terça-feira, 25 de março de 2014

Tempo seco no formigueiro com ar condicionado (...ou Mandinga de Formiga)

Olha, formiga,
sei que também derrete
e já faz até figa,
liberou até o cacoete
e faz mandinga
para que a chuva desperte,

pois, pessoa, formiga
árvore, seja o que for,
nesse tempo louco periga
passar frio e calor
simultaneamente,
desesperadamente.

Com AC, o formigueiro
está chamando
a chuva, dançando.

É certeiro:
O céu estava limpo,
e agora, cheio de nuvens.
Essa dança, que muda o tempo,
faz chover, e todos fogem.

Então formiga,
por favor, pare com mandinga,
se visse as coisas daqui de cima
pensaria melhor em suas cismas
com o clima.

Não adianta reclamar,
muito menos vociferar
ou bater o pé:

aceite a natureza como ela é.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Oração de Refeição de Pessoa Formiga (Ou... “Haikão de Dois”)

Formigão abençoa,
meu formigueiro e, onde for,
não nos falte a broa.

Não quero isopor,
não. Pois bem, um baião de dois.
Amém, com amor.

-Formiga-

-
Poema: Ernesto Gennari Neto

terça-feira, 18 de março de 2014

Uma pessoa formiga resolveu pensar...

"Pessoas formigas andando
nos seus dia-a-dias
mais do que normais...

Será que andam pensando
No que haveria
Depois da vida ou algo mais?

Pés após pés, atravessando
ruas e grandes galerias
atrás de mudanças reais

que por aí estão buscando,
mas este formigueiro-ilha
não muda, jamais.

Há pessoas acreditando
que alguém lhes faria
a vida melhorar demais,

como um formigão falando
que um livro que lia
separa legais e ilegais.

Mas que formiga humilde,
como eu, entende de leis
ou de vida?

Melhor trabalhar amiúde
e não ser fora-da-lei
por qualquer coisa lida...

Afinal, formiga que pensa, incomoda.
Formiga que cutuca, é esmagada.
E não estou afim de chinelada."

--
Poema: Ernesto Gennari Neto

terça-feira, 11 de março de 2014

Daqui de cima, todos são formigas

Todos os dias, vejo
pessoas formigas
em seus ensejos
por algo que liga

do ponto B ao A
ao invés de brigar,
o que a levará
a nenhum lugar.

Prédios formigueiros,
onde as servis
trabalham dias inteiros

obedecendo a rainha
e líderes vis
que as mantém na linha.

terça-feira, 4 de março de 2014

Desculpa de Carnaval

Numa terça-feira de carnaval,
pensei, toquei e cantei rimas,
eu ainda não via nada mal
nem na quarta-feira de cinzas.

Mas o fim do feriado chega
como quem diz "sai de cima",
acorda cedo na quinta-feira,
mas não se esquece da rima.

"Porque viver para trabalhar
não é trabalhar para viver.
O mundo girou quando parei

e isso prova que descansar
não é ruim como dizem ser.
Por que trabalhar? Não sei..."

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Vida absurda

Seria tudo um absurdo?
A vida, a morte,
o azar e a sorte
frutos de mero acaso?

Me perdoe se perturbo
sua mente, sua paz,
mas a vida se desfaz,
por aí, em cada passo.

Talvez já se perguntou
da vida qual é o sentido,
mas será que sentiu
que há algo a ser vivido?

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"Pornopolítica"

A "pornopolítica"
e um tanto mística,
pode virar vício,
ocupando seu ócio
e até sua memória,
nisso você esquece
sua vida e história
enquanto faz prece
para quem governa,
para quem te interna.

Este antigo fenômeno
poderia, pelo menos,
fazer algo de útil,
não passar o fútil
adiante às gerações
futuras e presentes
ao longo de verões
e invernos de mentes

por brigas sem estribeiras,
tal qual Corinthians e Palmeiras.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Soneto do tempo incontrolável

Escorrega entre meus dedos,
entre tantos outros medos,
aquele de te perder,
mas não consigo te segurar.

Quando penso nisso, percebo
que já passou, e agora bebo
tentando entender
o que não posso remediar.

Cada segundo me dói,
cada minuto me corrói
e não tem como voltar,

porque é algo inventado
e nada será poupado
quando você se acabar.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

EXTRA: Fodas chuvosas

Arma a chuva

e uma vulva
encharcada
está roxa
como uva
colhida
madura.
A boceta muda
não fala
mas se expressa
ao falo
e à língua,
e não gosta
de pressa,
sem calma
a alma
não se interessa
por sexo,
versos sem nexo
nada complexos,
eu e você:
côncavo e convexo;
e a chuva
cai lá fora,
céu roxo
escuro,
sem muros,
escrevo nosso furo:
fodas
nas noites chuvosas
afora.

Cobras

Sem sombras,
fico com sobras
de minhas obras
sem brio,
e, sobriom,
sinto as cobras
que me cobram,
me esmagam,
me dobram
em dois,
três,
depois
desfez.
Apaguei.
Cansei.
Me neguei.
Acabei
envenenando
este poema:
o matei.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ventos Virão (em 3 partes)

I:

O vento a soprou
para longe
pois não aguentou
segurar onde
sempre segurou;
num farfalhar
o caule a soltou,
uma folha a voar;
um galho quebrou
e caiu de seu lar.
Os ventos vem e vão
sem sequer pensar
em quem afetarão
e podem quebrar
tronco e espigão...
...Sem distinção.

--

II:

Se você é vento,
não seja um tufão,
sem dó ou direção,
seja como brisa,
que passa lisa
aliviando a contento.

--

III:

Sim, ventos virão,
comuns, e alguns são bons,
outros, talvez não.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

"Miragem (sem terra à vista)"

Imagem passando ao largo
da margem do copo amargo,
silhueta sua,
tua carne nua.

O sal de seu suor na língua
desfaz o mal que já míngua
no seu gemido
bemol e sustenido...

Todo dia desenho e apago
na sua pele, com afagos
e carinhos,
seus caminhos

cheio de curvas sinuosas
nessa paisagem tortuosa
de seu corpo,
dos mares, porto

que está no meu mapa.
Escrevo sem as papas
sobre o X
que ali fiz

para marcar o tesouro,
que tenho num estouro,
de tão precioso
e tão gostoso

quanto fazer essa analogia
ao mar e à cartografia,
apologia ao sexo
e amor sem preço.

Vendo o copo de bebida
miro seu corpo de tulipa,
mas estou sozinho
e bêbado de vinho.

Penso, então:

Tem tanto mar além de você,
mas só sua miragem me vê.
E nela nos vejo,
lhe desejo...

--

Mais um poema para o projeto Curare.
Dessa vez explorando mais o imaginário e usando formas não estruturadas de versos e métricas, mas organizado em estrofes similares.

--

Para a miragem.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Contagem regressiva para 30: 9 [Parte 2]

Gritou me cedo: "NOVE! NOVE!"
Me confundi, era muito mais suave,
dizia algo como "Vê se move.",
cedo no escuro, mas com voz leve.

Seria sonho ou pesadelo? Não sei.
Devaneio não tem modelo.

No banho o chuveiro chove
deixo que a água me lave
e deixo que a voz trove
uma música que comove.

Seria apenas um banho, mas sei
que ainda estou estranho.

Será que, como nove vira noventa,
eu passo inteiro pelos sessenta?
Mas estou prestes a fazer trinta,
e peço, lhe imploro, que minta.

Data-me dezenove. Já sei
que tenho vinte e nove.

Dias? Faltam apenas nove.
Então lhe peço que prove
minha alma e carne. Me leve
antes que alguém me desove.

Pois quero que me sinta. Só sei
disso agora, prestes aos trinta.

E às dezenove, antes das nove
na noite de hoje, estarei leve
mas depois me soque, me sove
e se puder, me escove.

Que os trinta tragam novas tintas,
pois as velhas, a velhice remove.

Senão me faça esquecer de trinta,
nove ou vinte e nove.

--

My love.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Contagem regressiva para 30: 10 [Parte 1]

De dez em dez
tanto fez que fez
chegou aos trinta.
Olha que drama...
melhor, sinta.
Não há dama
que não teme
e não treme
quando vê a data.
Parece trama,
de um homem
que não se mata
mas ali também
percebe, se sente
mais perto da morte.
"Mas é só trinta",
não me minta,
sei que mais novo
não ficarei.
Meu cabelo cai,
cabeça vira ovo
careca serei
e a vida vai...
sem me perguntar...
sem sequer chamar...

Nesses trinta
risquei tanto giz
nesse caminho que fiz,
que de dez em dez,
já perdi a conta;
já perdi a ponta;
já fiquei do contra;
já aguentei afronta;
já xinguei de "lontra";
já vi quem monta;
quem desmonta;
montes, morros
e ventos cortantes,
mortes, serras,
instantes inebriantes.
E no entanto
me pego sem pranto,
um tanto enxuto,
surpreso: num canto
vejo, debaixo dos panos
do monte que se fez,
que estou à dez
dias dos trinta anos.

--

Estou tentando entender meu lugar nesse mundo, na vida dos outros, na minha própria.
2013 foi um ano importante, no entanto, não gostaria que se repetisse. Muito sofrimento para um ano só.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Verwirrung

o ciclo da confusão chegou
assim me arrebatou
sem bater na porta
sem sequer pedir licença
uma balbúrdia um tanto torta
me traz sua presença
tanto que, se você ler estes versos
de forma reta ou alternada
verá sentidos dispersos
que dizem tudo ou nada



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Independência Nadadora

Observo gritar

nesse mar
os náufragos
com água e sal
lhes fazendo mal
até o esôfago.

Uns disputando
a tapas um pau
outros afogando
sem ver uma nau
sequer...

Pelo menos nado
não sinto medo,
nem da morte
pois ela é
a minha sorte.

Quem aprende
a ser independente
não depende
que alguém
o lamente.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

"Livro e Circo", me livre!

Pretendo um dia
lançar minha poesia
em livro,
aí dessa frustração
já me livro,
porque num país onde
Lobão
é um dos
mais vendidos
da lista,
'ex-comunista'
e agora atira
de colunista,¹
no país de onde
Sarney
é romancista
e um 'eterno'
na academia
(está lá, confira)²,
já não sei
se meu céu-inferno,
minha poesia,
não seria uma melhoria
porque, como já dizia
o palhaço Tiririca,
"pior do que tá não fica".³

QUE CIRCO!
¬¬

--

¹ - Lobão, antigo esquerdista, agora "neocon", tem seu livro na lista dos mais vendidos e é colunista da VEJA, argumentando da maneira que sabe, com ofensas, falácias e pouco conteúdo relevante; além de proporcionar um desserviço à classe artística, também presta um desserviço à sociedade, mente em rede pública falando que é o primeiro artista independente do Brasil, quando de fato ele está mais de 10 anos atrasado em sua colocação, mente em rede pública quando emite sua opinião política, apenas causa polêmica para fazer sua auto-promoção enquanto, como artista, é medíocre: os fatos não mentem.

² - O termo correto na Academia Brasileira de Letras é "imortal", termo que condiz com sua carreira política no governo, pois é eterno senador, coronel do estado do Maranhão e presta um desserviço à classe literária do país, já foi criticado de maneira contundente por Paulo Francis (que se tornou conservador mais tarde) e Millôr Fernandes que destituiram de qualquer moral este distinto corrupto aproveitador.

³ - Lema da campanha política deste artista circense/deputado federal nas eleições de 2010, onde foi o deputado mais votado da história do país, que por "increça que parível" [SIC], foi um dos nove deputados com 100% de presença no congresso, sofreu preconceito por ser analfabeto, contribuiu para causa de sua classe artística, pisou no tomate ao votar errado algumas pautas por "confundir-se com o painel", dizem por aí que também votou contra o 13° salário (não posso confirmar), e ainda foi realista ao dizer sobre o congresso que "Você passa o dia inteiro fazendo nada, só esperando para votar alguma coisa enquanto as pessoas discutem e discutem...", é, "pior que tá não fica" mesmo.

--

Minha opinião:

Não apoio político algum, acredito que um mundo melhor é um mundo de consciência, ética, respeito, sem distinção de poder entre pares e sem qualquer espécie de governo. Um mundo melhor onde dinheiro, ostentação e ganância não são pautas de vida.

Se você vota, você escolhe ser escravo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um papel e um celular

Um simples papel
aceita do doce mel
ao amargo do fel;
rima do inferno
até prosa do céu;
não é eterno,
mas vive
enquanto durar
e também cuidar.
Nele se escreve,
porém, hoje estive,
sem problemas,
a dedilhar
meus poemas
no celular.

Há de convir

Há de convir,
que entre ir
e vir,
resistir
e desistir,
latir
e pedir,
decidir
e confundir,
há o que ouvir.

Há o que sentir.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Escapismos = Panaceia?

Assim passava o dia,
sem perceber enquanto lia
qualquer porcaria no jornal.
Via que a inércia não movimenta
e não ajuda quem experimenta
o que dizem fazer mal.
Mas, afinal, cada um encontra
seu próprio escapismo
e assim o enfrenta.
Desigual na maneira que usa,
mas de um eufemismo
particular em como abusa,
pois tudo pode ser droga:
Há aquele que joga,
aquele que bebe,
aquele que fuma,
aquele que lê,
aquele que escreve,
aquele que fala de você...
E de uma pluma
o vento muda
a direção;
e você, um dia,
sequer pensaria
que perderia
sua razão,
que também pode
ser a droga que fode
um amor, um irmão,
até um ideal de nação.
Não aceite moralismos
contra seus escapismos,
só use com moderação.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O que sou?

Já quis ser desenhista
e também um lutador,
tentei ser até jogador,
e cogitei ser jornalista,

mas entre tantos "istas"
e outros tantos "ors",
tudo que eu quis ser
passei a esquecer,

pois sou coisas mistas
e não apenas uma cor,
porque entre querer
e viver o seu real ser

há tanto a diferença
quanto se supõe ser
algo que venha a ver
ou se sinta por crença.

No fundo sou quem sou
ontem fui e hoje vou,
não bem onde quero
e menos ao que venero.

Sou minhas vontades,
o que gosto, música
e escrita, nessa busca
de minhas verdades.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Esse cão ancião e brincalhão

Pensei que você fosse morrer,
e no meio de tanta dor
no meu peito,
pensei muito no que fazer...

Só me restou lhe escrever
até a hora do aviso
de fora
de que nada vai lhe acometer.

Você, que me mostrou amor
verdadeiro e nada cobrou
do companheiro
que sente sempre seu calor.

E aqui me pego chorando
de felicidade, sem tristeza,
de verdade,
por você estar andando,

e mesmo com setenta e sete anos,
pulando como criança,
brincando,
e me faz lembrar que, entre humanos,

você é mais humano que nós,
animais selvagens
e também boçais.
E mesmo com os olhos de foz,

sei que minhas lágrimas são
instintivas, não controlo,
estão vivas
como você, meu querido cão. :)

--

Repito: Esse cãozinho, o Polo, é o ser mais humano que conheci nesse mundo cheio de animais selvagens que se dizem humanos.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Prantear

Não sinto
o recinto
tão lotado,
mas fatigado
e fustigado,
um tanto
mal tratado,
e sem espanto
não vejo santo
nem ser desalmado,
e mesmo quando
eu canto
no meu canto,
enquanto
me encanto
com um conto
já pronto,
me encontro,
no entanto,
rolando pranto.
Dá um desconto.

--

Estou feliz com esse poema, muito bom. Acho que o meu bloqueio se mostrou necessário, no fim das contas.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O amor e sua vida própria - Análise simples da história de Jesse e Celine (CONTÉM SPOILERS)



AVISO: CONTÉM SPOILERS

Esqueçam os contos de fadas e histórias de amor como você cansou de ver por aí. O melhor casal da história da 7ª arte, na minha humilde opinião, voltou e, como nos dois filmes anteriores, cheios de vida, questões, certezas, filosofias e, em meio a tudo isso, amor. Aquele amor que, como diria o Cazuza, "a gente inventa pra se distrair". Mas o que fazer quando esse amor é algo bem maior que o por ora inventado por puro desejo e paixão? Como saber quando uma pessoa se apaixona perdidamente por outra? Como saber se o amor é recíproco? No caso desses personagens criados pelo trio Richard Linklater (diretor - que teve a ideia a partir de uma experiência pessoal), Ethan Hawke e Julie Delpy (protagonistas), o amor sincero e irrestrito ainda é o elemento que se prova acima de qualquer banalidade. E a atuação com longos diálogos e poucos cortes de câmeras mostram como um texto e uma atuação bem feitas não precisam de muita edição, apenas simplicidade. Tenho que citar que a trilha sonora, usada esparsamente (em toda trilogia), apenas contribui, seja na poesia, seja nos sentimentos, transbordando mensagens sutis, sem cair para o exagero emocional, a pieguice do cinema americano tradicional. O amor se mostra com uma certa dose de devoção, adoração, mas não inconsequente e banal como um conto de fadas, mas sim palpável e inclusive minável, onde se mostra frágil e passível também de uma queda fatal. O roteiro pensado a três cérebros e escrito a seis mãos mostra um casal palpável, sem as reviravoltas fantásticas e imaginativas que a indústria do cinema adora nos enfiar goela abaixo. Não será o primeiro casal nesse estilo, mas ainda é um estilo raro de filme. Mas o que os torna mais um entre poucos, também os torna único entre todos: sua história. Uma trilogia com diálogos e personagens tão ricos que podemos passar horas conjecturando sobre não só seus filmes, mas seus diálogos, frases específicas e por aí vai. E ontem, finalmente, assisti o terceiro filme da história de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy): Before Midnight (Antes da Meia-noite - ambientado em 2012) que se passa 9 anos após o segundo filme, Before Sunset (Antes do Pôr-do-Sol - 2003), que também se passa 9 anos após o primeiro filme, Before Sunrise (Antes do Amanhecer - 1994). Se pensarmos que essa ordem constitui um dia com manhã, tarde e noite. Mas no ponto de vista deste que vos escreve, essa trilogia constitui muito mais que isso e pretendo dissecar toda minha interpretação, de forma breve, assim espero. Lembrando que o sentido que dou a essa história é algo pessoal, que criei após interpretar de acordo com meu ponto de vista, somente e nada mais, se discordar, ótimo, se concordar, ótimo também. Ok?
Já comecei dissecando sobre os títulos dos filmes, certo? Considero importante o aspecto de espaço e tempo nesta trilogia, pois se pensarmos a história do casal já atingiu a maioridade (18 anos) e agora está adulta, no terceiro filme. Encaremos o primeiro filme como o nascimento de um amor, uma criança (como de certa forma, "inventamos" nossos próprios filhos, é só decidir quando, ou correr o risco inconsequentemente - não muito diferente do amor, que também é inconsequente).
Então falemos rapidamente do primeiro filme, onde começa nossa história, Jesse (23, estadunidense, texano) e Celine (também com 23 anos, francesa, parisiense), se encontrando pela primeira vez em 94 num trem em Viena e experimentando uma paixão arrebatadora. Como histórias de amor mil nascem a torto e à direita em Hollywood, essa poderia ser só mais uma, mas considero o renascimento de um gênero tão explorado. A história se passa no período de menos de 24 horas, até o amanhecer seguinte, quando de certa forma o envolvimento dos personagens é visivelmente grande e, presumo, uma forma de amor nasce em meio a uma despedida que os separa por 9 anos. Nascer do sol, nascimento do amor, num verão na capital de um país que nasceu até que recentemente (1955 - Tratado do Estado Austríaco) em comparação com outros países. O nascer é o verbo recorrente. Os diálogos são fenomenais e detalham muito, em tão pouco tempo, as vidas individuais de Jesse e Celine, o que mostra a riqueza dos personagens. E nesse filme já é dado um enfoque real, adotado aos outros, pois o filme é praticamente os dois juntos, conversando e passando tempo juntos, um casal, nada muito diferente da vida real dos casais. Os assuntos (nos três filmes) são os mais variados, mas mostram como a personalidade de cada um é diferente em muitos aspectos e similares em outros e mesmo assim há aquele sentimento de unidade passado ao vê-los conversando e brincando um com o outro, seja sobre amor, vida, profissão, filosofia, sexo, morte, astros, etc. Temas abordados com a naturalidade de qualquer casal que tenha o costume de dialogar entre si. De repente passa-se o tempo como um furacão, amanhece em Viena e os dois acabam com uma despedida e uma promessa de voltarem a se encontrar no fim do ano. E nunca mais se mencionou algo por nove anos seguidos, não foi cogitada uma continuação, o filme ficou assim, no ar, com um gancho e nada mais.
Nove anos depois, numa livraria em Paris, Jesse está fazendo a última parada da divulgação de seu primeiro livro na Europa. Um livro sobre justamente aquele dia fatídico de 9 anos atrás. Só que o inesperado (deus ex machina) é o mote do segundo filme que, sozinho, já é um deus ex machina ambulante, afinal ninguém esperava uma continuação após nove anos. Celine aparece na sessão de autógrafos e Jesse fica surpreso, então começa outro longo passeio, só que dessa vez por Paris, uma cidade mais conhecida por luzes e consagração do amor, uma cidade adolescente, com um casal transbordando suas crises de certa forma juvenis enquanto tem 31 anos, já cheios de crises em suas vidas, e com visões mais pessimistas e aborrecentes [sic] em comparação com o primeiro filme, mais idealista, imaginativo, como uma criança. Comunicam-se com o público da mesma forma, dialogando sobre suas vidas que se passaram separadas por nove anos por dramas pessoais e reviravoltas que no fim são só citadas para criar o pano de fundo e enriquecer mais ainda a história dos dois. Tudo isso no mesmo formato, diálogos longos com pouquíssima edição. E agora com o tempo limite sendo o pôr-do-Sol (mais precisamente, o horário do vôo de volta aos Estados Unidos), mais contemplativo que o amanhecer que traz toda a energia que precisamos para aguentar um dia, aquele descanso pós trabalho, onde realmente refletimos sobre nossas vidas e tomamos as principais decisões, o fim de tarde onde Jesse resolveu que ficar com a mulher do livro de sua vida, decisão reforçado ao ouvi-la cantar uma valsa sobre o homem que lhe inspirou tal música, ele. Amor adolescente se confirma (e já se sustenta) por si próprio, por devoção singela ao criarem, ambos, algo um para o outro. No final, um gancho. Um gancho simples que torna qualquer excesso simplesmente banal, tão simples que prova que em meio a tanta complexidade no mundo, inclusive na vida dos dois, nem a vida, muito menos o amor precisam de ser complexos. O sol se pôs e o avião partiu, sem ele.
Mais nove anos se passaram e o amor atingiu a maioridade, e agora se vê na vida adulta, sem manual de instruções. O amor tem que sobreviver por suas próprias pernas. Jesse e Celine agora com 41 e com duas gêmeas de 7 anos estão na Grécia, mais precisamente no Peloponeso. A Grécia é o país mais antigo dos três filmes, e assim como meia-noite é o fim de um dia, ambos, espaço e tempo estão condizendo com a vida adulta do amor, que é a fase onde o amor passa por mais batalhas e tragédias do que nunca para se manter vivo e forte, como o próprio Peloponeso foi palco de diversas batalhas na antiguidade. O filme retrata Jesse e Celine já adultos tentando manter o relacionamento vivo em meio a crises palpáveis, como Jesse querendo estar mais presente na vida de seu filho e Celine querendo ser muito mais que a esposa de um escritor e desenvolver sua vida profissional de acordo com o que ela deseja, mas ambos não podem decidir nada sem pensar nas gêmeas. Em meio a diálogos longos, novamente com poucos takes, percebe-se que a vida adulta do amor é complicada e, mesmo na maioridade, o amor sofre crises de desvalorização, supervalorização, responsabilidade (afinal, é um impacto grande na vida adulta de qualquer um), etc. Nessas crises o próprio amor entre essas duas pessoas, consideradas e apresentadas como ideal até agora, é colocado em xeque. Será o amor capaz de acabar, assim como um dia qualquer acaba à meia-noite? Será que a velhice mata o amor? O deus ex machina aqui é Jesse, em face da possibilidade de perder Celine, dar o troco na discussão toda, dizendo que o conto de fadas não existe, e tudo que ele tem para oferecer é seu amor sincero e mais nada, não há fator externo, apenas ainda uma devoção a pessoa que ele ama, ao invés da pessoa que ele amou ou amará. Ele se faz presente, e ela também se faz, afinal, não é questão de guerra dos sexos, mas sim a questão de estar com quem você ama de verdade (seja uma, duas ou trinta pessoas), ser sincero consigo mesmo e com o seu par. A parte engraçada é saber que não é a primeira discussão séria dos dois ao ouvi-la dizer que toda vez que ele se despede do filho acaba por ter o humor alterado. Ou seja, tanto aconteceu na vida dos dois em três filmes e você, espectador, não precisou acompanhar uma novela de um trilhão de capítulos para absorver tanta informação. A riqueza dos diálogos desse filme é ímpar, justamente por dar tantos detalhes e ainda por cima quebrar a imagem de casal perfeito, pois até eles em suas imperfeições mostram que a vida não é perfeita, muito menos um relacionamento, nem mesmo o amor. Mas a perfeição é mostrar que, como Esparta fez, vale a pena lutar pelo que se ama. A parte mais interessante é ver como o que foi passado como certeza ao público, o casal do "feliz para sempre" do segundo filme, mostra que ainda tem muita lenha para queimar e muita história para contar, de maneira palpável, afinal poderia acontecer coisas similares na vida de qualquer um. Assim chega meia-noite, que mesmo sendo o fim de um dia, de acordo com o nosso sistema de contagem temporal, não é o fim de nada, Peloponeso e Grécia ainda existem mesmo após inúmeras guerras, conflitos, crises e tragédias clássicas da mitologia local, Jesse e Celine ainda se amam e a "vida do amor" continua até, quem sabe, sua velhice e morte. Vamos esperar mais nove anos e ver que acontece.
;)

O meu filme preferido? Os três, cada um a sua maneira. E arrisco a dizer que são, juntos, uma obra só que ainda não teve o seu final filmado. Talvez nem precise, talvez seja melhor encerrar assim. Afinal, quem sabe?

Talvez o amor tenha vida própria.

--

Obs.: Não escrevi nem 1/10 do que passou pela minha cabeça, senão esse texto viraria um ensaio completo e teria muito mais spoilers (sério, o que coloquei aqui não é nada demais, só assistindo para entender).
Obs. 2: A minha amada Clara ficou conversando horas comigo sobre esses filmes, que têm um lugar especial no meu coração, desde que assisti o primeiro na adolescência, e ela mesmo teve sua interpretação, um tanto diferente da minha, o que torna toda a experiência muito mais rica. :)
Obs. 3: Tem gente que diz não gostar de deus ex machina, para essas pessoas eu digo: não vivam. A vida inteira é cheia de deuses surgidos de máquinas, e a arte imita a vida que, por fim, volta a imitar a arte. É um ciclo inevitável.
Obs. 4: Assista aos três filmes!!! Reveja todos e comece a relacionar os diálogos, você vai se impressionar.
Obs. 5: Assista "Waking Life" como bonus!!!
Obs. 6: Assista "Cópia Fiel". Parei aqui. :)



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Haikai de Adão

Com tamanho afã,
Adão, sem qualquer noção,
come uma maçã.

-

Mal sabe que vai dar merda.