que o meio de vida
que tínhamos até então
era imutável e nada,
NADA diferente
seria possível.
Qualquer mudança
seria em vão.
Veio a pandemia
e, de repente, tudo virou
de pernas para o ar.
Pasmem!
O que não era possível
passou a vigorar,
a economia parou
e o povo se recolheu.
Séculos de condicionamento
jogados para o alto...
Realmente, toda mudança
depende de um pouco de vontade,
só que nossa triste realidade
implica na insistência
de viver num organismo
falho de convivência
entre todos nós.
Talvez vivemos até hoje
mas não convivemos
nunca.
Engraçado,
se não mudamos,
nem tentamos,
vem o mundo
e nos muda,
afinal, ele não pode parar.
Já não recordo
o início dessa loucura.
Perdi as contas
dos sentimentos
entre amor e fúria -
essas duas pontas
de um fino barbante
trançado
que seguram tormentas
dentro de cada um de nós -
passando dentro de mim
num círculo vicioso,
um movimento sem fim.