terça-feira, 14 de abril de 2020

Ocupar-se

Quantos já se foram?

Não sei.
Não pude manifestar
meu pobre pensar
pois ninguém falou,
então não contei.

Mas ouço as histórias
daqueles que oram,
daqueles que não oram,
daqueles que riram
e daqueles que não riram.

Antagônicos
e cacofônicos,

percebo que não se importam.


Os que se importam
não tem mais tempo,
pois já se ocupam
do que se pode fazer.

Eu, por exemplo,
poemas invento
para dar-lhes o que ler.

É primordial espairecer
para que não enlouqueça.


Não que eu esqueça
das brigas,
mas amigos e amigas,
não nos resta muito
em tempo tão pouco,

assim como não restam as pessoas...

Quantos já se foram?
Não sei.

Até tenho receio em saber
e enlouquecer.

Mas não nego a necessidade.

Gostaria que não fosse
ninguém,
menos ainda
alguém
importante
para mim, para você.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Silêncio

Agora,
quando mal ouço pessoas,
percebo o que soa
lá fora,

sem os ruídos
e vozes
atrozes
das máquinas
e suas fumaças.

Ouço os animais
e o vento
nas plantas -
o farfalhar
que tanto
era emudecido
pela vida
ensurdecedora
que não
queria conviver

com seu próprio


silêncio.

domingo, 12 de abril de 2020

Páscoa Avessa

Páscoa nesse domingo.
Todo mundo "dormindo"
enquanto escrevo.

As aspas no verbo acima
mostram o atual clima
de São Paulo, onde vivo:

não sou jesuíta,
mas vejo que parte de quem diz ser
não tem feito muito por merecer
enquanto casuísta.

Não sou jesuíta
mas me importa e respeito
a crença que guardam no peito,
sendo esta pacífica,

senão não há
motivo para dar respeito
a quem não tem.

Não sou jesuíta
porque não dependo
dele para exercer
a humanidade que sinto.

Sim, tenho mágoa
e a poesia não deságua
nestes versos.

É páscoa nesse domingo,
todo mundo está "dormindo"
enquanto os anticristos
saem por aí, bem vestidos,
exercendo a desumanidade
e a falta da cristandade.

Jesus, me perdoe,
mas não me misturo
com quem prega

a palavra no furo
de sua cruz,
ferindo tua mão.

Não tenho tanto amor
nem dou tanto perdão
para quem fere o próprio irmão.

Não sou jesuíta,
mas ainda tenho moral,
tenho noção, enquanto escriba.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Asceta

Talvez seja pior tipo de poeta,
aquele que se mete a asceta
e não se publica
por personalidade pudica.

Mas não sei das coisas
de organização,
sei apenas da redação
das emoções afoitas

dessa vida perdida.
Seria mais dolorida
sem poesia, no entanto.
Como poeta é que me entendo.

Peco

Peco.

É pecado escrever-te
sobre escrever-me.

Um poeta não deveria
ser procedimental;
nada de bom nem de mal,
só banal se faria
e faltaria com a poesia...

..mas é ao pecar-me
ao pesar

que lhe peço,
e peco,

num pedaço de papel,
num esboço de fel
que derramo em tintas.

Eu peco.

Escrevo-me
para te escrever
que falta faz ler
a poesia de você.

Inseto

Há muito tempo achava
que era eu que habitava
essa casa.

Que era eu que limpava
e também quem sujava
essa casa.

Não me lembro, sequer pensava
que tanto tempo dentro se passara
nessa casa.

Nunca na vida estive tão caseiro,
até que notei um inseto no banheiro...
...e por dias e dias vejo o mesmo inseto.

Cada vez maior,
cada vez mais desenvolvido,
às vezes voando ao redor,
parece que virou meu amigo.

Antes era pequenino
e agora, já menino,
fica em diferentes paredes.

Já imagino
que, mesmo sem limo,
ele sacie fome e sede.

Então dei por mim,
hoje, nesse breve momento,
me veio dessa casa o intento:
aqui eu só visito,
não habito,
Essa casa, por hábito,
é deste pequeno-grande inseto.

Fila do Pão

Seria um outono típico,
daqueles com ar poluído
de palavras sujas
desse ventríloquo
que comanda seus bonecos
em plena manhã,
na fila do pão.

Mas não é.
Não é o mesmo outono
que foi no último ano.

As marionetes
não mais saem de casa
e agora o jogo parece,
apenas parece que,
mas não inverteu ainda,
só aumentou
o número de joguetes.

Quem disto sabe não é
devoto de santo vivo
pois estes somem ao perigo
de quando desaparece a fé,
assim como os jogadores
conscientes dos riscos
e dos blefes
saem da rua
e jogam em casa.

Seria um outono típico,
mas o céu está limpo,
as ruas meio vazias,
e as palavras sujas
da fila do pão...

...Pasmem!
Já não há mais fila do pão!

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Mundo Cão Velho

...e por que raios faço poema
numa hora dessas,
num momento
de cisão entre passado e futuro?

Porque, rotundo
e redundante
o mundo
se faz inconstante
e elástico;
incerto,
ainda assim estático.

O mundo repete situações
só muda sua roupa,
mas os costumes são os mesmos...

...e é muito difícil,
mas não impossível,
ensinar novos truques
ao mundo cão velho.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Beca Nova de um Mundo Velho

A história se repete?
Talvez não...

Há de se ter muito capricho
para replicar cada detalhe,
não pode deixar que falhe
nem o saco na lata de lixo.

A dita "escória" não é a mesma,
seu algoz também não...

Mas o que se repete são situações
nisso, a história se faz real farsa,
nessa antítese um tanto esparsa
que beneficia apenas os barões.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Soneto do Risco

Sair pela porta vale o risco
de vir a trazer uma doença?
Seria, tal passeio, uma sentença:
não é só a mim a quem arrisco.

Exercitemos a consciência,
vejamos nossa humanidade,
valeria mesmo tanta insistência
em voltar a velha realidade?

Tudo mudou de uma hora à outra,
nada volta a ser tal antes era.
É tolice crer nessa fantasia.

É melhor aguardar. Vai que encontra,
na sua saída, algo à sua espera...
...pode ser algo que lhe contagia.

domingo, 5 de abril de 2020

Sobre o Propósito

Comandado por genocidas
o mundo está num refluxo,
quase regurgitando a vida,
e não posso me dar ao luxo
de seguir sem comentar
que, sim, há falência
de negócio,
de caráter,
de sociedade
e de humanidade.
Devo achar poesia
quando esboço
nesse fazer
de realidade,
de felicidade,
e de mortandade.
Poesia é superar
a programada condição
e, num novo despertar,
ter consciência da missão
a desempenhar no mundo,
e não ter receio, contudo.

sábado, 4 de abril de 2020

Ignorância

Seria benção
ou maldição
a ignorância
que atinge
o rico
e o plebeu,
o cristão
e o judeu,
o ateu
e até o agnóstico,
aquele sem religião?

Há algo de tranquilo
e também macabro
em ver esse povão
se dividir
entre quem sabe
da gravidade
da atual situação
e quem vive
como se há verdade
em sua negação.

A ignorância
avança...

...mas ainda fica a questão:
para quem é benção
ou maldição?

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Chuva Matinal

A chuva matinal,
um tanto pontual,
só marcou presença
e refrescou o ambiente.

A chuva não lavou
tudo, pois ainda restou
ignorância e desavença
entre corpo e mente.

Para lavar não veio,
mas trouxe o meneio
da natureza e seus ciclos.
E vimos ativamente

o que não se via
pois, cegos pelo dia-a-dia,
sequer reparávamos
no que acontece cotidianamente.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Sal da Terra

A tentativa de um feixe de sol diário
e a lufada de vento no rosto,
as nuvens se movendo no céu solto,
azul, mutante, inigualável no páreo

entre
o que é celestial
e o que é banal.

O céu não liga para o nosso horário,
apenas é, somente o exposto,
e ao vê-lo me sinto envolto
num conforto quase etéreo

entre
o céu celestial
e o eu banal.

Pode ser num dia de clima vário -
o clima é e não é imposto -
térreo sei que afronto
se mandar no que é aéreo,

sendo
o céu celestial
e eu apenas sal

da terra.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Presente

Sim, manter a disciplina é uma arte
e muito lhe faz pensar enquanto parte
de uma situação difícil
como a presente:

O mundo parando,
o sistema colapsando,
prestes ao caos social.

Mas não é possível,
não se pode deixar de viver,
de fazer o que se tem que fazer,
a si e ao resto do pessoal.

Viver agora é uma dádiva
que exige disciplina.

E de repente,
o presente se torna presente.
Um verdadeiro presente.

terça-feira, 31 de março de 2020

Os Beatles que me desculpem

Mas é prudente estar caseiro.
E é prudente trabalhar.

A querida prudência
não sai para brincar
mesmo que num novo dia,
mesmo com seus amigos a chamar.

Pois é prudente esse momento inteiro
estar em casa para reavaliar...

...a vida,
a sociedade,
o ganha-pão,
a relação -
familiar ou não...

E é prudente ouvir música,
estudar, se informar.

Então a querida prudência
não podemos negar com veemência
pois é nesse balanço que ela conquistou seu lugar,
brincamos... e brincamos... e brincamos...
invertemos a ordem
"primeiro a obrigação, depois a diversão".

Agora a querida prudência
vem nos lembrar
do que temos que cuidar.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Viver/Sofrer

Se sofrer é algo que apavora
e viver é algo que te devora,
como pode nesse tempo
reforçar um pensamento
de que a cada momento
passa-se mais que uma hora?

E se tal hora muito se alonga?
Viver e sofrer são da milonga?
Sim, precisam um do outro,
nesse agridoce encontro
para bailar, sem desaforo,
pela noite toda que se alonga.

domingo, 29 de março de 2020

Horas

Abro os jornais e leio mazelas
aos montes...
Apenas mazelas no horizonte.

Cansado e em busca de consolo

abro olhos ao céu das belezas,
das fontes
inesgotáveis de nuvens. Conte!

Tente contar
e se perderá nos números.
Tente contar
tantos números...

...números tão ínfimos...

Ao contar nuvens, se perde as horas,
e ao contar as horas, se perde a vida.

sábado, 28 de março de 2020

Percepções de Tempos

Chegou o fim de semana,
eleito como quem emana
um alívio, veio em acordão
ao suplício de todo coração.

Mas não sei mais que dia é,
todos são iguais, não tem ré
que volte o mundo como fora,
um astro rotundo, espaço afora.

Para a humanidade tudo mudou,
o mundo de outrora, tão querido,
não é nesta hora o mais possível.

Se há humanidade, se não acabou,
a solidariedade é um bem recebido
para tornar o mau mais impossível.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Distância e Saudade

Há a distância
que nos impede de abraçar
um ente querido.
Distante como se fosse,
entre tantas coisas,
um martírio.
A mesma inconstância
que nos afasta dos amigos
se dá nessa distância.

Mas...

...devemos encarar levemente
a doença que nos distancia,
pois nos afasta somente em corpo,
enquanto esta saudade
nos aquece em sentimento
e nos aproxima em pensamento.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Doença Colérica

Como é contagiante a cólera...
consegue ser pior que um vírus,
se espelha de maneira veloz
e deixa doente o mundo à fora.

Virulenta por natureza,
se espalha com muita destreza,
e saná-la é tarefa árdua,
necessita paciência fria e calculada.

Pode acometer qualquer idade,
basta apelar às emoções
de qualquer estrato da sociedade,
e pronto, nos colocará grilhões.

Então façamos a prevenção
e, se for preciso, a correção.

Primeiras medidas diárias:
A calma é o antídoto principal;
a música é a vacina espiritual;
conversas aliviam a dor estomacal,
desabafe, mas não contamine;
reconheça erros e peça perdão,
ajuda a curar, pelo menos,
uma mente e um coração;
preze pela solidariedade
acima de qualquer vil metal
e entenda seu papel no quadro social.

Não deixemos mais uma doença se espalhar.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Devemos escolher: ou o Dinheiro, ou a Humanidade

O dinheiro se tornou um deus
cultuado pelos "nobres" e "plebeus",
se tornou até inquestionável
e se pensamos em viver sem
nos tornamos seres aquém
do esperado e dito possível.

Mas será mesmo isto a divindade?
Será que é, além da vida, a pura santidade?
Não precisa de religião, apenas um ensaio:
De nada adianta ter tanto dinheiro
enquanto outros estão no desespero,
pois sem o outro eu também caio.

A humanidade não é um indivíduo,
mas sim a coletividade em apoio mútuo.

Pois sem você, eu não existo.
Há também a recíproca, insisto.

terça-feira, 24 de março de 2020

Heróica

Quando você vai trabalhar
é fácil eu ficar paranóico,
mas não posso me deixar
esquecer de seu ato heróico
em meio à pandemia.

Enquanto ficamos no lar
lhe devemos a gratidão
por você desempenhar
a sua honrosa missão,
que é tão necessária.

Você, heroína, herói da nação,
na linha de frente servindo o povão,
na saúde, no abastecimento, no avião,
você merece muito mais que um refrão.
Muito mais que homenagem e saudação.

Merece uma vida nova,
todo amor possível e impossível
que só num mundo novo
pode, no fundo, ser plausível
para justificar o trabalho
que você faz e coloca o mundo velho à prova.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Cuidemos do Próximo

Mais do que nunca,
cuidemos do próximo,
façamos o ótimo,
porque o péssimo
já nos fazem.

Se dão tiro na nuca,
a gente transforma a bala
em doce de açúcar,
o poema em fala.
Eles não sabem.

Eles não sentem.
Eles não morrem.
Eles não vivem.

Somos nós por nós,
contra os parasitas,
os exploradores,
os facínoras,
os investidores.

Somos nós por nós,
contra o dinheiro,
contra os vermes,
contra o embusteiro,
contra os germes.

Mais do que nunca,
cuidemos do próximo,
não desistamos
e façamos diferente,
se estiver doente,
abrace um plano
e não passe para frente,

peça auxílio,
alguém te ajudará,
esqueça suplício,
seja tenaz,
pois seremos também
e nós não lhe deixaremos
a deus-dará.