sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ele sobreviveu

Gregório está na cama do hospital, nem parece que já se passaram três dias, ou seriam quatro? Ele já não tem certeza, nem de quanto tempo passou, nem de quanto tempo ficará ainda, mas o pior já passou. Na fila do transplante por mais de três anos, de repente esses três, ou quatro dias, deixam de parecer uma eternidade, comparados aos anos de espera, mas mesmo com livros, televisão, comida, pessoas cuidando de sua saúde, esses poucos dias ainda incomodam, parecem um longo tempo. Talvez o tempo não seja comparável, não seja realmente contabilizado da maneira correta, tão estranho, ele pensa. Sessenta e dois anos... meia-dúzia e depois o dois, que diabos! Passou tão rápido, era tão fácil quarenta anos atrás...
Na verdade ele sente melancolia, pois lembra do irmão. Sente saudades dos tempos áureos, como diria o Ricardo, “tempos malucos, Gório, maluquices sem fim...”
Nunca mais viu Ricardo, ele virou a cara para todos nós, pensou. Passou a mão pela cabeça, ainda sentia aquela tontura, talvez o sangue não estivesse irrigando a cabeça direito, talvez seja efeito dessa alimentação controlada, essas horas uma cervejinha iria bem, só para dar uma inebriada no sentimento, na verdade queria mesmo era uma garrafa de whiskey, serve até cachaça! NÃO! Está sóbrio já faz dez anos, e se não fosse por isso, estaria enterrado ao lado de Daniel. Quando tudo isso começou? Mal se lembra, realmente foram tempos muito loucos, ainda mais quando conheceu Geraldo, Felipe e o resto dos Mortos, nós da Ampulheta ainda éramos novos no meio e nem tínhamos idéia do que existia de doideira nesse mundo. Foi um pouco antes disso, foi quando Daniel me presenteou com aquele órgão... Hammond-B3... paixão de infância, eu ficava tentando tocar num desses que tinha no bar perto de casa. Uma lembrança muito engraçada surge desse dia, ele chegando na casa que Daniel dividia com Ricardo e o resto da trupe, Cláudio, Jaime e Bruno. Violão nas costas e uma pequena mala na mão.
“Gório! Você veio mesmo! Pessoal era justamente dele que eu estava falando ontem. Meu irmão, Gregório. Ele vai canta.” Daniel realmente botava fé, acreditava em mim, Jaime e Bruno olharam com aquela cara de que tudo estava bem, e lógico estavam sedentos para fazer um som. Apenas Cláudio e Ricardo questionaram “Ele sabe cantar mesmo?”, Daniel já foi mandando, “Gório, canta aquele blues do Son House aê, Grinnin’ In Your Face! Mostra pra eles o fazíamos lá na nossa cidade!”
Eu soltei a garganta, era o que eu sabia fazer de verdade, o violão só me ajudava a compor e fazer um andamento, quem tinha a prática era o Daniel, ele era o apaixonado pelas cordas, e eu pelas teclas. Abriu um sorriso para esta lembrança. Sentia-se feliz, e afortunado por ter participado de algo tão grande. Lembra daquele dia, com gosto, ainda mais pelo presente, Daniel o chamou para a sala de ensaio e falou “Para você entrar na banda, só tem uma condição a cumprir agora, aprende a tocar aquela porra ali!”, Daniel ria, quase ao ponto de se mijar, teve que ir ao banheiro, Gregório lembra da risada do irmão, em tom de desafio, mas ele estava rindo demais por ver o irmão mais novo chorando de alegria, parecia criança quando ganhava uma bicicleta, levando em conta que na década de 60, uma bicicleta era para poucos, assim como um Hammond-B3 de madeira, aliás, é para poucos até hoje. Daniel voltava do banheiro, Jaime e Bruno entraram na sala riram junto, e o último estendeu a mão “Júnior, levanta aê! O lance é o seguinte, pega esse livro aqui, e destrincha, você tem dois dias para aprender alguma coisa, esse fim de semana não terá ensaio, precisamos trabalhar, ok?”, Jaime batia nas costas do novo membro, gargalhando, e dizia que “Tudo vai ficar bem, você vai dar conta. Daniel disse que você tem umas composições, por que não passa para a tecladeira?”, “Vou tentar, dois dias né?”. Ricardo entra na sala, “Dois dias, e dois baseados, presentinho para você, seja bem vindo de volta ao sul! Mas estude antes hein!”, todos riam, até o Cláudio encostado na porta.
“Foi assim que começamos, foi assim que comecei.”
A doença veio a ele devido aos anos desregrados, mas ele não se arrepende disso, pode se arrepender de outras coisas, mas não dos momentos divertidos, do começo de tudo.
“Gório! Como está meu querido? Esse repouso está um saco né?”
A voz de Felipe, Deus, quanto tempo não o via, já fazia mais de um ano! Felipe é companheiro de longa data, daqueles tempos loucos de verdade. Oito anos mais velho, e passou pela mesma operação doze anos atrás, transplante de fígado, Hepatite C. Hoje ele faz campanha sobre doação de órgãos, doze anos após o transplante, está inteiro. “E aí, está pronto para tomar umas geladas? Trouxe umas latas aqui para você e...”, Gório arregalou os olhos “...calma é brincadeira!”, levanta uma garrafa térmica. “O médico disse que chá era permitido, garanto que este aqui vai te fazer viajar longe! BRINCADEIRINHA!!!”, sempre o piadista, as drogas ficaram para trás já há muito tempo, ambos são sobreviventes da época do Amor Livre, Natureza, Paz, Música e Revolução. “É erva mate, meu amigo.”
Coçando a barba, balbucia umas palavras “Pô Felipe...”
“O que foi meu?”, olha para Gório, enquanto serve chá na caneca.
“Você é foda hein! Cada brincadeira! Não posso ficar dando muita risada, porque eu sinto puxar esses pontos de merda!”, Gório ri leve, para descarregar a tensão, “Dê-me esse chá, por favor.”
“Ahhhh... o sulista aprendeu a ser educado com o tempo hein! Está até falando “por favor”! Tudo bem, entendo a situação.”, Felipe lembra de todos ao seu lado, tanto no transplante, quanto no câncer de próstata, oito anos depois, azar, MUITO AZAR, pensa, mas a sorte bateu de novo na porta e lhe concedeu mais um tempo, e ele está aproveitando bem, não aparenta setenta anos. “Lembro de vocês todos me visitando, até os moleques, como estão?”
“Estão bem, vieram me visitar já. Aparecem todos os dias.”, pensa como é bom conversar com um amigo vivo daquela época. “E a família como vai? E a OUTRA família?”
“Estamos todos bens, ainda bem, mandaram desejos de melhores e virão te visitar depois. A OUTRA família está bem, o Roberto e o William me disseram que já passaram aqui, e o Michel vai dar um pulo aqui amanhã. Vamos nos juntar para uma temporada, sabe como é, né?”, Felipe faz uma cara feliz, mas triste ao mesmo tempo.
“O Geraldo faz falta na banda né? É como o Daniel, os dois eram meio que guias espirituais... o que será que acontece com esses guitarristas?”, ri leve, pois lembra das duas bandas tocando juntas perdidas em qualquer canto do país.
“Ele faz falta sim, o Ronaldo também, cara acho que todos que já se foram fazem falta... o Bruno era um que vocês adoravam e se foi um ano depois do Daniel, e quase no mesmo lugar... eles eram família.”
“Pois é... mas o Geraldo e o Daniel realmente sabiam como mover, nos levar para a frente. Se não fosse pelo Ricardo, eu teria parado lá mesmo, teria feito o mesmo que vocês, terminado a banda e faria algo sozinho...”, mas foi melhor assim, pensou.
Felipe ria, “Desculpe-me, mas você lembra daquela noite que o Geraldo ficou alucinado e não parou de solar e de repente o Daniel se juntou e os dois ficaram numa conversa muito doida? Aquilo foi mágico, e era engraçado pois eles pareciam crianças...”
Realmente tinha sido uma noite mágica, praticamente três bandas no mesmo palco dando o melhor de si num bis de quase uma hora. “Rapaz, éramos para esquecer aquela noite, depois de tanta porcaria no camarim! Mas não dá, foi mágico! A banda do Pedro subia junto, quando vimos tinha cerca de dezesseis ou dezessete pessoas mandando um improviso!”, nunca mais se repetiu... “Nunca mais aconteceu... o Pedro enlouqueceu logo depois disso né... mas que momento! Guardemos as coisas boas, de ruim que fique só as saudades!”, Gregório não escondia o sorriso, contente por ter participado daquela noite, contente por tudo que teve.
Felipe concordou e acrescentou “Vamos, beba esse chá, branquelo! Daqui a pouco chegam as suas bolachas de papagaio.”
O tempo passou, e memórias encheram aquele quarto de hospital, coloridas, alucinógenas, piadas, coisas boas da vida, ambos sabem o quanto foram bem afortunados, o quanto se passou até estarem onde estão. Ainda não é hora de acabar.
“Está no fim do horário de visita, tenho que ir”, fechava a garrafa, “mas volto amanhã, trago algum livro para você?”
Gório pensou, não sabia o que ler, ficou na indecisão, e por fim decidiu “Me traga uma escaleta, um caderno e uma caneta, ainda posso assoprar. E me faz mais um favor, me traga a nova edição do Batman, quero ler qualquer coisa, com figuras, livros eu posso ler em casa, lá as paredes não são brancas.”, Felipe riu junto.
“Tudo bem, amanhã eu trago! Durma bem. E para você tem uma surpresa aí na gaveta do criado mudo. Tchau!” saiu rápido como se tivesse algum compromisso.
“Surpresa!?” Abriu a gaveta e viu, não poderia ser, maconha? Ele bolou um baseado? O filho da mãe trouxe maconha para o hospital? Só pode estar de brincadeira! Cheirou o cigarro, mas não tinha cheiro de maconha, pelo contrário, ele sempre falou que a comida de hospital era ruim e sem graça, ainda mais bolachas água-e-sal... é um cigarro de chocolate. Gregório ri, sente dor, mas ri mesmo assim... “sempre o brincalhão... esse não tem jeito...”. Mastiga o chocolate, e se acalma do riso. Amanhã é outro dia, mais um dia, ainda bem.

--

Gregg Allman, um dos músicos que mais admiro, passou por um transplante de fígado recentemente. Decidi fazer esse pequeno conto/crônica, sobre ele como paciente em recuperação, conversando com Phil Lesh(outro ótimo músico, que passou também por transplante de fígado) sobre os bons tempos, onde a Allman Brothers Band se juntava com o Grateful Dead e até o Fleetwood Mac no mesmo palco, mandando jams em shows de mais de três horas de duração. E lógico, uma pequena piada com os famosos "cigarros de chocolate", que eu comprava quando criança.
Aqui está o link com a notícia: http://kissfm.com.br/noticias/gregg-allman-passa-por-transplante-de-figado/

Que músicos como ele e seus amigos vivam por muito mais tempo.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

De repente

Papel, caneta e violão.
Canção escrita agora,
fora com essa careta,
não é cordel do sertão,
um pouco mais demora.

Dedilha aquele acorde
ouvindo o doce som.
Até chama uma matilha
que ladra mas não morde,
vindo só cão do bom.

Logo a tinta foi vazar...
Um borrão no esboço,
é osso, duro de roer!
Essa carne de pescoço
que não posso marcar.

Era para começar em Dó.
Tentei, mas não deu pé.
A harmonia ainda é pó,
cantei a nova melodia.
Mudei, vai ficar em Ré.

No bater da minha bota
sigo um novo compasso.
Late um cão ao meu lado
que desata o meu cadarço,
enquanto canto outra nota.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cuidado com a foto

Vá lá comprar
aquele elástico,
porque vai precisar
prender esse plástico.
Uma, duas voltas,
a terceira não dá,
o maldito estoura.

Então pegue um
daqueles barbantes.
Dê voltas e faça
um nó num
breve instante.
Que fique apertado
e nunca desatado.

Agora esse canudo
está preso direito?
Não causará efeito
aquela foto em desnudo.
Mas e se a verem?
Trate de ficar mudo,
ela não pode saber.

E todos que a viram
ficaram fascinados.
Quando ela passear,
ficará ressabiado.
E outros assobiam...
Quem mandou errar?
Então tome cuidado.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ao Sr. José

Meus heróis estão morrendo
um por vez
caindo
cedendo
desistindo
nessa insensatez

E lá se vai o grande humanista
sempre cético
comunista
escriba ibérico
dos ateus
sempre sem deus

E isso nunca importou
apenas para a igreja
irrelevante
só almejou
mas adiante
nunca festeja

E mesmo sem fé divina
ele acreditou
em liberdades
e relatou
na mais fina
de todas as verdades

Ele fará parte da lista
dos heróis
literários
sempre feroz
cronista
humanitário

Sempre terá respeito
da memória
nada apago
nada desfeito
na história
do gênio Saramago.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Faltam-me dedos!

Ser bom só me trouxe problemas; resolvi, depois de alguns anos sendo o filho da puta, insensível e cafajeste da turma(palavras de meus amigos, não minhas, pois eu me considerava uma pessoa livre, apenas), me tornar uma pessoa decente, parar com as loucuras e exageros, ficar mais em casa com a família, ser mais responsável, trabalhar melhor, etc... mas a vida ficou um saco. E decepções atrás de decepções só pude concluir que o bonzinho é quem sempre se fode, acaba ficando para trás e, no fim, assim como eu, acaba amargo, possesso, e puto com tudo nessa vida.
Não me leve a mal, mas ser o cara bom só me trouxe decepções, e por mais que não queira, ainda sou bonzinho as vezes, e continuo me arrependendo disso, e o pior é que comecei a contar com os dedos das mãos, dos pés... faltam-me dedos! Bom, quase, ainda me sobra o dedo-médio, aquele que vou levantar com o punho em riste, voltado à face de quem merece, para dizer com todas as letras, sílabas e fonemas: "VÁ TOMAR NO MEIO DO SEU CU!"
Aí posso ficar sossegado, porque todo mundo tem que ser sincero, e estarei sendo, com qualquer um.
Depois de duas semanas completamente cheias de coisas que não gostaria que tivessem acontecido, resolvi parar de discutir, de ajudar, de me importar. Lembrei o que é viver para mim.
E te digo, meu caro, é muito bom estar de volta!

Solidão finita

Demorou, cerca de dois, ou três anos para dar chance ao coração, não sabia como, nem por onde começar, não sabia. Uma coisa sabia, sem falta, sem erro, sem desculpas, deveria haver sinceridade de sua parte, como sempre houve, nos casos e descasos que houveram, "não quero compromisso", deixava explícito logo no começo, evitava se apegar a motivos distantes, ainda mais quando distância era um motivo grande e longo (era por este e outros, que o último relacionamento acabara) e maldito. Antes havia decidido se deixar levar, não se prender, e de súbito em um mês, após tanto tempo de loucura, bebedeira, amizades, sexo por sexo, amor sem amor, embriaguez mental e emocional, a realidade lhe bateu na face, como um tapa, daqueles que deixam as marcas dos dedos nas bochechas, e era dolorosa, uma verdade doída lhe atingia colérica em seu peito: estava só.
Para desvencilhar deste sentimento, resolveu sair, passear ao pouco de luz do Sol que lhe é permitido num dia de inverno. Frio inverno. Talvez seja pior que o inferno, mais danoso e mais sofrível que qualquer um dos nove círculos que Dante percorreu, muito dantes de hoje percorrer pelas ruas qualquer reles mortal colocando em prática cada pecado. E assim é este inverno infernal por onde tenta passear e pensar algo fora da esfera da solidão. Mas há o bombardeio, figuras e imagens de casais felizes, chocolates, roupas, jóias e diversos presentes para namorado e namorada, casados inclusos, pois nunca deixaram de namorar, apenas os infelizes e os conformados. E isso lhe atormenta, traz lembrança de quem amou, de quem se foi, e a data de Doze de Junho está próxima, para lhe atormentar mais significativamente. O amor virou consumismo, virou babaquice e banalidade, aquela idiotice que todos pensam que vai salvar a vida do universo, evitar desastres e guerras, e trará paz, no entanto traz ciúme, traz saudade e traz até solidão. O amor é uma faca de dois gumes, pronta para cortar qualquer sentimento bom e qualquer sentimento ruim. Será que vale a pena todo esse sofrer?
Decide voltar para casa, e voltar para o que não pode trair, e assim volta. De mente refeita de que essa solidão vai passar, com companhia ou não, passará.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Deslizes

Duas vezes eu tive como
E nas duas eu escorreguei
Poderia dizer mil desculpas
Mas ainda morreria de culpa

Vejo dois patinhos na lagoa
e me odeio, não é a toa
Ódio a quem outros magoa
Matei os dois em um tiro

E daqui, idiota eu retomo
desse ponto cego onde errei
lembro dessa maldita distância
e de uma louca discrepância

Mas são elementos semelhantes
com seus movimentos vacilantes
e seus traços fortes e importantes
Distante de vocês me retiro.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Painting you

I - Remembrance

I have a portrait
in my living room.
I held it with faith,
and now flowers bloom.
So soon came the spring.

I wished it was a kind
of a Dorian Gray,
but it always comes in mind,
your face didn't fade away
since the time I saw you sing.

I have been told
to sell this painting,
but it never gets old.
Stills fresh and saying
words that make us cling.

Sitting beside the pond
to feed the birds,
my mind flies beyond,
while I throw pieces of bread
out of this bag I bring.


II - Heathen

In ancient times
of darkened skyes,
I've written rhymes
without lies,
about fortune
and about bad luck.
Singing a tune
while feeding a duck.

One of those
was about your hair,
Red as fire
which consumes the air,
while your attire
was left on the floor
and you posed
for me, naked at the door.

I had to paint
you in a canvas blank,
lifeless and pure.
Beauty that still allure,
far from a saint,
say words, likes to prank.
I've lost my mind,
left all the colors behind.

The only one left
between our bodies is red.
Your braids in pair,
just turned in fiery waves.
You moved oh so deft.
Loose, your phoenix feathered
hair lashed me fair.
For my flesh a nail craves.

I kissed your scarlet
lips like an apple forbidden.
Felt your theet on my shoulder.
My body you claim, be holder.
By me your deep feelings
are strongly ridden.
And of all my paintings
you're my magnum opus yet.

And you walked around
showing you pretty thighs,
making me cross any bound.
You loved to hear our sighs
when you gave us your back.
It was easy to follow your track
and hard to know when you'd talk.
For no one you'd stop your walk.

Your figure on nude
would inspire every suicidal
to stay alive on your breast,
lay on your womb on the last breath,
say words of savage love and death,
And into peace die at last.
I rather live for your memorial,
as everyone should.


III - Rest

Now I wait for my hour
patiently, to see you again.
And the wine now taste sour.
Maybe it will all end in pain.
I have hallucinations,
feel your hot breath in my nape.
Of all the expectations,
I see your hands, I see grapes.

Death touched you by request,
in your fatal mix.
Now I feel the cold in my chest
and I count to six,
Couldn't make to ten.
I see you calling me, pulling my arm.
Suddenly appears a new place, a farm.
And finally I drop my pen.

--

Tentando algo diferente.
Por favor, me avise se você algum erro, ok?
Obrigado! :)

-

Trying something different.
Please tell me if you find any mistake, ok?
Thanks! :)

sábado, 22 de maio de 2010

Oi

Garota morena
de blusa xadrez,
Linda e serena.
Chegou a minha vez.
Lhe escrevo
esse poema
enquanto te vejo.
Tenho esse problema
minha mão
se remexe
se move
a visão
me fere
me comove

Mesmo que sua visão
me transforme
me torno
escravo da paixão
onde sentimento chove,
me reformo
largo meus vícios
para sinceramente
lhe falar
meus suplícios
e calmamente
te chamar
para sair
quero seu telefone
para curtir
me fale seu nome

terça-feira, 18 de maio de 2010

Música metamorfose

Essa canção eu canto
para ninguém no entanto
pois também estou só,
embora não sinta dor,
a solidão não tem dó,
no coração sobra torpor.
Ainda tem calor no outono
e o amor está com sono.

Essa canção era um blues,
mas com ira se torna rock,
rebelde e forte
e até incita morte.

Solitário é este solo
que com mil notas extrapolo,
de percussão descompassada,
coração em contraponto,
essa base arritmada
vem de "bate e pronto".
A calmaria tem um riso
leve, suave improviso.

Agora o que era jazz
se renova em bossa,
com alegria de samba,
não tem choro nem fossa.

De loucura e megalomania
surge a longa sinfonia,
onde a fúria é maligna
e o ciúme é ferido,
amor sempre perdido
e a amada é divina.
Épico platônico eufórico.
Opera exalta o ato heróico.

A sabedoria está na erudita,
com notas belas e malditas.
Clássica e visceral.
Eterna e infinita.

Seja qual for o gênero,
música é algo efêmero,
confusa no bebop,
fugaz e fútil pop.
Mas é pura composição,
que traz dor e solidão.
Pura alegria e celebração,
e nunca carece de inspiração.

domingo, 9 de maio de 2010

Um caso anual

Já é Segunda-feira, Domingo explodiu em milhares de pedaços e foi devorado pela areia temporal que insiste em cair afunilada. Sim, alguém virou aquele artefato rústico, antigo e que teve muita utilidade nos tempos antigos, antes de vovô e vovó nascerem, bem antes. Aquela ampulheta perdida em algum canto foi tocada, manipulada e há cinco minutos recomeçou a sua contagem, ao deslizar de grãos pelo seu interior, passando pela sua cintura fina e chegando ao seu fundo, se amontoando. Se possui sentimentos, imagino que seja de náusea, pois os grãos formam uma montanha que deve irritar qualquer estômago, mas como é um objeto, não deve ser lá muito emotiva.
Mas é culpa dela?
Será que conspirou contra o Domingo?
Assassinou mais um dia?
Não! Assim como uma arma, esta ampulheta é apenas uma ferramenta. Ela tem que ser manipulada por alguém. Alguém consciente do que faz. Alguém com um crime premeditado. Este alguém é frio e calculista, mas não se revela, nunca. Apenas temos dúvidas e nada de respostas sobre sua identidade... e talvez estejamos errados, pois podem ser mais de um elemento.
Mas o que teria Domingo feito para merecer tal castigo? A vítima era responsável por alguma atrocidade? Convenhamos, dia nove de Maio de dois mil e dez, dia das mães. Um paradoxo se segue e todo ano acontece este assassinato. Seja por uma criança atrevida que não respeita aquela que a gerou, seja por um adolescente revoltado e querendo chamar atenção, seja por um adulto que larga a mãe sem cuidados, mesmo quando viúva.
Domingo, seria sua culpa ser o "dia das mães"? Seus colegas no calendário não tomam partido algum em homenagearem estas que trazem vida ao mundo, e não tem culpa pelo término de sua existência. Portanto tu és o único com coragem de se entregar de peito aberto.
O teu assassino deve ser o mesmo que nos tira a vida, e se for, um dia terá que se explicar com todos. Cada um de nós tem uma ampulheta, e a minha talvez esteja longe de ser virada, mas quando virarem, estarei questionando, mesmo conformado com a única certeza, nada será em vão, nem a sua morte.
Obrigado por ser o mártir deste ano, tens o meu respeito.

Minha mãe sempre terá meu amor.
:)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Futebol, música, livro, filme e ciclos...

Esse dia fatídico, 5 de Maio de 2010, dia em que eu acordei para terminar algumas atividades. Dia em que o Timão acordou do sonho de, no seu centenário, ganhar a taça Libertadores.

Eu não costumo ser supersticioso, mas fico pensando no que me ocorreu durante o dia, e tudo de alguma forma tem algo relacionado com fim de uma fase, e começo de outra, transições... Acordei em jejum, pois tinha que fazer uma coleta de sangue, coisa trivial, mas é a ÚLTIMA de uma série de coletas de sangue. Após isto, ACABEI com o meu jejum, ou melhor dizendo comecei um desjejum, foi uma transição. E mais tarde fui no ortopedista, para começar uma série de consultas. Contando tudo isso, parece até que sou uma pessoa muito doente e hipocondríaca, mas longe disso, são só exames de praxe, e quanto a consulta ortopédica, bem, é fruto de uma partida de futebol com os amigos no último sábado. O meu único mal, realmente, neste momento, é ser o que escolhi desde pequeno, ser Corinthiano, ser sofredor, ser "LÔCO", e nunca abandonar, nunca deixar de torcer.
Sei que muitos nem ligam tanto para futebol assim, muito menos para superstições, mas será que fiz certo em finalizar algumas coisas logo hoje? Por exemplo, terminei de ler "Laranja Mecânica", livro do Anthony Burgess, mas será que deveria ter esperar até amanhã para terminar a leitura? O fim do livro, é uma transição(olha ela aí de novo) da 'jizna' 'nadsat' de Alex, cheia de 'ultraviolência', 'veshkas voni graznis', 'molokos' entupidos de drogas, Nonas de Ludwig van, 'druguis' traiçoeiros e diversões, para a vida adulta, responsável e familiar. Este último capítulo foi excluído das cópias americanas, de onde foi tirado o roteiro do filme de Stanley Kubrick, então é algo novo, e vou parar por aqui, pois não quero estragar a leitura de ninguém. Posso relacionar ao ciclo que o Timão encerrou(Copa Libertadores 2010), como Alex, e irá iniciar, no Campeonato Brasileiro deste ano, e amanhã eu começo um novo livro, "Clarissa", de Erico Veríssimo, pois preciso ler algo mais humano e menos caótico.
Está acompanhando a superstição toda?
Então tem mais uma, cheguei em casa e assisti "The Last Waltz"(juro, não sei como essa mídia ainda não derreteu de tanto que já assisti o dvd!), o último concerto da The Band em sua formação completa e original, e para mim, o melhor show de rock já gravado em vídeo com diversos convidados de alto calibre(Bob Dylan, Neil Young, Van Morrison, Eric Clapton, Muddy Waters, Ron Wood, Ringo Starr, Joni Mitchell, Emmylou Harris, e mais alguns...), a direção impecável de Martin Scorsese uma celebração completa, e mesmo que bonita, triste em sua essência. Robbie Robertson(guitarra e vocais) não agüentava mais sair em turnês(hoje em dia ele compõe e produz trilhas sonoras para filmes, sendo requisitado pelo já mencionado Scorsese) e queria sossegar em casa; Richard Manuel(piano e vocais) não agüentou muito, foi o primeiro a sucumbir e se despedir do mundo, vítima de uma vida desregrada de bebedeira, resolveu se suicidar, se entupindo de cocaína, tomando uma garrafa de Grand Marnier, e se enforcando logo após; outros já estavam começando a vislumbrar carreiras solo, Rick Danko(baixo e vocais) foi o primeiro a seguir em frente, lançou um disco solo e nunca mais parou, continuou fazendo turnês até falecer em 1999, devido a problemas no coração; Garth Hudson(teclados e metais), o mais introspectivo, também seguiu solo, mas de um jeito mais intimista, e se tornou um músico de estúdio bem requisitado, até hoje é o mesmo barbudão, mago nos teclados; e para finalizar, Levon Helm(bateria e vocais), assim como Danko, nunca parou, e ainda não dá sinais de desgaste, e hoje em dia já conta com um estúdio onde bandas disputam a agenda para fazerem shows especiais(tem espaço para audiências de até 200 pessoas) e gravarem discos, e já até atuou em filmes e não para de lançar discos e fazer turnês. Enfim, a The Band começou como banda de apoio de Ronnie Hawkins e foi ao sucesso quando virou banda de apoio de Bob Dylan, que estava procurando uma banda para sua primeira turnê "elétrica"(olha só a transição de novo!) , e seguiu lançando com eles o famoso disco "The Basement Tapes"(OUÇA! É OBRIGATÓRIO!), e a banda acabou por ficar grande por si própria e seguiu separada de Dylan, até o seu término na sua última valsa. E assim finaliza mais um ciclo.
E aí, temos os cem anos do Coringão. Um ciclo se encerra, um século se conclui, e uma transição se passa neste momento, não tão alegre como eu desejava, mas faz parte. Essas coisas que só acontecem no futebol, afinal tudo é resolvido em detalhes entre quatro linhas. Nem adianta ficar discutindo o que deu errado, já passou. Mas gostei do jogo que vi, da força de vontade, da garra e da entrega, para jogar no Corinthians, ao meu ver, o jogador tem que mostrar 'raça', força de vontade, e paixão pela camisa(o que é raro hoje em dia), e eu vi tudo isso(pela TV, infelizmente) e mais, vi uma torcida, mesmo chateada com a desclassificação, cantar e exaltar o desempenho do time em campo, e fico feliz, pois em meio a tanta violência(o Alex 'nadsat' iria adorar morar num Brasil cheio de 'ultraviolência' entre torcidas, trocando 'toltchoks' e vendo 'krovi' escorrer...) que temos hoje no futebol, é raro ver uma torcida comportada e mesmo na derrota, ter orgulho da camisa que veste.
Será que a minha superstição tem fundamento? Talvez não, não saberia explicar, nem um milhão de anos como eu posso relacionar tudo isso com a desclassificação do Timão na Libertadores, apenas foi um pensamento que passou pela minha cabeça, aquele velho e bom "e se..." que sempre volta a atormentar.
Não adianta, a única explicação decente é a velha máxima: Futebol é uma caixinha de surpresas.

Hoje começa um novo ciclo, e lá vou eu seguir em frente com algo novo, mas para sempre corinthiano, torcedor, sofredor, "LÔCO" e que nunca vai abandonar a camisa.

VAI CORINTHIANS!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A sailor and a waitress

It's about a feeling between two persons:
A boy, stranded and haunted by vultures;
A girl, full of joy, giving bread to pigeons.
The distance between them is a matter of cultures.
Different and significant both are,
from each other they still live so far.

Like a nymph, she would enchant you around her,
perhaps more a mermaid who sings hypnotizing you.
He always dreamed about her being together
with him, who felt that dreams can come true
to anyone, it's only a matter of efforts and wanting,
but it leaves him waiting and longing.

She maybe doesn't care so much, or at all
about this foolish sailor, he's leaving land.
Her feelings can't grow to someone without home,
it must have, at least, some time to spend
in her company. And in love he must fall
for her only and nobody else in the future to come.

One day prior to his departure, he decides to write,
while sitting in the harbour, a letter to his parents
about this two year sailing trip on this merchant boat.
He says he'll be alright, they don't have to worry, he'll survive
the trip. Sudden the girl notice he's freezing while writing sentences,
He went outside the pub where she works and forgot his coat.

She came to him, suddenly their eyes meet,
but it's late, they can hear the whistle blow
Things have been said, now it's time to go.
Every night she prays, standing on her bare feet.
He promised her, in two years he'll return.
One year has passed and his candle still burns.

--

Demorei alguns meses(escrevi em Outubro de 2009) para rever este poema, estava guardado numa gaveta e fiquei surpreso, pensei que tivesse parado no lixo.
Não tinha essa última estrofe, escrevi agora, acho que não tenho melhor maneira de concluir, senão eu acabaria deixando muito longo, este final está apropriado.
Agora vou começar a escrever mais em inglês, é interessante trabalhar rimas com outra língua. E se achar algum erro, por favor me corrija.
:)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

DIRPF

Penúltimo dia para fazer a declaração do imposto de renda. Eu aqui matutando, me esgueirando entre notas, recibos jogados no chão, aquela loucura toda de quem adiou, e adiou, e adiou mais um pouco, e só para não falar que deixou para a última hora, resolve fazer o inevitável(ninguém quer cair na malha fina) um dia antes do prazo limite, para satisfazer esse orgulho babaca, poder bater no peito e falar "Eu fiz e deu tudo certo! Não tive problemas nem para enviar! Sabem como é, por mais que seja confiável, desconfiamos dessa coisa de transmitir dados monetários via internet...", uma antítese simples, embora verdadeira, não conheço quem fique tranqüilo em 'mexer com dinheiro' na internet, sempre fica aquela pulga atrás da orelha dizendo sobre os milhares de malefícios, vírus, hackers, e por mais que tenha um computador seguro, temos que contar ainda com o bom senso de acessar sites seguros, é tanta segurança que não dá para ficar tranqüilo. Mas eu no meio dessa papelada espalhada pela sala me pego pensando a quantos anos eu liguei o 'FODA-SE', menos para o imposto de renda, já ouvi histórias, não quero ser alvo da lei, muito menos transgressor.
De um lado a pilha do convênio médico, próximo, os montes de recibos de dentista, de psicólogo(ei, no meio dessa loucura que vivemos, alguém pode ajudar a organizar a cabeça), de previdência privada, de consórcio, contas em geral e afins... tive que colocar uma grade na porta da cozinha para o cachorro fazer companhia para minha esposa enquanto ela faz o jantar(adivinhe só, ela já fez a declaração do imposto de renda dela... NO MÊS PASSADO!!!)
, aquele cheiro... só pode ser macarrão... FOCO! Voltando a declaração! Enquanto rola um álbum do Wilco(A Ghost Is Born, mais precisamente, minha esposa diz que é um porre... eu gosto) no som, tento me organizar e calcular tudo, e toma anotação daqui e anotação de lá, como dinheiro tomou conta das nossas vidas? É só trabalho e dinheiro, trabalho e dinheiro... olho a conta do psicólogo(de novo ele!), R$200,00 ao mês, para me ajudar numa loucura que me aflige, num medo maluco de fazer as coisas, e eu nem sei o que é isso, mas estou melhorando. Dentista, R$75,00 ao mês... Água, luz, telefone, TV por assinatura e internet... a conta mensal da casa já passou dos R$1500,00, contando com combustível do carro, previdência privada, cursos disso, passeios daquilo, e eu nem contabilizei ainda o gasto com o cartão de crédito, compras de supermercado, empregada(ambos trabalhamos, não posso deixar na mão dela, esposa, a faxina toda), penso que essa declaração vem uma vez ao ano para, além de tirar mais dinheiro do contribuinte, lembrar o quanto a nossa vida chega a ser miserável, corrida, e o prazer de viver fica em segundo plano. Quando foi a última vez que viajamos? Quando foram as últimas férias que tiramos juntos? Não. Não posso me permitir levantar questionamentos agora, ainda dá para terminar essa declaração antes do jantar.

Ouço ela falar da cozinha:
- Amor! Você quer molho bolonhesa?
- Hã!?
- Você quer molho bolonhesa?
- Ah... sim, claro!
- Vai demorar muito para acabar a declaração?
- Só mais alguns minutos...
- Devia ter feito como eu, no mês passado, com calma...
- EU SEI! Não precisa ficar esfregando na minha cara!
- Nossa, mas você não precisa ser grosso assim.
- Me desculpe, estou calculando e me afogando no meio deste monte de papel, e está uma loucura, mas acabei de pensar em algo, - sucumbi à
distração, não havia como não - podíamos marcar de tirar férias juntos daqui uns três meses, que tal? Apesar que você vive ocupada no escritório, você acha que consegue reservar umas duas semanas?
- Querido, posso ver na agenda, e você consegue duas semanas? E pelo amor de Deus, dá para trocar esse disco?
- Respondendo as duas perguntas: Sim... e NÃO! É o único momento no dia que posso ouvir alguma coisa sossegado e você vem pegar no meu pé!? Faça-me o favor!
- Olha aqui, eu não pegaria no seu pé se fosse algo legal, mas é um saco ouvir isso.

E o diálogo segue nessa linha, estranha, rude e ao mesmo tempo amável, uma discussão estranha no meio de uma conversa sobre planos. Acho que casamentos tendem a chegar nessa estranha situação como o meu chegou, onde
cinqüenta por cento do que é falado é implicância e discussão, e os outros cinqüenta por cento é amor. Mas quando chega o silêncio, simplesmente não há necessidade de palavras, só a necessidade do próprio silêncio, do olhar, do toque, da paixão... Cansei, os valores estão anotados, não demoro muito para colocar no sistema, farei isso quando ela estiver dormindo. Atropelo a papelada, já desorganizada, abro o portãozinho e coloco o cachorro para fora da cozinha, fecho a porta, e a vejo colocando o macarrão para esquentar, a abraço por trás e beijo seu pescoço.

- Agora não... isso faz cócegas! - ela ri como uma adolescente e pergunta - E a declaração?
- Resolvi dar umas férias para ela. A única declaração que tenho que fazer agora é: eu te amo.

Como pode imaginar, o jantar atrasou um pouco,
bagunçamos um pouco a cozinha... ela vestiu a minha camisa e se levantou, se alongou, bocejou e sorriu como se tudo estivesse melhor naquele dia. Teve que refazer o molho, mas nem se importou, até que tentei ajudar, mas não tenho talento para a cozinha, se fosse para lavar o carro... enfim troquei o disco, coloquei o do Chico Buarque que ela tanto gosta, e pude ouvi-la cantar enquanto arrumava a mesa. Jantamos e conversamos sobre os planos de nossas férias. O cachorro já está dormindo na casinha.

Agora termino essa declaração de imposto de renda, sem problema algum, enquanto ela cantarola "A Noiva da Cidade" e lava a louça.

- Amor, vamos para a cama? - me pergunta se recostando no batente da porta, com o sono estampado na cara.

Clico no botão 'Transmitir', e deixo o computador ligado.

- Vamos linda.


--


Eu estava fazendo a
DIRPF de 2010, o famoso Leão, e me veio essa cena na cabeça. E talvez eu continue a escrever sobre este casal.

Lembrando algo que um amigo meu dizia: "DINHEIRO É PAPEL!"

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Atitude

Mais uma vez me pego escrevendo
para uma desconhecida.
Me pego aqui bebendo
mais uma garrafa vencida.

O vinho se tornou vinagre.
A taça do que era tinto,
agora o aroma finto,
pois cheira azedo bagre.

Minha demora é banal,
ridícula e trivial,
mas estranhos se conhecem
e mágicas assim acontecem.

Provoco olhares raivosos,
todos me estranham.
Quase que me apanham,
os deixo nervosos.

Que vão aos diabos!
Não tenho o que temer.
Doa a quem doer,
sentem-se em quiabos!

Pergunto qual é o seu nome,
ainda não quero seu telefone.
Quer saber meu pronome,
é "Senhor", de renome.

Não é egocentrismo,
é apenas a verdade,
pois como tal Veríssimo,
preza por realidade.

E mesmo que não te leve,
pelo menos lhe disse.
Aqui não tem nada de neve,
mas fiz com que me visse.

E talvez um dia lembre
ou talvez esqueça,
mas pouco importa sempre
que a atitude prevaleça.

--

Poema escrito numa mesa de bar, assim como tantos outros, meus e de outros tantos. Talvez os garçons achem que sou maluco, sempre pedindo caneta emprestada para escrever em guardanapos, folhas de comanda, nota-fiscal, etc, mas nunca pedi para entenderem, então não faz diferença, é apenas um detalhe divertido.
O verso que eu citei "Veríssimo" é uma brincadeira com o significado da palavra, o sobrenome do Sr. Érico, fica melhor explicado no verso seguinte, onde fica clara a referência, mesmo este sendo membro do Modernismo(pelo que me lembro...), ainda acho que sua escrita é tem muita influência do Realismo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Vire o disco!

Por que ser diferente e peculiar?
"Você usa ainda o mesmo telefone,
já fazem seis anos esse celular!"
Não tenho motivo algum para mudar,
ainda funciona para conversar,
seja com você ou outra pessoa
então você está reclamando à toa.
"Mas você é sempre avesso a mudanças!"
Não é verdade, é simplesmente questão
de prioridade, nada comigo é em vão.
Você não está feliz com suas compras?
Estou contente com minhas experiências.
Deixa eu colocar uma bolacha no som,
você pode apreciar melhor as cadências,
progressões, força nas notas das trompas.
"Volume alto assim sem distorção?
Como é possível? Eu sempre preferi
coisas modernas e práticas, na mão."
De que adianta? Celular é para telefonar,
não para ouvir música. Hora de virar
o disco.

--

Sábado(17 de Abril) foi o dia das lojas de discos e amanhã(20 de Abril - aniversário da morte de Ataulfo Alves, sambista, compositor, que para suas músicas, teve interpretes do calibre de Clara Nunes, MPB-4 e Quarteto Em Cy) é o dia do disco, eu como sou apaixonado pelo som das bolachas, resolvi escrever algo para estes dois dias, comparando o sonzinho de música armazenada em celular, na maioria das vezes em MP3, de baixa qualidade, sendo reproduzidas em fones de ouvido com o volume nas alturas. Acho que cada um curte música da maneira que quiser, mas prefiro qualidade. A praticidade fica de lado nesse caso, não suporto o som que rola no meu celular, mesmo com os fones de ouvido, acho uma porcaria, e já ouvi de modelos mais avançados e não adianta, acho que isso não é para mim.
Mas voltando as comemorações, bem comemore do seu jeito, com seus amigos, sem eles, eu vou sentar e colocar um disco para rodar no prato e contaminar a agulha com aquele ruído único que me hipnotiza desde criança, e vou aproveitar que dia 21 de Abril é feriado(aniversário da morte do Mártir da Inconfidência Mineira, Sr. Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido por Tiradentes) e comemorar com amigos amantes desta arte, que torna a vida algo correto. Até mesmo o niilista supremo, Nietzsche, disse uma frase que no fundo tem algo de feliz: "Sem música, a vida seria um erro."

É, talvez ele estivesse certo.

Então, aproveite amanhã, você tem uma desculpa para incomodar o seu vizinho! :)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

União

Sobre a igualdade entre nós,
Posso dizer que a loucura nos cega.
Esquecemos que somos semelhantes,
Diferenciados por meros detalhes.

Herdamos de nossos pais e avós
Traços e detalhes, não se renega.
Por mais que mude, é constante.
Não há o que a pulsação atrapalhe.

Porém a mente é sua apenas, mas influenciável,
Acredite no que quiser, mas sabe de onde veio.
No fim da vida você é tão morto quanto eu.

E a sua fé separatista, mesmo que inabalável,
Não terá serventia para a natureza e seu meio.
Só te separava do que nos uniu quando pereceu.

--

Um soneto sobre como não importa em que acreditamos, estaremos mortos um dia, dando vida, de alguma maneira. Um adorável e macabro paradoxo.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Contas

Estive contando as contas.
As sementes furadas,
parecem de madeira,
estão atravessadas
todas pelo barbante.

Está rodando no meu pulso
por mais de meses
e não esfacela nem desgasta,
mesmo nas violentas vezes
que se arrasta.

Duradouras, dizem que são.
Poderia plantar algo
Cultivar um sentimento
mas na forma atual
é um lembrete de tal
pessoa e evento.

Poderia colorir e secá-las,
mas não seriam mais puras,
e sim moldadas.
Deixa de ser natural
e se torna banal.

Prefiro a forma bruta,
apertando a minha veia,
fazendo o sangue pulsar
com força e avermelha
meus dedos ao inebriar.

O sangue corre lento,
o coração desacelera,
dedos calejados contam
esfera por esfera,
não são nem um cento.

Só cortando eu consigo,
o barbante me solta,
as contas caem
e o meu sangue volta,
e me livro de você.

--

Algumas pessoas são materialistas pelo fato de gostaram de acumular "coisas", outras apenas tem apego por algo que é de uma significância incompreensível aos outros, mas para ambos, quando algo perde o sentido, fere demais e não os alegra, percebem que o objeto não é mais de serventia alguma, então ou entregam na mão de outra pessoa, ou jogam no lixo ou destroem para acabar com a frustração de alguma maneira, nem que seja momentânea.

Não é uma regra, não existem regras para sentimentos. É uma situação corriqueira entre os humanos.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Adeus ao cartunista

Fui abatido logo cedo pela notícia: Glauco e filho assassinados.

O país perde um grande cartunista, alguém cuja importância para o movimento foi imensurável, pois ao invés de fazer duras críticas ao militarismo, ele simplesmente usava do humor, e influenciou muitos outros artistas, com seu traço rápido e textos simples e irreverentes. E mais triste ainda, seu filho foi junto.

Cada um tem coisas que são importantes na sua vida, e a trinca Angeli, Glauco e Laerte foi de certa forma importante na minha. Eu comecei a ler e escrever com cinco anos de idade, porque eu apenas queria entender o que estava escrito naquele luminoso da padaria perto de casa, então meus pais começaram a me ensinar o básico, e foi muito bom, pois entendia o que estava escrito nas revistas da Turma da Mônica, e conseguia ler os encartes dos discos do Chico Buarque e Vinícius de Moraes(em parte culpo eles pelo meu interesse em poesia) que minha mãe até hoje guarda(meu pai me deixou o prazer de ser mais um admirador de Pink Floyd), lógico, sempre pedindo explicação sobre uma coisa ou outra.
Mas nunca vou esquecer, numa viagem, voltando de Curitiba, meus pais resolveram comprar umas revistas e tomar um café. Eu e meu irmão fomos escolhendo e sem querer pegamos um pacote com Los 3 Amigos(Angel Villa, Glauquito e Laertón) e uma edição perdida do Geraldão(eu com 7 e meu irmão com 6 anos de idade), e ali estava a trinca numa revista grande, cheia de piadas que eu iria entender somente anos mais tarde e na outra, páginas de desenhos e personagens do Sr. Glauco. E para entender todo aquele humor subversivo? Com 7 anos de idade, em 1991(acho, não lembro com exatidão), uma criança não tinha muita idéia do que eram drogas, Apocalipse, neuras de casal, boneca inflável, sexo, política e coisas que só um adulto poderia explicar, e aí que está a parte engraçada da coisa, tinham dois adultos(meus pais) no carro que ficaram perplexos com perguntas do tipo "Pai, o que é bronha?" e "Mãe, o que é cocaína?", e claro, a hora que perceberam o que tinham comprado para os filhos(eles gostavam das revistas Chiclete Com Banana, então eles não jogaram fora as revistas, pelo contrário, liam e davam risada), foi aquele forrobodó, "Você não viu que revista que eles estavam passando no caixa?", "Achei que era alguma coisa da Disney, oras!". Com a merda já feita, espalhada em quatro paredes pelo ventilador, como resolver o enbrólio todo? Explicar assuntos adultos para duas crianças que mais se importavam em jogar futebol no quintal e andar de bicicleta? Bem, nem preciso dizer que eu e meu irmão ficamos boiando, mas enfim, tudo se aprende com o tempo, e no caso as explicações dos meus pais vieram nos anos seguintes.

Enfim, nunca deixei de ler nada desses desenhistas. E agora um deles se foi, ou melhor dizendo tiraram dele o direito máximo de qualquer ser humano, o direito de viver, e fizeram o mesmo com seu filho, que tinha apenas 25 anos. Sem julgamento, sem motivo, apenas porque era mais fácil matar do que se tornar uma pessoa honesta e trabalhadora como as vítimas eram.

Meus pêsames aos entes e amigos de Glauco e Raoni.
Meus pêsames ao humor e à cultura de nosso país, estamos ficando escassos de gente boa e inteligente.


Estou triste pois lá se vai um dos três caras que continuou a me incentivar à leitura, e que me apresentou(cedo) ao mundo das HQs adultas e irreverentes.

Paz.

--

Sem poemas por hoje.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Porque acabaram como amantes

Acorda e corre para lá e para cá,
Desenrola daqui mas enrola acolá.
Então o mundo pára estático,
Era fácil e agora é prático.

Passa manhã, almoço e já é tarde,
Acaba o expediente e dali parte
Para vê-la, sente saudades.
Na pressa, atravessa cidades.

O que quer é no caso impensável,
Talvez seja considerado reprovável,
Mas ele nunca tentou enganar.
Foi sincero, não quer namorar.

Já tem uma a quem atender em casa,
Não precisa de outra, isso atrasa.
Mas gosta dos momentos juntos,
Embora esconda isso nos fundos.

Ela chega do trabalho e toma banho,
Logo ele chega, não é um estranho.
Perfumada, passa creme na pele,
Puxa um vestido que desafivele.

Enquanto ele sobe, escolhe o batom,
Dos vermelhos, escarlate é seu tom.
Adora complicá-lo e dar emoção,
Na gola da camisa, um borrão.

Porta entre-aberta, ela quer jantar.
Gosta de se divertir e saem em par.
Sexta-feira é dia de dança,
Na madrugada é hora da transa.

Disse que voltava domingo de noite,
Ele não quer agüentar nenhum açoite.
Ela já teve as suas desiluões,
Agora quer viver seus tesões.

Naquela tarde, conversas apaixonantes,
Seguiram assim, acabaram como amantes.
Do resto não querem nem saber,
Estão vivendo assim por prazer.

--

Eu estava ouvindo o Jeff Beck tocando "Cause We've Ended As Lovers"(S. Wonder) e me passou essa idéia na cabeça, tive que escrever de primeira.
Pouco a ver com a letra do Stevie Wonder, talvez só um pouquinho por causa do tema, a dele é mais triste, enquanto tentei escrever algo mais feliz.
Não vou mudar nada e vai ficar do jeito que está. Acho que ficou bom.

sábado, 6 de março de 2010

Mistura errada

Fico sentado, parecendo planta.
Um punhado plantado nesse vaso,
Sentindo esse tal descaso
Que as vezes até me espanta.
Pois isso me deixa preocupado,
Como posso chegar nesse estado,
Onde toda beleza me encanta?

Estupefato por ver este cenário
De pura paz e também indiferença,
Que após vida é a minha sentença
Ouço um canto, parece de canário,
Nesse plano onde reina o inefável
Onde se presencia o inimaginável
Voando alto através desse átrio.

Quando vejo o portal aberto,
Com brilho perolado ofuscando
Tudo em sua volta, convidando,
Até o incauto examina de perto.
Me libero dessas minhas raízes,
Quero atravessar e ver matizes.
Vou esperar o momento certo.

Está decidido, vou passar agora!
Então sou barrado por um senhor
E aquela voz rasga trazendo dor.
"Aonde vai? Ainda não é sua hora!
Sempre apressado, deve se acalmar,
Vá viver e não queira esperar.
Acorde, seu lugar ainda é lá fora!"

"Mas por que não me deixa passar?
Eu não quero ficar com a agonia!
Gostaria só um pouco de harmonia.
Estou cansado de correr e lutar,
Tudo sem devido reconhecimento,
Me sobra sempre o esquecimento.
Agora diz que tenho que esperar?"

"Pare de reclamar e vá, acorde!
Você tem muito mais para viver!"
Como pode me deixar para sofrer?
Acordado vejo a janela, é sorte?
Perdido de volta ao meu quarto,
A caixa de comprimidos no criado
E copo com gin, acho que é sorte.

--

Sonhei com isso, não foi legal, mas faz parte.