segunda-feira, 13 de março de 2017

Sobre um sonho

Sonhei contigo
e estou a pensar
se o meu sonhar
era vida ou ilusão,
onde os dois estão
num mesmo lugar.

Dissera escrever,
um fim de semana
inteiro, uma chama
queimando meu ser
para falso alívio.

Disse-me (e é mútuo)
que queria escrever comigo...

...Acordei e voltei ao meu castigo.

...mas ainda acho que me econtrei,
em sonho ou vida, contigo...

sexta-feira, 10 de março de 2017

Dolorida

A saúde parece ter se esquecido
que dela há a necessidade
para que se continue nesta vida,
pois há dor sem algo ocorrido
numa, até que jovem, idade
dessa existência aqui vivida.

Doem os ombros,
a cabeça,
os membros,
o coração,
a carapaça
e a emoção...

...mas a maior dor advém de simplesmente viver.

terça-feira, 7 de março de 2017

Poesia-Sangria

Me disseram que falto com técnica,
que não me comunico no que escrevo,
que não sei escrever.

Não me preocupei com dita estética,
muito menos com o leitor como servo
que venha a me ler.

Apenas pus para fora o que queria sair
andando com seus pés de poemas tortos.
Apenas escrevi o que senti, como vizir
de meu âmago ácrata que aqui exorto.

Quem me avaliou, o fez por ego,
enquanto sangro sentimentos cegos.

Avaliar um poema e não senti-lo
talvez seja a pior maneira de lê-lo.

Derrota

Tento passar borracha
sobre a vida recente,
por diversas vezes
apagando todo o grafite...

...mas ainda leio marcas
de pressão da escrita
com as letras dum nome
que me é indelével...

...e sinto seu oposto
de dentro para fora,
saindo à flor da pele.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Jekyll & Hyde

Respeite o monstro de si
e dê voz ao encontro
do som com as palavras
que, juntos do coração,
são frutos de sua lavra.

É melhor saber sim
do monstro de si,
pois bela e fera
são faces de moeda,
e se não te conheces,
como a outro conhecer?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Analgésico

Como agüentar tanta vida?

O que dizem ser leve
se prova ser um fardo
daqueles pesados: "Pegue!
Agarre-a para ser vivida!"

Quando meus braços
e meus ombros cansados
concordam com corpo
e tentam calar o pensamento.

Tudo dói, até a vida dói
tanto que o analgésico
tem que ser cada vez mais forte
até que o peso da vida
se alivie na morte.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Morbidez

Ontem - assim como hoje e também amanhã -
desejei me matar, contrariando qualquer lei,
moral, cívica, ética, norma, axioma ou dogma.
Fantasiando como seria a lâmina no pulso,
um espasmo no gatilho dessa roleta russa,
entornar o vinho com comprimidos mistos,
forçar a asfixia por monóxido de carbono,
atravessar a Paulista e beijar o para-brisa
de um ônibus num ato de amor ao meu fim.

Ato de amor próprio, ato de orgulho,
onde o ego tem mais vontades que eu.

E nessa conversa diária, o ego me falou
- e percebi que temos isso em comum -
"mais indolor, mais fácil, sem barulho,
podemos nos atirar do oitavo andar
e mergulhar no escuro, e já conhecido,
asfalto para pintar um pouco de vermelho
esse mundo sem cor."

Seria um ato de desamor,
orgulho ferido, numa vida sem sentido...

...algo que valha, no tempo não vivido,
é, simultâneo, um ato de amor.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Caído

Me assola este antônimo
de tua palavra,
como se minha lavra
nada fizesse em prol do anônimo
sentimento que me sobra.

Nada do que produzo
me traz um contento,
parece que estou em desuso
de mim mesmo,
um sol sem calor,
um flor sem cor,
eternidade sem tempo.

Este seu antônimo
me deixa caído,
enfermo, não de orgulho
mas de sangue escorrido
pelo verso que me deixou ferido.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Perturbação

Tenho uma memória vívida
de coisas fora dessa vida aqui,
quando passo numa ponte
e me pego olhando o horizonte
sinto a tentação de parar a vida
já senti que queria virar o volante,
não bastando, já senti que faria a pé
tal caminhada ao desconhecido,
tudo se daria num simples instante,
apenas um salto de fé
de que tudo, junto do ato, tenha se exaurido.

Salto demorado

Devo admitir que sou meu próprio fim,
meu suicídio é fingir viver este tempo
como se fizesse durar a queda por anos -
como se o parapeito de onde eu vim
não fizesse mais parte - só há vento
e já não fico mais onde estávamos;
sabendo de tudo isso e meus delírios
de início imemoriais, entendo o suicídio,
entendo a sensação, sinto a urgência,
ouço o gemido, respiro o último fôlego
a cada segundo último passado de início.

Quero um indício de que possa surtar,
quebrar tudo, antes que eu me quebre
em ossos no impacto com o solo,
mas me sobra uma paz externa
enquanto o caos interno não dá colo,
apenas me deixa cada vez mais morto.

Quem disse que todos berram ao cair?
Há aqueles que caem no silêncio
da voz, do ar, do suicídio a se admitir.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Da Margem...

Distorceste teu reflexo num lago revolto
por uma pedra que atiraste na vida,
nas ondas provocadas ao largo de seu perímetro...
quando a água se acalmou, inédita
foi a percepção de tua ausência,
a água não mais lhe refletia
e não sei com qual afluente nadarias
para longe, só sei que irias,
não importa aonde...

...pois a água se move,
e o rio não é o mesmo
e justo a correnteza temo
e vejo acontecer
aqui - sem prova dos nove,
me resta apenas não esquecer...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Elementos de Vias Urbanas

A calçada ouve como passo -
cada passo - num descompasso
comparsa de uma irritação
que não se disfarça de emoção.
Irritação fria que não se sente,
apenas se coça e se mente
que o vazio é puro sentimento,
mas nesse meio-fio de um tecido
estético, nesse vácuo no ventre
toda essa emoção se esvai - se foi.

O asfalto se molha lacrimoso
mais emocionado que eu,
o céu são seus olhos chorosos
que vertem um choro meu,
enquanto terreno; estou apático
no universo móvel-tempo-físico,
tanto que ainda não me sinto,
e a certeza de que não me minto
nesse vazio que deixaste.

A faixa de pedestre é da cor
do contorno de um cadáver
numa crível cena de morte
que não me alegra ou entristece -
apático - nada me é sentido,
não há sentido ou direção
nessas vias, não importa a mão,
pois são mistos traços urbanos
da cidade que me diz insano...

...quando estou, na rua, insone...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Poluído

Coberto de nuvens cinzentas
posso ver que a realidade
do ser humano aqui se inventa,
abaixo desse firmamento.

Sua cor é reflexo direto
de uma louca maldade
para vontades, caos completo
de vaidades dum momento...

...onde o ser humano
não é mais ser
e, sim, estar;
e o humano
se deixou virar
apenas consumo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Barrabás

Não há jesuísmo que me toque
com uma data simbólica
como a idade de 33 -
a qual cheguei e desprezo
com uma verve melancólica
não condizente com o sentimento -

pois é de alívio generalizado
se apoiar em muletas
cheias de simbolismos
e estou cansado demais
para aguentar açúcares e sais
neste organismo que arrebento

brincando de viver,
mentindo à vida
por 12 horas diárias,
fingindo o poder
de decidi-la
como um imperador romano faria
perante seus suditos.

Sem pensar

Fazer poesia tem dessas...
...não é algo que se peça,
muito menos que se entenda,
é algo que se sente
e nisso o poeta não se mente,
pois fazer poesia não é fazer contenda.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Deságua

Sou fúria e calmaria
nas emoções de ondas
dessa sentimentaria
que revolta em maré
desse meu ânimo
de poeta desvalido.
Por certo a baixaria
é evitada no choro
tocado a beira
do mar dos olhos
com sua areia
de Morfeu na ressaca.

Algumas Questões Aleatórias

Queria saber se o sangue
serviria como pagamento
para todo o tempo que vingue
essas vidas de momentos;

se a flor, no chão, despedaçada
ao público numa brincadeira
de mal-me-quer, se convidara
para tal crueza que ali se vira...

...queria saber...
...AH! Como queria entender

o paradoxo

dessa "selvageria

humana"...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Monera

Por diversos motivos
seguimos vivendo,
apáticos e sérios,
com sisudos mistérios
nos semblantes,
sem emoções,
quase sem corações...
levanto uma questão
já assim, de sopetão,
pertencemos a humanidade
mas ainda não saímos
do reino monera?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Aniversários

Ainda conto os anos,
mas não mais os comemoro
da maneira dos humanos
que ainda almejam o decoro.

Prefiro me dar o dia
como um pequeno regalo
de alguém que me daria,
com amor, o presente de que falo:

Um tempo para ser a si mesmo
e uma companhia simples
sem minutos perdidos, a esmo,
sem saber onde estão com os pés.

Prefiro assim, sincero,
como participo de aniversários:
presença rarefeita, vulto raro,
não ausente, mas no meu horário.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Comum Peculiaridade

Quando vi você
saindo pela porta do quarto
percebi o tempo,
frágil e banal,
levado pelo vento,
ágil e cruel.

Foi então que me senti
sozinho, em desespero
perdido na solidão.

Cada um dentro de si
tem um coração
só e sem companheiro.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

(ir)Racional

Se eu citar filósofos
estarei sendo falso
comigo mesmo,
como andar descalço
em pontiagudas pedras
com um sorriso
descarado no rosto.

Gosto de lê-los,
mas confesso descaso
na prática diária
de qualquer filosofia
que se prove alheia
diante do que penso
por e dentro de mim.

Se auto-descobrir
é mais que filosofar:
até há no que pensar
mas sobra o que sentir.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Procrastinação

Minha falta de ânimo
faz que me sinta péssimo...

É como se meu âmago
fosse mentir para comigo

e - paradoxal enfermo
de seu próprio cruel termo -

viesse a dar consigo
num ódio até que sôfrego,

presente nesta feição
com marcas de expressão

de histórias e guerras
de uma vida que aqui erra...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Momento de Inércia

Quando alguém impõe o silêncio
sideral dos astros solitários
ao pequeno e vil universo
de realidade de um poeta,

faz jorrar, na ponta da seta,
vozes, sentimento e verso
mudos, do mundo refratário,
instituindo um poema suspenso.

Saindo dum abismo

De sol claro e escuras nuvens
o céu se pinta como arte -
uma expressão do tempo,
como os tecidos se movem -
sendo, na totalidade, parte
de um sopro do momento

em que o verão se indica
e o ano se inicia,
mas não lhe aprazia
tal repetição kármica,
pois tua mente cética,
silente e observadora,
quando conservadora,
não se aparece épica,

mas sim perdida,
como o ceticismo
que evita a lida
com as mutações
do universo de emoções
dum mundo sem cinismo.