terça-feira, 24 de março de 2015

Sentir poesia

Pois é,
poesia
é uma coisa
engraçada,
poucos dão
atenção,
mas são
esses poucos
que sentem
algo,
enquanto
a maioria
nem faz
ideia
do bem
que faz
uma poesia.

Harmonia Funcional

De um maestro aprendi
que "a desigualdade nos une
ao mesmo passo
que a igualdade nos separa",
e daí, então, entendi
que a maldade é um perfume
no mesmo laço
que a bondade nos enforca.

Um não vive sem o outro,
pois a maldade de viver
nos é um fato tão neutro
quanto a bondade de morrer.

sexta-feira, 20 de março de 2015

A beleza da natureza...

...é, que quando chove,
goteja vida no solo
fértil, que ovula sobre
placas de pedra.

A areia logo absorve
a água em seu colo
e o dito adubo podre
dá vida à ajedra.

O vento sopra semente,
pólen e vida na terra,
e faz florescer o mundo.

Raízes, impunemente,
crescem, entre forras,
chão limpo ou imundo.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Tão normal que assuta

Tudo ainda me parece um tanto igual,
mesmo sendo um bocado diferente:
os mesmos dramas;
os mesmos sonhos;
essa verde grama;
no céu o sol risonho...
...uma epifania dos olhos à mente
me mostra essa vida tão (a)normal.

terça-feira, 17 de março de 2015

Andorinharquia

Não levanto bandeira,
pois nenhuma bandeira é minha
e, de qualquer maneira,
bandeira não tremula sozinha.

Já ouvi na rua e feiras
que verão não é uma andorinha
sozinha no céu, pioneira,
mas esta é, de si mesma, rainha.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Queda e ascensão crônica

Hoje, logo cedo,
correndo
antes do ônibus
me deixar,

levei um tropeço,
caindo
direto no chão
a me esperar,

mas num momento
fui ágil,
me amorteci,
de pernas para o ar.

É que de tantas
quedas
na vida(,) aprendi
a cair sem me machucar

e, sem um arranhão,
me pus
em pé para logo
ao ônibus adentrar

E a vida continuou...
Reclamar
é fácil, difícil é,
sem dar um pio,

cair e se levantar.

sexta-feira, 6 de março de 2015

C(h)u(r)va

Estranha é a curva
que o vento força leve
à queda da chuva.

Questões sobre religiões

Se deus é onipresente,
onisciente e onipotente,
por que nos faz tão
dementes?

Se a falta de deus
satisfaz o ateu
por que ele se mete
no que não é seu?

Se um deus não basta
o pagão ri e atesta
que os outros erram,
mas ainda se arrasta.


Acho muito engraçado o ateu
que critica quem crê em deus
e vice-e-versa...

não sei quem é mais religioso.

Se eu acredito em algo ou não,
não é da conta de ateu, pagão ou cristão,
já não basta vivermos juntos?
Tenho que compartilhar tudo,
o amor, o pensar, tudo em conjunto?

Oras!

Se sua religião, ateu, cristão ou pagão,
não te completa o suficiente,
não é me criticando ou convertendo
que você vai resolver seu problema.

Siga o que acredita, mas desista,
eu não quero te seguir,
já basta conviver comigo todo dia,
não preciso ficar a me mentir,

sei que não ligo para religiões
e que o tempo não me espera,
todos vocês me dão sermões
mas a vida passa como uma fera:

Rápida, selvagem e impiedosa,
como o tempo.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Cotidiano das pernas

Pernas correndo, em passos largos,
seus destinos corridos e amargos
de chegar num certo lugar e pensar
se é lá que realmente precisa estar...

quarta-feira, 4 de março de 2015

Jornais banais

O que seria dos jornais
se não tivessem animais
que compram verdades
ditas com tanto alarde?

As verdadeiras opiniões
polarizam nossas ações
e esquecemos dos fatos
por um punhado de fotos

que manipulam o pensar
pela imagem, ao retratar
e deixar fora de contexto
até discurso de protesto.

Resta-me saber se ética
agora depende da ótica
e se o molde nos serve
enquanto o mundo ferve.

terça-feira, 3 de março de 2015

Chorar sem rir

Motivos para sorrir nos faltam
enquanto para chorar sobram:
-intolerância religiosa;
-ignorância copiosa;
-guerras e matanças;
-esporte com desavenças;
-fome mundial;
-morte animal;
-alienação diária;
-piadas nada hilárias;
-sexismo manipulado;
-racismo ignorado;
-natureza estuprada;
-nossa vida desregrada;
-consumo excessivo;
-pacifismo é subversivo;
-ninguém quer plantar;
-todos querem colher;
-ver o fútil prosperar;
-não tem água para beber;
-pobreza de espírito;
-riqueza escravista;
-parcela elitista;
-o pobre esquecido;
-saber-se só um grão;
-um mundo sem perdão;
-etc...

E ainda me dizem que devo agradecer,
por ter emprego, dinheiro, comida na mesa,
lugar para morar...

Sempre me lembro disso tudo,
e muito mais, e pergunto:

"COMO?"

segunda-feira, 2 de março de 2015

Frágeis Para Sempre

Me reconhecer fraco
é ver-me, num abraço,
ocupar um espaço
e saber que, de fato,
é ali que pertenço.

Poderão me criticar,
mas quando soltas,
tais palavras no ar
ficam sem escoltas
do vento a soprar.

É assim que somos frágeis,
como frases numa ventania
se desmontando à revelia
da força que nos faz amáveis.

Frágeis seremos ao que é real,
pois nada aqui se conserva,
tudo muda e, se não observa,
sentirá dor até no que é natural.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Luz no inverno

Um lugar ao sol, no frio,
é ainda um lugar ao sol;
onde cada raio é um fio
que ilumina o dia em prol
de encher, à luz, um vazio.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ciclo infinito da vida

Ao mergulhar minha cabeça
na nascente do rio da vida,
sinto a água, um tanto fria,
fazer com que ideias esqueça.

Tudo parece um tanto animal
quando sorvo desse líquido
misturado à terra, mas límpido,
então sinto o instinto irracional

ao qual todo humano retorna:
este seu estado mais natural
em meio à tanta beleza.

Este é o ciclo da vida eterna:
é nascer e morrer; é trivial.
Assim funciona a natureza.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

À la Ivan Ilitch

No mundo moderno
todo ser é feio
e se sente meio
morto, meio eterno,

mas o choque real
de que é um animal
em auto detenção,
sem tomar uma ação

para deixar o vazio
de um viver tão frio
e banal, é uma doença

fatal que o atinge,
e não mais se finge,
apenas se reforça.

Aprendizado

Nunca o silêncio
foi, em essência,
o que me agradou,

mas quando penso
nas experiências
do que me passou

me sobra o bom senso
que me repensa
o que me silenciou,

pois este silêncio
vem da vivência
do que me ensinou:

"a quem mais ouve,
menos dor houve"
então me calou.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

(A)Travesso

Eu não sinto o movimento do universo
mas ele se move dentro de mim.

Sinto ligar algo que se move, enfim,
e num afã de progresso, vivo o reverso.

Seria uma reposta ou um processo inverso?

Um, não outro

Eu gostaria de dizer que a emoção
é uma putaria que de ti toma ação,
mas esta seria só uma perturbação,
senão haveria muito mais paixão.

Gente que se mente

Saber ser é diferente
pois ser é inerente,
do rico ao indigente,
só ver é ser...

...Indiferente.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Flauta Faceira (haiku trio)

Rouca madeira
mostra-se tanto destra,
louca e faceira

na quente feira
antiga; entre suas amigas,
faz brincadeira:

Frullato, sopra
fundo e vibra profundo
quem ouve a obra.

Numa nuvem de sonho

Daqui do alto
sinto o vento no rosto
enquanto vejo o horizonte;
por um momento, com gosto,
o barulho de baixo
o sopro de ar esconde.

Sinto o sabor da paz
no silêncio que o ar traz;
sento numa nuvem
de sonho,
e, me aconchegando,
a ouço dizer

que "o mundo é estranho
a tudo que é sereno,
de fronte ao azul
celeste, de norte a sul,
o infinito parece pequeno..."

...e o devaneio
se vai com o vento,
mas estou calmo.
O sonho que veio
se foi com o tempo.

Mas marcou a alma,
daqui do alto
à sete palmos

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Poetizar...

Para poetizar
não é necessário
rimar,
nem o contrário,
mas é na rima
que, azul, céu
vira mar acima
e, num tropel,
inunda a mente
de quem sente
a alegria
de escrever
e se entreter
na poesia.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Soneto de condenação

Se tem inferno abaixo
é para lá que todos irão
porque se a humanidade
tentar salvar sua dignidade

cometerá um ato baixo,
pois sua compensação
de equilíbrio é uma farsa,
e no egoísmo se dispersa.

E assim assistiremos
um espetáculo tão vil
quanto a agressão fabril

enquanto esquecemos
que tal horrível ardil,
cego, nada de alma viu.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Nuvens pesadas

As nuvens correm
como se tragadas
por correntezas...

...mas tão carregadas,
com estranha leveza,
no céu se movem.

Cotidiano humano atual

Acordar cedo,
sempre com medo
de perder o conforto,
não é viver, é fingir
ser vivo quando morto.

Você corre trabalhar
para produzir inutilidades
que vendem facilidades
enquanto criam dificuldades,
até quando vai agüentar?

E o dia vira mês,
mês se torna ano,
e sua esperada vez
ficou debaixo do pano

para alimentar a ilusão
de que a vida é isso:
só mais uma escravidão...
...e se finge um sorriso.

--

Distorci a forma do soneto. Foi proposital.