sexta-feira, 5 de junho de 2015

sexta-feira, 29 de maio de 2015

(Quase 60 anos de) Amor selado numa agulha

A carta me rasgou,
irrompeu cada pingo
de lágrima que chorei,
pensei que parou
meu coração: é lindo
e triste o ato que admirei.

O amor de vocês, eterno,
me matou um pouco mais
vocês passaram pelo inferno
sem se abalarem, jamais.
E com a morte, essa injeção
letal de realidade dura,
puderam deixar juntos e sãos
essa vida de loucuras.

Se há vida após a morte,
não importa pois, com sorte,
ainda vivem na história,
não serão apagados da memória.
Se suicídio é condenável,
não serei eu o acusador,
pois este ato mútuo, (diriam) "execrável",
a mim é obra de mais puro amor.

--
Homenagem a Gerhart Hirsche e Doreen Keir, conhecidos mundialmente como André e Dorine Gorz.
"Carta a D." é um dos livros mais lindos que li sobre amor.

Planet Hemp já questionava...

Atualmente...

...tem "MC" pra lá,
"MC" pra cá
mas não vejo,
repito,
NÃO VEJO
sequer um deles,
de fato,
revolucionar.

A fórmula
se repete
e a bula
de muitos destes
é quase nula.

MC de verdade,
sem aspas,
não faz vaidade,
nas feridas
enfia o dedo,
sem medo,
e expõe a realidade.

Mal de Nin(fa)

Ao contrário de muitos males e doenças,
Parkinson, Lou Gehrig, Alzheimer,
o mal de Nin vem de nascença
nos acompanhando durante todo o viver.

Anaïs dizia que era uma febre,
mas a ninfa esquece que é tesão
sua verdadeira doença, seu vício,
e atinge todas as camadas sociais
do rico ao assalariado, até a plebe;
sabe que é tal estímulo, tensão,
que nos leva ao fundo do precipício
do que seguimos como regras morais.

Essa doença é a mais normal,
nem sei se podemos chamá-la de "mal"
ao mesmo passo que nos faz felizes
enquanto a moral fica com cicatrizes
de algo que nos foi ensinado;
posse não é natural, é só medo.

Se sentir atração, se envolver,
se deixar levar é considerado ruim
então nossos animais estão doentes
e nem por isso fazemos sacrifícios,
nem por isso estamos aos suplícios,
rogando por perdão, evitando o fim
da prisão que não deixa contente
nem deixa triste a maioria a correr
de um lado para o outro sem pensar
se vivemos mesmo.
Pessoas devem se perguntar
se não é apenas tesão, a esmo.

Então batizo o tesão como "Mal de Nin"
e tenho plena convicção que, enfim,
o tesão existe e persiste sem amor
e, se não houver cuidado, pode causar dor,
pois já passamos séculos, milênios a fio,
e ainda estamos a aprender segurar o cio.

E é difícil, pois é um mal que nos faz tão bem...
...é o mal que um dia nos fez "alguém".

terça-feira, 26 de maio de 2015

Lied do Compositor

O canto triste da ave
faz vibrarem luzes,
ar, tímpanos e peles.
Os cílios, num enxágue,
respingam emoção
e fecham as bocas dos olhos,
calando sua visão
e deixando à audição
o vislumbre dos textos
molhados de poesia
e vestidos de canção
entoada pelos ventos
que empurram a embarcação.
Não há sequer maresia
que afete o canto alado;
quem compôs é santo
em música
e, no amor, amaldiçoado.

Como na tristeza
pode haver beleza
e tanta calmaria?
Talvez só o compositor
lhe responderia...

segunda-feira, 11 de maio de 2015

P(r)o(bl)ema

Escrever poesia é um problema
um tanto matemático
onde é citado um dilema
em pés de um verso métrico

pensado para conduzir
a leitura com rítmica;
é como se estivesse a ouvir
a letra de uma música

que nesse caso é um soneto
com oito pés, cheio de espetos
que vou aparando com meta:

chegar na tal chave-de-ouro
que do poema é o tal tesouro
buscado por qualquer poeta.

Herói?

Um amigo relatou
que já desejou
ser Jesus,
e me perguntou
se tive heróis...
Alguns, supus,
mas, logo depois,
pensei alto
e ele escutou:

"Eu só queria
fazer barulho
todo dia.
Herói? O caralho!
Quero alegria,
para o mundo
do topo ao fundo,
do baralho;
e o fim da amusia."

Pirofagia

O fogo dança
e me chama
para ficar perto,
para sentir calor
tão enlouquecedor;
então desperto
de seu transe,
de seu enlace,
dessa piromania
doce que afaga
com mão larga
numa tarde fria,
e me enfeitiça;
e me faz caça.
Que agonia!
Nessa fogueira
sinto sua maneira
de fazer pirofagia.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

"AL-AU!" do Luka

Afinal,
qual mal
é mau?

--
Para Luka, o cachorro filosófico do Cao. ;)
http://cao-piratamental.blogspot.com.br/

Sobre Ausência

Questionemos isso...

Seria eu um cara omisso
por causa de um sumiço?

Não falto em compromisso,
mas há quem me acuse disso.

Para você que pensa nisso,
não dou banana, mas chouriço.

Faltas são furos em queijo suíço.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Suposto desejo de Ícaro

Queria ser alado

           ALTO
         //
e voar


para depois

d
  e
    s
      c
        e
           r
             .
               .
                 .
                 c
                 a
                 i
                 r
                 .
                 .
                 .
     |Mas|
   \abrindo/
--essas asas-- 

para p
           o
                 u
                        s
                                 a
                                            r
                                                         s . u . a . v . e . m . e . n . t . e
em _terra_firme_

ou nas

   n             d              r     
o ~ d ~ s ~ ~ o ~ ~ a ~ . ~  . ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~
         a                m          .


--
Ernesto Gennari Neto

Somente

Só mente:
somente
som e ente,
só à mente.

Sou mente.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sexoesia

Me encanta o corpo feminino
e me encanta o corpo masculino.

Quando ambos se encaixam,
se movem como um mecanismo
que gera calor e nos deixam
um tanto cheios de um cinismo...

...Que na verdade é inveja.
E você sabe que é, pois veja:

Você está lendo esse poema,
mas pensa que queria, mesmo,
é estar num grande problema
mecânico, assim, até o orgasmo.

...E funciona para pares iguais:
afinal todos querem felizes finais.

Instinto livre

Meus seios arfam
quando o ouço
recitar palavras...
como elas tomam
a água do poço
e das lavras
de meu corpo.

Ouvir, umedece
meus lábios,
treme os dedos
e algo acontece,
nem os sábios
sabem dos medos
do meu corpo.

Então a vejo ali,
também arfando,
ouvindo, salivando;
enquanto ouço aqui,
fico pensando:
me ter com ambos
seria demais?

Ele e ela e eu.
Seria algo ruim
fazer uso da vida
que alguém me deu,
para qualquer fim?
Essa vida vívida...
Não, jamais!

E se mais um vier?
Oras, livre é o amor
que é feito com ardor.

Que eu, ali, os tenha
e que a vida prenha
faça de si o que quiser.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Para tentar ser imortal

Sim, queremos ser imortais,
mas todos temos prazo de validade
e passamos nossas vidas banais
satisfazendo nossas ditas necessidades

sem saber se vivemos para trabalhar
ou se trabalhamos para viver.
O tempo passa e vemos se perder
o aroma das plantas a desfolhar.

Vivemos a obsolescência programada:
num segundo vamos do tudo ao nada.
Este grande ciclo é só reciclagem
onde a natureza sente nossa passagem.

Para se imortalizar, o homem precisa
se fazer parte (não acima) da natureza
e entender que propagá-la ao perecer
é dar vida e viver num outro ser.

Talvez, só assim seremos imortais.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Água Salgada

Essa coisa de pele dos amantes
é quente e molha, a todo instante,

de suor a roupa, como a chuva
que encharca do sapato às luvas,

da touca às meias, é um dilúvio
que causa um estranho repúdio

à outrem. Acho que é só inveja,
pois todos querem sentir a peleja,

o choque das ondas, água salgada
no mergulho d'um corpo que nada.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Adeus Vagamundo

As veias ainda sangram,
jorram;
ver
da
desumana
decisão
ter
na
profana
vida
uma sina,
lida
e ensina.

Abertas, ainda sangram.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Notícia ruim em 1º lugar

As péssimas notícias
me trocam as delícias
por fel e penúrias.

Difícil não sentir fúria
enquanto leio jornais
nos infernos matinais.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Atirem!

"Atirem!"

Disse o comandante do pelotão
que sequer mostrou hesitação
ao pressionar o gatilho.

Atingiu, do solo, o filho,
com ideias de força,
coragem, e pátria.

Uma ideia, uma forca,
e pastagem ao pária.

"Atirem!"

Disse novamente o chefão,
sem ligar para onde vão
os atingidos,
mortos ou vivos.

Atirem-me num precipício
pois, nesse mundo hospício,
o significado de "sofrer"
virou sinônimo de "viver".

"Me atirem!"

quinta-feira, 2 de abril de 2015

POI3SIS V1TA

Sei que seria, sim, poesia:
(I) ato de sexo que nos cria
(II) fama da heroica fantasia
(III) gerar virtuosa sabedoria

É o desejo de ser imortal
que fazemos de razão poética,
e a poiesis da vida trivial
é o que temos como métrica.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Filhos da Lua

Te vejo vestida de nuvem
mas quando bate o vento
sua saia levanta
e te vejo lua
cheia e nua.

Voa(!)
essa nuvem de fuligem;
você ilumina o céu
e eu invento
que caia, me espanta,
num sopro, o ar
no mar a me sufocar
deitado na praia.

Meu pensamento
que voa desconexo
e me deixa perplexo
se modifica enfim:

o seu rebento
é o dia ensolarado
num coração apertado
de sangue carmim.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Chagas no Chão

Quem reclama de ciclovia
talvez não tenha, um dia,
passado por risco na via.
Então, forço-lhe afasia:

Já fui derrubado,
já me tiraram fina,
já fui até jogado...
Já chega dessa sina!

Então quando for reclamar
da tinta vermelha, não se zangue,
faça um esforço em pensar
na cor de seu próprio sangue.

Ali, estirada, poderia ser sua paixão...
Não é "só uma indumentária";
a ciclovia, sim, se faz necessária
para não haver mais chagas no chão.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Contradição Sádica - "hexaikai"

O mundo plástico
que devora sua rede
nos é sádico,

mas é o básico
sistema que nos mente
e nos é mágico.

Fazendo troça,
rindo e até nos ferindo,
nos dando coça,

enquanto rimos
nas ruínas, que nos são ruins,
feitas por sismos.

Felizes somos
por não termos a paixão
pela qual matamos.

Triste estamos
por sequer vermos porque
tal vida vivemos.