domingo, 12 de novembro de 2017

Calejamento

Me disse que não queria
calejar seu coração
como faço em minha vida...

...acho que nunca vou calejar,
mesmo com intenção,
o órgão que não quer fechar

portas e feridas...

O órgão que bombeia
ao mesmo tempo que sangra.
O amor que me permeia
e, no entanto, aqui me faz falta.

...acho que nunca conseguirei calejar
esse órgão
chamado coração,
muito menos cicatrizar suas feridas...

A que mais sangra é do seu corte
sobre o que era nossa relação.
Sem sorte, a ferida não fecha
e, sem cicatriz, ainda sangra
esse meu maltrapilho coração.

Madrugada

São quase duas da madrugada
de sábado para domingo
e estou lidando aqui comigo,
com minha solidão.
Já que a vida me falta em razão,
penso, em meio a noite enfeitada

de lantejoulas brilhantes
deste firmamento-abismo,
que esse céu escuro
é o fim que procuro,
sem luz, sem som, um vácuo. Cismo,
que no fim há quem se deleite,

como eu, com o fato
de que na morte
de um astro, brilhe,
uma estrela, um filho
de uma explosão forte,
que é como todo ser humano,
vive por um "breve" momento insano,
mas veio ao mundo meio natimorto.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Yasamin

Eu ainda moro na mesma rua.
Tenho na frente o mesmo jardim
e ainda toco as flores nuas,
sinto a pele, pétala de Jasmim

Fui, tempos atrás, jardineiro,
e lhe fiz brotar amor no outono inteiro...
Em tempos atrás eu cuidei,
reguei e zelei, obedecendo sua lei.

Continuo a cultivar flores de Jasmim,
daquelas que exalam seu perfume
e trazem de volta memórias para mim...

...de que em 4 estações fui teu jardineiro,
servi com carinho este costume
e te vi florecer durante um ano inteiro.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Incerto

Todos
os caminhos certos
tem seus atalhos,
como atos falhos
que após feitos
são escondidos.

Deixo feito de secreto
um novo atalho enfim,
de início encoberto;
somente no fim
deixará de ser incerto.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Convocação

Conclamo
o céu da noite,
o céu de anil;
cio e coito;
o céu de abril
e seu outono de morte.

Conclamo
o firmamento
dum verão
árido e sem vento,
tal sertão
nos matando, lento.

Conclamo
a noite e o céu
estrelado,
que se faz véu
abrilhantado
nos dentes seus.

Conclamo
o céu de sua boca
com minha língua,
que quando te toca,
seu pudor míngua
e o tesão me enforca.

Pois conclamo
assim um prazer,
que é terreno
fértil para viver -
agitado e sereno -
e enfim, morrer.

Dedicado

Devido a abusos,
não tenho mais disponibilidade
para os outros.
Sei que parece maldade,
mas resolvi me dedicar
somente - e sem me matar -
a mim.

Dediquei corpo
alma, amor, suor e lágrimas
e me senti morto,
pois vivi morto, que lástima.

Enfim...

...vivi para todos,
sem entender
que deixara de viver
em mim.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Poema Canhoto

Quem diria,
eu, destro de mão,
mas anarquista de mente e coração,
estou fazendo poema
canhoto,
um problema
canhestro.

Não que eu tenha algo com o tinhoso,
mas não ligo para a (falta de) ideologia liberal.
Acho que estamos destinados a nos esquerdar...
...ao invés de "se endireitar
na vida".

Afinal, todo mundo é um pouco legal
com o próximo, mesmo este sendo um liberal
cuzão, egoísta no nível social.

Cansei minha mão, canhota, canhestra, esquerda, tá até vermelha.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Nudez

Poderia ficar nu
- como tantas vezes fiz
e apareci para outros corpos -

torso, dorso, cu,
pele, membros, pênis,
pelos, nu sem muito esforço.

Talvez diria que me despi
de cada pedaço do meu ego
ao estar nu em corpo e pelo,
mas só me senti despido
- e despudorado -
nas vezes que aqui,
nesse papel escrito,
tenho a alma lavado.

Apenas no poema é que fico nu.

domingo, 17 de setembro de 2017

Apegos e desejos

Quem quer todo o mundo
se depara com o universo
e percebe algo profundo:
sua vontade nunca terá sucesso.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Autodepreciação

Sendo grão-mestre
em autodepreciação,
posso dizer
que excedi a cota:

me senti, mais que mal,
pior que merda,
uma bosta

~f~é~t~i~d~a~.~

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Flautista Cansado

Daí pensei - exausto - depois
da quinquagésima repetição
duma mesma canção,
que preciso de férias
dessa mesma pauta.

Dizem que é fácil,
mas cansa levar a vida na flauta...

sábado, 12 de agosto de 2017

Feudalismo Pós Moderno

Vivemos um colapso no espaço-tempo.
É verdade, nada que aqui digo invento:

Neonazistas marchando em plena luz do dia;
O (f)(r)acismo comendo solto na Ucrânia;

O neoliberalismo entrando de sola na América Latina;
Indígenas perdendo suas terras e suas vidas;

Os direitos trabalhistas sumindo;
A direita elitista abocanhando o mundo;

Você tomando no cu virando escravo, moderno;
do seu senhor de engenho, também moderno.

E tem pão e circo: Amanhã tem Game of Thrones...

Tá tudo normal...
Nada velho, nem novo. Só atual.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Tristes ufanistas

No "diz
que me disse"
da pornopolítica
brazuca,

é bazuca
a língua bélica
que diz amavisse
um "país".

Mas e esse silêncio
de conformismo?

...ou será de vergonha?

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Desejo e realidade

Gostaria de escrever
como se estivesse cheio
de sentimentos
e motivos;

não que tenha falta deles,
apenas me falta vontade...

...às vezes poesia depende de mais do que necessidade...

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Divisor

Devo à vida
ou ela me deve?
Essa cobrança indevida,
ao que me parece,
padece de fundamento,
não importando
de quem é tal dívida.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Processual

Me senti Josef K.,
mais uma vez
entre umas tantas -
na verdade,
a vida toda.

Não pude mais ficar
sofrendo crises
de ansiedade
num cai e levanta,
um gira-roda.

A vida é um processo
e se dá em processos.
Parece um processo.

Processo?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Chiste

Queria estar debaixo das árvores dos meus pensamentos
colhendo os frutos, sem pesares, de seus conhecimentos.

Queria ser um ser independente de qualquer ser alheio
que em, zero, nenhum instante, me houvesse um arreio.

Mas ao observar essa natureza entendi que estava cego,
pois como homem que se preza, prioriza seu surdo ego.

Não posso continuar negando que o universo coexiste,
não quero religião me usando, já me basta esse chiste.

terça-feira, 18 de abril de 2017

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Virtude?

Uma quase crise de abstinência
fez com que voltasse à escrita
que um dia sonhei ser como lírica,
mas reconheço cáustica e aflita -
momento em que destilo a essência

de cada palavra sentida
de cada letra despida
em alma, em poesia.

Loucuras de uma crise de abstinência -
quase, como disse anteriormente -
nada que me mostrem sem lentes
de aumento para entender a gravidade

do meu vício de poesia,
dessa minha obsessão,
louca necessidade.

terça-feira, 21 de março de 2017

Apo(ca)lí(p)ticos

Vide
a hipocrisia
da burguesia:

perfume francês
não disfarça
chorume reaça
do burguês...

...ele ainda fede.

Embrute-sen-cimento

Silenciaram o cotidiano
ao ponto da apatia
duma avenida barulhenta
fazer ouvir o emudecimento
de nossas bocas.

Mas, quem diria?

Os olhares ainda falam,
gritam, choram e,
embrutecidos pelo mundo,
se mostram entre o insano
e o são: o limiar
derradeiro do equilíbrio

falso de um surto,
de corpo e mente,
onde se faz o cotidiano.

terça-feira, 14 de março de 2017

Ego-coleção

Há muito a coleção não se aumenta,
seja pelo materialismo,
que perdeu seu sentido;
seja pelo colecionismo
egoísta que, varrido,
perdeu sua essência.

Passa-se a contar com a memória
e com toda transmissão,
acima de qualquer apego
que impeça, aos que vão
e aos que vêm, o ensejo
à cultura que se reinventa.