sexta-feira, 18 de março de 2016

Se Viu Guerra

E assim, depois de tudo,
o povo no espelho civil,
na cena em que se viu
percebeu todo o absurdo
que ali se acometeu
e nada se justificou.

Não se derrama sangue,
não importa o motivo,
diálogo é o que conserva
uma conversa que estanque
qualquer rasgo dolorido
feito pelo povo desgarrado.

A ética pode ir ao espaço,
quando a massa berra
palavras de quem erra
ao validar discursos rasos
de gente de moral falha,
cujo ódio nos espalha

e, à beira de um colapso,
talvez numa civil guerra
onde (a)briga suja (a) terra,
nos vemos tão ineptos
que pensamos desistir
do sonho do povo se avir.

...Mas desista de desistir!

Pois há de se batalhar,
e que o façamos nas idéias;
que de nossas fileiras
loucas poesias venham ao ar,
para construir revoluções
e ganhar novos corações.

Prantorrente

A emoção é uma torrente
que, somente com forças
de seres sobre-humanos
e mitológicos, tem chance
de se parar pois é maré
forte a inundar a costa;
se não para, molha o rosto.

Masoquista

De que me adianta ler
o que fustiga a essência
dessa minha experiência
humana, desse meu ser?

Seria eu masoquista?
Apenas alguém cuja dor
se mistura com o calor
de um poema em vista?

Um poema cujo verso
inicial me soa agressão,
como um soco - uma mão
direta - em cheio na face.

Onde cada golpe atingido,
em rima, verso e estrofe,
me sangra e me comove
o coração, dentro, afligido.

Poemas de dor e
poemas de ardor...
...A poesia sua,
a poiesis que suas.

Sol(idão)

Como seria a vida do astro sol?
Será que ele já se sentiu tão só?
Mesmo rodeado de um universo,
será que ele se sente um verso...

...Solto?

quinta-feira, 17 de março de 2016

(Frear) A profecia Kafkiana

Será que Kafka se sentiu assim?
Uma sensação inquietante
num breve instante, na avenida?
Uma sensação sem fim
de que algo ruim vem à surdina?

Pois me é inquietante o que vejo,
o que ouço e o que leio.
Parece que leio entre as linhas
da rinha que corre a história
que nos passa sem deixar memória.

Mas que faremos se isso é mais
que ensejo, desejo da névoa?
Não faz sentido deixar acontecer
novamente o que Kafka previa
no passado que esteve a escrever.

Deveríamos travar um encontro
e tentar parar a névoa espessa
com nossos ventos de confronto
por meio da palavra travessa,
da poesia da terra e das veias!

terça-feira, 15 de março de 2016

Finta

Queria matar o silêncio
da folha em branco,
mas ele já morreu
quando dentro gritou
qualquer sentimento
agora escrito no papel
e, que no entanto,
tentei apagar à borracha,
mas só espalhei a mancha
de poroso grafite.

Sujei todo o papel sulfite
de sangue cinza,
que não mais estanco,
e letras, que num espanto,
ainda aparecem
me fazendo finta.

segunda-feira, 14 de março de 2016

De cabeça para baixo

Eu olho o céu,
mas vejo terra
e, ao ver o chão,
enxergo nuvens
que se movem
sem uma razão,
até rugir a fera,
e chover o véu.

Praça Mística

Aqui, parado nesta mística praça,
sinto sua presença me invadir
e quase lhe vejo, só falta que faça
todo a graça do jardim florescer,
mas percebo que isso é fruto
desse cansaço, que me proíbe
as chances de sonhos noturnos.
Aqui tenho diurnos devaneios
sobre a vida e, me escrevo
de maneira que não vivencio
essa frustrante realidade
tal qual me foi imposta:
de que te lembro e lhe sinto,
no que parecia um sonho finito -
mas é um devaneio que persiste.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Casa dos Poetas

Em meio a essa chuva,
quero beber-te vinho
ao andar pelo jardim
de rosas e uvas
da casa dos poetas.

Vinho de sobriedade,
ao passo que um café
pode abalar qualquer fé
e mudar a realidade
da casa e dos poetas,

num doce desvario
por onde vazam palavras
e poetizam as chuvas,
enquanto o céu sorriu,
como se fosse poeta,

ao lavar o mal da terra,
ao fazer nos encontrar,
poetas num pomar
a versar sobre quem erra
por essa terra de poeta.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Surpresas...

...Nem sempre são boas.
Às vezes, vem como tiro
e o resulto, que me refiro,
é uma sangria...à toa.

Haikai de Carícia

No nosso abraço,
prazo não há. Com atraso,
viramos laço.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Percepção do Som na Infância

Me volto a memória
para períodos
mais que recônditos
nos labirintos
da história
e seus fatos.

Nos tempos de juventude
pude ver que, ao desenvolver
algo de consciência,
a doce experiência
humana vinha a crescer
e, sem ter quem ajude,

a cabeça passou a pensar,
como que por si mesma,
e um ser ali brotou,
um pensamento fincou
mastro, trouxe a resma
de folhas e passou a registrar...

Cada momento na mente consumia
tintas, quadros fotográficos,
bytes e muitos papéis
que aceitavam seu revez
de todo lado prático,
devia registrar toda hora, todo dia.

Até que percebi, orvalho
era um mistério e o som...
aaaaahhhhhh, o som é o prazer
que me costuma fazer
despertar sentidos de um dom
que todos têm retalhos...

Cada um se refugia num sentido
e o meu foi a audição, sempre,
pois é o que me faz ser eu.
Não é algo que é só meu,
outros também são, do ventre
ao presente, nisso até parecidos.

Desde aquele vislumbre
da consciência pueril e inocente
que me crescia, sabia
dessa sublime alegria
que me quebrava a corrente
da realidade insalubre,

ouvir os sons da natureza
era o descobrir da música
do mundo, grande maestro,
nem canhoto, nem destro,
apenas uma esfera acústica
que ressoa toda uma beleza

emocionante na sua construção.
Isso mexia com cada pedaço
que se organizava no piscar
de olhos que é o ato de pensar,
e se apoderava de todo espaço
de meu pensamento em evolução.

...E fico, até hoje, hipnotizado
pelo poder do som no ouvido,
parece que volto ao início
de tudo, num doce precipício
que ecoa a música do mundo
para este ser amaciado,
acalantado e sentir a doçura
da gota do mel num oceano
de mares salgados.

Sobre nossos poemas

Sei que, talvez,
muitos dos poemas que leio
não são para mim,
mas os torno meus por meio
da contemplação
e por deixar cada palavra
invadir, enfim,
minha imaginação,
esta minha pequena lavra.

Lavra que também poetiza
linhas de pura ojeriza
e versos de doce beleza.
Não será possível me "ler",
pois não me abro livro,
só podes pouco me conhecer,
por meio dos versos presos
e de outros livres
que venho a escrever.

E mesmo assim, faço sigilo
de cada sentimento meu,
e para me entender,
assim como minha poesia,
deves decifrar metáforas,
e fazer como fiz eu:
tornar meus poemas teus,
apreciando, mundo afora.

terça-feira, 8 de março de 2016

Gatuna

Espécie noturna,
de hábitos felinos,
seu arroubos
furtivos
me roubam
a razão
dos sentidos
já mínimos.
Com garras e dentes,
me corta
a garganta,
morde
pescoço,
me marca
o peito,
me rasga
até todo sangue escorrer.

Morro por violência
e hemorragia.
E você assim
se delicia.

Roubando minha vida
na calada da noite
...ninguém escuta
minha morte.

Abraxas

Me perco na imensidão azul
de seu olhar de oceano,
profundo e misterioso,
nas ondas de norte ao sul
que me carregam
como barco ocioso,
sem direção ou costa
de horizonte praiano.
Perdido nesse oceano,
sinto que algo recosta
e pousa dentro de mim,
seria uma ave, enfim,
que bate asas fortes
ao invés de pulsação;
ali no peito abre e achas
o tesouro de naval missão,
do fundo do espelho do céu
que é o mar de sua visão.
Sem deus ou diabo
para ajudar na volta,
só sobrou eu, ainda perdido,
esperando uma tormenta
ou uma divindade
com asas que, sem alarde,
me guie ou me leve à terra
ou deixe que eu morra
de paixão
nessa imensidão
azul...

Sobre a Espontaneidade do Clima

É incrível como o clima muda
e o faz de uma hora para outra,
como um bipolar, mas neutra
é sua vontade na tarde absurda,
em que o dia escurece na manhã
e que noite vira dia, sem afã.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Cruel Tempo

Das armadilhas da vida
o tempo é a mais cruel,
te mastiga, te trucida,
e te torna o amargo fel.
Fel dá nó na garganta,
caso você não saiba,
não há com que caiba
qualquer outra janta.

E nesse amargor vamos
destilando álcool, fumos
vida, sangue, suor e pus,
senão o tempo é perdido,
passa-nos desapercebido
como ouro de tolo reluz.

Se Movimentar

Sinto que vou surtar
pois a realidade é o susto
do qual despertei
e agora estou disposto
porque não quero ficar.

Sobre projeto de país

Não sou partidário ou patriota, apenas prezo por coerência e consciência e ultimamente tem sido engraçado ver como o debate político anda por aqui, parece briga de torcida de futebol, só que de forma mais infantilizada... Como as pessoas se dispõe a gastar tanta energia, fazer tanta entropia para no fim, elegerem seu novo baluarte dos interesses coletivos? E, pasmem, sabendo que os interesses coletivos não serão respeitados, pois sofrerão em detrimento dos interesses individuais do beato posto em trono pelo povo crédulo.

É...o povo se desgasta, e muito, a toa. Porque neste pedaço de território, definido como Brasil, temos uma curiosa situação que se perdura por mais de duas décadas pós-redemocratização, nas eleições vemos um fato curiosíssimo ser escancarado, um fato que deveria nos aturdir, fazer questionar nossa participação e a participação dos próprios partidos:

Ninguém apresenta um projeto de país.

Pare para pensar, os discursos são os mesmos, mudam-se caras, bocas, vozes, escrita, mas o conteúdo é o mesmo, e não é raso.
A triste realidade é que os partidos (salvo raríssimas exceções), em sua grande maioria, são apenas reformistas, não fazem guinada alguma (que nunca tenhamos uma à direita, por favor), o projeto de pais que eles dizem apresentar há anos tem sido o mesmo: Cumprir a constituição.

E nem isso o fazem.


Vou resumir de forma simples, mas bem coerente:

Eles estão prometendo fazer o que já é obrigação institucional de seus cargos.
Eles prometem escovar os dentes, quando isso nem deveria ser prometido, apenas aplicado...e há muito tempo.

Ou seja, não há mudança real.
Sem um projeto a seguir, nunca haverá, e os conformados ficarão no lado mais quentinho do poço de merda porque ninguém quer ficar no lado frio, mesmo estando num poço de merda.

Sem Manto

Sinto um demônio
dentro de mim,
uma marca de Caim
tão quente que queima,
me incinera por dentro
como a chama de um dragão
que no interior enfrento.

O fogo clama
por cada pedaço
do que julgava
ser minha essência,
e seu calor quebra
a máscara, um estilhaço
me reflete a obra
que aqui se vivencia:

de todas minhas brasas
serei sempre
a última a apagar
e é nela que reside
todo meu eu,
essa obra de ateu,
de demônio, de santo,
de quem retirou seu manto.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Literar

Lendo livros e observando a vida
sei que vale a pena qualquer ferida:
é um aprendizado
a ser alcançado.

Aprendi lendo de Tolstói
que a balança da humanidade
fica entre o bem e a crueldade
e percebi que a realidade dói
dentro de mim...

Como é difícil de aceitar
que o ser humano não se furta
nos seus atos, nem se assusta
em ser vil, podendo até matar
acelerando o fim

de qualquer um,
como uma talagada de rum
esquentando uma noite fria,
como quem quer luz
e que o escuro da noite azul
seja tarde alaranjada dum dia.

Aprendi com Veríssimo
que amor soa música ao longe,
você não agarra, nem sabe d'onde
vem tal som lindíssimo,
só pode sentir

e quando se der a chance
de lhe ouvir, sentirá no coração
algo que só deuses lhe dirão,
então digo: não se espante,
pois não irá partir...

...De qualquer lugar,
como uma pessoa a andar
de lá para cá em euforia.
Simples, por aí está
passa até por uma fresta
da janela que lhe clareia
o dia.

Rascunho

Pode ser que um dia
eu acabe poesia
perdida nas estrofes
que se desmancham
em versos-catástrofes
que de tinta mancham
a folha em branco
já amassada
jogada
num banco.

Virão outros poemas
que terão seus problemas:
estrofes com versos em rima
enganando os sentidos
sem poesia ou estima
e o que está sentindo
é só uma ilusão
bonita por fora
pois, por ora,
se foi embora
a inspiração...

...junto da folha amassada
que rolou no vento,
e se perdeu no tempo,
eu, poesia, sou largada,
esquecida
como rascunho
do coração.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Ser flora

Que sejamos árvores,
balancemos ao vento
e joguemos as folhas,
sementes e rebentos.


Aos Ventos

O tempo até passou rápido,
mas os silêncios, lentos,
são, nos ventos serenos
como nós, nada ávidos.

A tal paz sempre atinge
a nós, rapariga e rapaz,
numa conversa que apraz,
até quando o tempo cinge

a realidade que gostamos
e devemos voltar ao mundo,
quando dele há muito saímos,

mesmo enquanto sabemos
que a vontade, lá no fundo,
é que ali ao vento fiquemos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Miragem?

Poderia jurar que vi
uma certa imagem
passar ao meu lado,
a presença que senti
poderia ser miragem
ou algo do passado
recente desse tempo
em que esse vulto
passa e me sacoleja
os cabelos como vento
e canta sons ocultos
de uma voz benfazeja.

Te vi, depois, não mais.